#004: Lua cheia vestida com as cores de Saturno
Luas cheias podem não fazer nenhum efeito sobre uma pessoa, mas às vezes simplesmente é óbvia a influência. Esta foi uma das mais deliciosas e misteriosas que já presenciei desde que comecei a saber quando teria lua cheia e o quanto isso não tem a ver com frutas, animais, cores, flores, profissões ou sei lá o que que os new age inventam. A lua estava cheia exatamente pouco depois de 1 da manhã de domingo, 09/07, aqui em minha cidade (porém ainda dia de Saturno, pois o dia planetário só começa ao nascer do sol). Eu estava bem no alto, no bairro do Cosme Velho, observando os astros fazendo seu caminho pelo céu e observando o meu comportamento e o das pessoas no evento. Luas cheias são muito energéticas, o que não é necessariamente bom, nem ruim, apenas algo intenso. A questão é que há bastante luz, pois a Lua reflete o brilho do Sol em oposição, ou seja, de frente, reto. Sob a luz forte, nada passa desapercebido, então surgiu o momento perfeito para escrever este texto que vinha sendo estruturado nos últimos dias. É um texto importante que em algum momento teria que surgir. Vamos lá então!

Algumas pessoas dizem ao saberem que estudo Astrologia Tradicional e Magia, por um lado, coisas como “não há necessidade de fazer distinções entre tipos de magia e /correntes da astrologia/ porque tudo é tudo e não deixam de ser formas diferentes de se tentar interpretar o mundo e as coisas”. Pois eu acredito que a distinção é importante porque existem abordagens diferentes, funcionamentos diferentes e, principalmente, objetivos diferentes. É como quando a Astronomia se tornou um saber separado da Astrologia. Ela seguiu com os saberes matemáticos, óticos e observacionais já aperfeiçoados em milênios, por exemplo, mas o objetivo era outro: olhar para fora do planeta e entender o que se passa lá. A Astrologia, por sua vez, tem como objetivo olhar para fora e entender como isso influencia a vida aqui. É bem diferente. Nem melhor, nem pior, apenas diferente.
Por outro lado, há pessoas que dizem: “Astrologia é uma pseudo-ciência, não há comprovação científica, não faz sentido” e outras coisas que não preciso mencionar. Acontece que, nos dias de hoje, não há uma real necessidade de questionar a Astrologia para que as pessoas não tenham acesso a informações e poderes capazes de ameaçar forças “hegemônicas” (notoriamente a Igreja), afinal a vigente é a Astrologia Moderna. Parte dessas pessoas só tem contato com a Moderna, e portanto de certa forma está correta em encontrar ausência de sentido. Acusações de pseudo-ciência vem da ideia que a Astrologia se pretende a ser uma ciência moderna, o que não ocorre. A Astronomia Tradicional exige conhecimentos científicos, porém não da Ciência recente. Não entenda isso como uma tentativa de dizer que a Ciência moderna é inútil e muito menos de reduzir a Ciência a algo só, sem reconhecer sua vasta amplitude. A Astrologia também tem vasta amplitude, ainda que quase ninguém faça ideia do universo de suas possibilidades. A Ciência Moderna é claramente aceita em nossos tempos e respira nele, enquanto a Astrologia Tradicional é marginal e subterrânea.
Eu não tenho nenhum problema com a Ciência Moderna, assim como não tenho com desenhos animados e vídeos de gatinho no YouTube — isso sequer está em questão, não é o foco do texto — o meu ponto é que o problema para mim surge quando a Ciência recente tenta “desmistificar” a Astrologia. Isso se faz tratando toda e qualquer pessoa que se diga astróloga como uma Verdade de Astrologia e tratando seu próprio ponto de vista, forma de fazer as coisas e prioridade de julgamento como, obviamente, universais a tudo que existe no mundo, ao invés de se preocupar com coisas com as quais queiram se comprometer de forma honesta, entendendo as coisas por dentro. Não consigo não pensar que é uma tentativa de tentar julgar se um texto em mandarim faz sentido ou não levando em conta a opinião de pessoas que só falam islandês, mas dizem que usam alguns ideogramas em texto islandês, com certas mudanças e certos ideogramas inventados ou ressignificados.
O astrólogo de verdade John Frawley dá o exemplo de um experimento científico feito para deslegitimar a Astrologia que consistia em pegar, sei lá, 500 astrólogos (modernos) e pedir para eles dizerem a profissão da pessoa baseada no signo delas. O experimento provou que não funciona porque a margem de acerto foi baixa. Acontece que o tal do “signo” — que é apenas o signo no qual o Sol está na carta natal de uma pessoa e NÃO define personalidade — não tem conexão direta com trabalho. Dizer que um “virginiano” dá um bom violonista é como dizer que cadeiras geram vendas de doses de tequila — pode-se observar que doses de tequila são muito vendidas em certa cidade e que há cadeiras nos locais de venda, mas a cadeira não é parâmetro porque não se relaciona à tequila ou a vendas direta e necessariamente. Ou seja, sem ter o mínimo respeito pelo objeto de pesquisa, você só obtém resultados furados assim. Felizmente para essas coisas, existe a fragilidade de tudo que não foi posto ainda à prova do tempo.
E algumas pessoas, por fim, gostam de dizer que é inútil estudar Astrologia Tradicional por tratar-se de uma coisa inútil, afinal é “medieval”, “antiga”, pessimista, trata tudo de formas que já superamos e não tem relevância no mundo de hoje. Bom, hahahahahaha. Utilidade depende sempre de objetivo, não é? Não é um oráculo medieval também, não que isso seja um problema — a astrologia tem seu início pelo menos há 4500 anos, remontando à Babilônia Antiga. Fora que uma tradição é algo que cresce com o tempo tendo como origem suas raízes. Se algo é do passado e lá ficou, pode ter sido uma tradição ou não, mas não É uma tradição. O referencial é o presente. Hoje em dia se pratica, teoriza e expande a Astrologia Tradicional, e ela é capaz de continuar expandido porque se debruça em tudo que foi feito antes, ao invés de ser uma tentativa prepotente de reinventar a roda e o fogo, como ocorreu e ocorre em uma outra prática que faz uso do nome “astrologia”.
Eu sei que temos tradições tenebrosas no mundo que trazem consequências desastrosas, mas algo ser tradicional em si não traz consigo nenhum tipo de juízo moral. O pão caseiro em nada se assemelha à mutilação de genitais em tribos. O tratamento das coisas ditas antigas e/ou medievais como ineficientes, superadas e desnecessárias também está perigosamente conectado ao pensamento esse sim burro de que as pessoas de outros tempos tinham menos capacidade intelectual e por isso entendiam as coisas de formas erradas/equivocadas/burras/dogmáticas. Logo se vê que nos dias de hoje todas as pessoas são inteligentíssimas. O culto ao Deus Intelecto traz também problemas sérios na contemplação do que não necessariamente é regido por ele — ou é, mas está sendo contemplado por pessoas que não teriam os saberes necessários para compreender o que está diante dos olhos no momento que o contempla. Todo oráculo se pretende a evitar as coisas mais nocivas, perniciosas, trágicas e mortais. Prever é se precaver. O evitável é contornável quando se tem conhecimento da existência dele de antemão.
Coletei algumas flores que venho deixar pra vocês sobre intelectualidade e magia, primeiramente este trecho da Picatrix:
“Sobre o que é magia e quais são suas propriedades
Você deveria saber que essa ciência se chama magia. Chamamos de magia toda coisa feita pelo homem, quando sentido e espírito estão de acordo com a ação dela em todas suas partes, ou quando coisas maravilhosas são feitas de forma que os sentidos se deixam levar por elas, contemplando e maravilhando-se. A magia é difícil de ser entendida porque usa conexões escondidas de nossos sentidos e visão. Isso é porque essas conexões são poderes divinos postos diante das coisas para atraí-las para cima, como dito antes; e essa ciência é profunda e forte demais para o intelecto.
Parte dessa ciência é prática porque funciona de espírito em espírito, e isso é feito tornando similares coisas que não o são tanto em essência. A composição de imagens faz isso com espíritos e corpos, enquanto a composição da alquimia o faz com corpos e corpos. De forma mais geral, usamos a palavra magia para todas as coisas escondidas dos sentidos, e para as coisas que a maioria das pessoas não sabe como fazer e nem sabe quando suas causas se tornam aparentes.
Pelos sábios, imagens mágicas são chamadas de talismãs, que podem ser traduzidos como “violadores”, pois seja quem for que faz uma imagem, faz isso por violência, e o faz através da conquista da substância da qual ela é feita. Para que funcione vitoriosamente, ele a faz com proporções e influências matemáticas, e usa escrita celestial. Essas imagens são feitas de suas próprias substâncias de forma que possam receber a influência supracitada, e isso é feito em momentos apropriados. Pela sufumigação elas são fortalecidas, e espíritos são puxados para dentro dessas imagens.” — Picatrix (Edição Liber Rubeus), Livro 1 Capítulo 2, tradução de Greer & Warnock e re-tradução minha
Acrescento a isso que, por experiência minha em meu experimento com o talismã de Vênus e de Mercúrio, descobri que a sutileza dos espíritos depende da personalidade do ser que habita o talismã. Eles de fato não se comunicam com você quando você quer, e sim quando você precisa ou quando sua mente está um emaranhado de confusão sobre um assunto conectado a ele. Entretanto, meu talismã de Vênus, por exemplo, apesar de generoso, não gosta que se contrarie o que ele se esforçou em se comunicar e prometer. Ocorreu retaliação clara, haha.
Agora, ainda sobre realidades sutis e intelecto, deixo estas flores de um texto contemporâneo que não é de Astrologia, e sim de Necromancia (a arte de lidar com os mortos), mas completamente esclarecedor ao pintar o mesmo assunto:
“Uma das crenças mais errôneas de nossa sociedade moderna é a de que a educação é o resultado da compreensão intelectual. Em verdade, qualquer educação verdadeira é o produto de associação, observação e experiência. Se os leitores conseguirem fruir este livro na forma descrita, e um capitulo por vez, aprenderão a arte e prática da necromancia através da experiência pessoal. Por outro lado, ler este livro sem dominar as experiências envolvidas na prática da arte, apenas captando a informação implicada nele, acrescentará informação intelectual às mentes dos estudantes, e essa informação mais tarde se tornará uma barreira eficaz para o desenvolvimento de qualquer compreensão do assunto. Essa barreira do intelecto, formando uma parte da mente consciente, tornará tentativas posteriores de praticar a arte da necromancia bastante difíceis, se não impossíveis.
Todas as pessoas que leem reúnem ideias preconcebidas mentalmente e racionalizações que vêm de ler material escrito. Elas inconsciente e desapercebidamente misturam ideias preconcebidas do material com ideias mentalmente preconcebidas pré-existentes. Ideias preconcebidas e racionalizações existem firmemente tanto na mente consciente quanto na subconsciente de cada ser humano. Essas ideias preconcebidas pessoais criam barreiras para a compreensão real da experiência, que deve sempre avançar lentamente, sem qualquer chance de a racionalização ou a auto-justificação bloquearem a compreensão da experiência para a consciência interior do estudante. O conhecimento profundo ocorre quando os indivíduos estão abertos a experiências reais. O aprendizado intelectual é, no máximo, sempre um substituto superficial do verdadeiro aprendizado.” — Communing with the Spirits: The Magical Practice of Necromancy, Introdução, Martin Coleman.

Neste texto tive a intenção de mostrar que a astrologia não é menor por não se pretender a ser uma ciência moderna, por não ser verificável dentro dos padrões e formas de medir dela (e nem querer isso), e que o conhecimento intelectual não é nem o único, nem o mais eficaz, e muito menos um referencial ao qual todos devem apontar e alcançar. Não é minha intenção com o texto, no entanto, dizer que a Ciência Moderna não tem qualquer utilidade, pois isso seria incorreto, injusto e eu não estou falando sobre minha opinião em relação à ciência também, pelo menos não como um norte. A ofensa que muitos que se dizem cientistas fizeram e fazem ao que gosto e vivo não tem relação com minha atitude, afinal não quero retaliar nada — escrevo para obter luz e transportar luz para onde ela for. Ah! E peço que quem quiser deixar algum comentário, observação ou pergunta, que o faça, e eu enquanto estudante tentarei estar à altura.
