Vamos ao parque? Vou num tempo diferente do seu

Depois de escrever um texto falando sobre disponibilidade emocional, recebi um comentário na página da TCD, em que o seguidor esmiuçava o termo de maneira mais densa, cuja reflexão perdura até agora em mim. No comentário, ele joga luz à questão trazendo a definição do conceito por Sofia Pracana — psicóloga da Universidade de Lisboa — que, segundo ela, dá-se “ pela capacidade de se ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada, abraçando, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”.

Há uns meses atrás, conheci um garoto num grupo de facebook. Como quem não quer nada, uma solicitação de amizade surgiu na tela do celular e, de repente, estávamos interligados por gostos em comuns, conversas sobre música pop e assuntos alheios, que comumente permeiam diálogos cibernéticos. Ele era de outro estado e, coincidentemente, eu iria cursar jornalismo na universidade em que ele estudava. Sim. Não bastasse toda conexão emocional que estávamos construindo — porque, querendo ou não, conexões acontecem quando tempo, dedicação e manutenção das conversas passam a ser frequentes -, eu ainda estava empolgado pela ideia de vê-lo, depois de um tempo pisando em ovos e com melindres que a internet, por vezes, propicia.

Então que, sim, encontrei com ele. Ficamos uma vez e transamos em outra. Nesta última, em especial, rolou, no entanto, a seguinte conversa pós-transa:

  • Mas você sabe que eu não quero nada sério, né?
  • Uhum, sei bem como é — respondi, diminuindo o tom de voz, precarizando qualquer movimento que pudesse dar ideia de refutação
  • É que eu já fui muito machucado etc
  • E quem não foi, nesta vida, né?
  • É. Mas é que agora… eu não estou preparado.

Basicamente, ele confirmou o que eu já imaginava em relação àquilo ali que havia construído: eu estava construindo um laço afetivo e emocional por ele e ele, por sua vez, não — ou pelo menos é a dúvida que paira na minha cabeça. O ponto é que, para efeito de comparação, cheguei à conclusão que existem dois tipos de pessoas — quiçá existam subgrupos, mas trabalharei apenas esses dois, uma vez que já estive em ambas posições -: as que se entregam e criam laços, portanto estão disponíveis emocionalmente o tempo todo, ou quase o tempo todo, não tendo medo de se machucarem e, mesmo com medo, assumem os riscos e as quedas nesta metáfora que é estar/gostar/amar alguém; e aquelas que não criam laços, tendem a fugir das relações (neste caso, românticas) e fazem parte do grupo mais cool do momento: a tribo dos desapegados, configurando assim o lado opositor, o dos indisponíveis emocionalmente.

O choque vem, então, de um fato que acontece o tempo inteiro, em todas as relações: a falta de verdade faz com que as desilusões aconteçam com mais frequência. Se a honestidade dentro das relações interpessoais é peça-chave para que as conversas e, consequentemente, movimentos aconteçam, talvez o maior problema não seja justamente a falta de clareza em assumir-se indisponível naquele momento, para aquela pessoa? Não que obrigatoriamente a verdade cure ou limpe todas as arestas que a questão disponibilidade versus indisponibilidade promova, mas não seria tudo mais simples se o papo fosse reto: “Olha, hoje, não estou emocionalmente disponível para você e não tenho como nutrir ou fazer manutenção deste relacionamento como você quer”? Ainda que as emoções e sentimentos causados pela verdade sejam dolorosos (porque ela nem sempre faz jus às expectativas criadas), a longo prazo não é o melhor que se pode acontecer?

Quem nunca ouviu o ditado popular “se não vai me comer, não me tempere”, para se referir à ausência de clareza que faz parte da nossa fatídica tentativa de estar com alguém? Pode parecer simplista, mas o ditado-popular não me deixa mentir: estamos criando um vício de se relacionar com as pessoas sem envolvimento com a justificativa de indisponibilidade emocional quando, na verdade, trata-se de uma gourmetização do corpo, do sexo e às vezes da companhia. Ou seja, eu fico aqui nessa relação com você, transo com você, vou à praia com você, compartilho minha música favorita com você, assisto àquela temporada da sua série favorita junto com você, te levo para a apresentação do meu seminário na faculdade e, no fim, eu não quero nada “sério”. E não querer nada sério soa, a essa altura, desonesto e, pior, como uma desculpa para não assumir que gosta, que quer estar junto e que vai bancar o que sente.

Porque de duas, uma: ou a pessoa realmente é uma expert em não criar absolutamente conexão nenhuma, mesmo nutrindo a relação com movimentos e dedicação; ou ela quer se relacionar na borda, na superfície, sem muito contato mesmo.

Em qual dos lados você está?

Estar/ser indisponível emocionalmente não é errado, muito pelo contrário. É certo e natural. O xis é: você está disposto a colocar sua honestidade à prova em prol de abrir mão de relações que existem para satisfazer seu ego? Porque quando não, o acúmulo emocional fica de saldo negativo pros dois. Ambos na relação sofrem quando a verdade é refutada em detrimento de um “envolvimento nem tão envolvimento assim”.

Em uma das poucas falas do filme “Amor Pleno, do cineasta Terrence Malick, a interlocutora em determinando momento diz: “Você pensou que tínhamos a eternidade. Esse tempo não existe”, para dizer que as relações não acontecem no amanhã, e sim no hoje. Hoje, que é quando podemos — ou não — estar disponíveis para alguém. Talvez as pessoas nunca estejam prontas — afinal, quem está? -, mas há algumas que aceitam o risco e vão, para o sentir imenso que é a entrega descomunal àquele que se gosta, que se quer bem.

Em outro momento, agora com a escritora Cassiana Maranha, no curta “O dorso da baleia solitária”, o conceito de indisponibilidade se dá através deste diálogo:

  • Quer ir ao parque?
  • Vou num tempo diferente do seu

E, perceba: simples. Sem muito alarde. A ideia de ir embora, de dizer não e de ser honesto não precisa ser dolorosa. Envolver-se com alguém não precisa pesar. Mas a verdade, a verdade transpassada, crua e, em si, necessária, é apenas uma: ou você bate no peito e assume que vamos, sim, ao parque e para outros lugares; ou corta-se os laços e segue por caminhos diferentes, ainda que as presenças permaneçam próximas.

Um tempo depois do sexo com ele, achamos melhor nos afastar.