9 poemas de Wladimir

Clipe. módulo 3. Grupo — Wladimir simplesmente


Alegação final

(Segunda-feira, 26 de março
de 1995, 17 horas)
passos secos dos sapatos
cegos socam o chão
seguro em agonia as duas mãos

(Processo de execução penal nº 50.657)
vivo dentro da pedra fria dos hojes
ontem e amanhã — somente hojes -
gravata que me agarra a garganta
me impondo absurda sua razão

vagamos vazios pelo frio dos
corredores vagos sombrios
labiríntica embarcação
(Outorgante: Carlos Siqueira dos Santos)
para lugar nenhum
para lugar nenhum
(Outorgado: Sérgio de Souza Vasques)

imóvel a carcaça de um cão
suas larvas recobrem o colchão
(Os fatos imputados ao réu na
denúncia foram integralmente
comprovados)

(Promotor de Justiça:
João Gerânio Gonçalves Batista)
corroem-me dourados os caninos
da morte
me perseguem — seu esporte -
e me enreda a existência
sombra fria vaga vazia que
soca cega seca o chão
do crânio

  • Wladimir

Minhas manhãs

Tarde azul acinzentada;
abro hesitante a porta
da entrada;
hostil ele me olha, do
topo da escada;
seu olho no meu peito,
fundo buraco cava;
e a ferida que entrou
igualmente sai alada;
me pergunto qual o
sentido oculto da charada,
essa estranheza logo cedo,
me cega, insânia alva;
dou dois passos adiante,
bato a porta da casa,
avanço reto e firme,
meus punhos como faca;
e o dia se encolhe, hesitante,
desce a escada;
minhas manhãs são
sempre assim,
logo que abandono a cama é
violentada sem escrúpulos a
minha calma.

  • Wladimir

No fórum

Girando na cadeira giratória
tentava me perder e à memória
dos papéis, dos selos e carimbos
da vida aborrecida e da ferida
girava olhando no cesto, o
resto do documento aceso
queimando, agonizante,
ao meu comando

Cambaleando levantei-me
atravessei a sala como bala
bêbada, tropeçando nas pessoas,
sentei-me, chamei o próximo pedinte
- senha nº 7.417!

Olhei pra ele,
colei na mesa meu chiclete
e do fundo dos seus olhos
vi lá dentro os meus, que
derretiam moles. Plantei
minhas orelhas no vaso
perguntei-lhe qual era o caso
e mal abriu a boca,
carimbei em sua testa
meu escarro.

Chamei o próximo, inquieto,
torcendo para ser um louco
displicente e eu finalmente
atirar pela janela aquela gente.
E voltar para casa e para minha lata
de sardinha semi-devorada.

  • Wladimir

Quando?

quando foi que percebemos
que a vida pode ser sempre menos?
ternos
eternos
é só o que vemos
está tudo escrito
num protocolo à tiracolo
essa vida
essa poesia
é tudo o que temos
e aqui,
nós nunca vencemos.

  • Wladimir

Fim de tarde

Me recosto nas sombras dos dias
borbulha no estômago as tardes vazias
desespero em esperas
expectativas mecânicas ativas
engrenagens que rodam em azias
escondo meu nome
atestado que sou homem
e sigo assim incógnito
sendo não mais que criatura
mordo a vida em dentadura e
escorre no queixo a espuma
vivo entre prédios e dunas
olho tudo hesitante em alturas
vista turva
vida turva
e algo à distância murmura
que a cidade pode ser mais
sem passados e futuros iguais
bebo um passado doente
engulo um presente indolente
engasgo um futuro de paz
paz? de onde veio essa palavra?
calço o sapato e chamo
o próximo indigente
- nº 5.627

  • Wladimir

Ode ao que resta

o que resta dizer
dizer o que resta
resta dizer o que
dizer que resta o
resto

  • Wladimir

Poeta do asfalto

Há poetas que falam em aves
em voos
se libertar, voar, ser ar
eu olho aquelas pombas cinzas
ratos com asas
comedores de guimbas
me repugno
fiquem vocês aí no alto
meu lugar é o asfalto
viver em silêncio
e me apagar
ao final
do terceiro ato

  • Wladimir

Intento

tento articular as palavras
mas elas não fazem
o sentido que quero
elas fazem o que querem
na minha mão fazem greve
dizem o que não quero
e fazem algo
sempre que não peço
correm quando digo parem
levantam quando digo sentem
despertam quando digo durmam
quero dizer fracasso
mas elas me mordem
tem dentes de aço
fico parado, suo
me sufoco no mormaço
abro meu maço
fumo um cigarro
fracasso na poesia
não me inquieto
só constato
essas linhas porcas:
o resumo da minha vida

  • Wladimir

Metapoema

- Eu é um outro!
Sei bem o que é isso, Rimbaud…
E eu? Que seria bem feliz em ser só outro.
Mas eu, somos outros.
Somos tantos, e sinto que
mau nos conhecemos.
Tem dias que penso que sou homem.
Tem dias que apenas finjo que sou homem.
Simplesmente para escrever poemas
como esse.
Fingir que sou alguém,
que tenho minha própria voz,
fingir que essa massa disforme,
projeto de gente,
é alguma coisa coerente,
mas coerência aqui não há.
Vivo escrevendo sobre coisas
que deveriam ser minha vida,
que deveriam ser. Mas sei: não são.
Escrevo nadas que fingem
ser fatos. Que fingem ser vida.
Minha? Não sei, de alguém. Que vive
aqui, ou na vizinhança talvez.
Meus textos são espelhos, isso eu sei,
mas opacos, refletem o vazio
de quem sou, ou de quem somos, de alguém
que finge ser eu mesmo. Talvez eu mesmo seja ele.
Talvez eu seja o outro e o outro seja eu.
Como saber? E resignado, sou, apenas. Sou todos
ou ninguém. O poema cria sua sua própria
realidade. Finge ser espelho, mas quem
ele pensa enganar? É mesa, cadeira,
criado-mudo, sofá. Somos muitos.
E alguém aqui dentro — ou lá fora —
insiste que eu existo.
Aqui dentro do poema. Que nós existimos.
E assim existo, nem me questiono,
apenas sento e escrevo,
me escrevo ou
me escrevem ou nos escrevemos.
De todo modo:
Assim afirmamos que existimos.
Já não contesto mais esses
registros, essas ideias
que nem minhas são.
Escrevo-me apenas.
É o que resta de mim.
Da vida que levo.
Do que sou, do que poderia ser.
E durante uns poucos minutos
das 24 horas de um dia
sinto que existo.
e sinto
que sinto.
Isso me basta.
Isso nos basta.
Por ora, basta.
Ou deveria bastar.
Por isso, eu insisto,
escrevo-me.
Para ser algo.
Alguém.
Só sei que nunca
saberei:
Quem?
Esse poema…

talvez.

  • Wladimir