Jornada
Eu andava só.
Um dia um belo jovem se aproximou.
Ou eu me aproximei dele.
Na verdade não era tão jovem, mas sua beleza percorria a pele
Seu rosto era abençoado por harpas
Seu peito amarrado por criaturas de dentes em farpas
Como monarca de reino distante ele se apresentou.
Lá corriam rios e todos serviam-se de taças de densas águas
Caminhei com ele, entrei em seus lagos.
Me afoguei em seus olhos.
Vi minha chama sendo apagada.
Eu precisei correr, mas minha alma permaneceu inundada.
E eu carreguei comigo uma daquelas taças.
Depois de um tempo, nesta minha jornada, topei com um moço.
Ele falava de um jeito diferente
Seu corpo era sempre quente.
Era cheio de energia
Seu sorriso por inteiro me derretia
Me convidou alegremente para conhecer seu reino, sem nenhum alvoroço.
Acreditei que já tinha o suficiente de mim para trilhar a aventura
Neste reino, todos utilizavam-se de cajados.
E este rei insistia para que eu sentisse, olhasse e farejasse cada um dos artesanatos tão almejados.
E conforme eu despertava minhas sensações, a madeira queimava, me aquecendo.
O entendimento de como usar a taça foi então se estabelecendo.
Aquela água da minha alma não era mais gélida, mas me abatia em quentura.
Mas eu precisei ir embora.
Meu nariz era mais apurado
Meus olhos eram aguçados
Minha pele mais sensível
Mas a chama de nosso quarto não mais era visível.
Aprendi a apreciar nogueiras, pinheiros e ébanos, mas levei comigo um bastão de acácia de essência profundamente acolhedora.
Nesse reino ainda, eu já havia conhecido um rapaz.
Ele não falava muito, mas achei que era um cavaleiro lá do reino da onde consegui a taça, porque seu olhar também me arrastava.
Nunca me convidou para seu reino, mas fomos caminhando juntos para lá pois o ritmo era ele quem ditava.
Ele sempre me avisava quão áridas eram suas terras, e sua ineficácia em ser anfitrião, mas ele nunca parou nossa caminhada.
Eu fiquei cada vez mais perdida, já não sabia voltar pra casa, me assustando com a temerosa e encantadora estrada.
A cada passo, a tentativa de retorno parecia ser mais ineficaz.
Ele me colocava sempre para batalha, enfatizava o valor da espada, mas o que me impressionava era facilidade que tinha para o corte.
Tudo eram estratégias de guerra aéreas que eu não conseguia visualizar.
Me instigava a pensar, me seduzia a raciocinar.
Me esforçava pra acompanha-lo, porque não conseguia tirar os olhos de seus movimentos, daquela rigidez travestida de vento.
Não sei se consegui mostrar a ele a preciosidade da taça e da varinha, que ao que me parece foram incorporadoras em seu treinamento.
Uma letra separava minha confusão, não sabendo se ali tinha encontrado minha sorte ou minha…
Nunca soube se cheguei a adentrar de fato nele, se é que ele era habitável por outras pessoas.
Me perdi no caminho, o rei sumiu e me vi dilacerada de tantas lutas em vão.
Eu estava com medo, desnorteada com aquele aparentemente súbito “não”.
Frágil, vulnerável e despida, sentindo na pele o peso e a necessidade de defesa
Foi inevitável levar comigo uma de suas espadas, que pesavam pouco menos que minha própria tristeza.
Com muito custo fui retornando para a estrada, me centrando em mim e tentando fazer de motriz até minhas mágoas.
Hoje caminho só.
Aprendi que sou como uma colcha de retalhos
Levo comigo não só uma taça, uma espada e um bastão mas até mesmo as linhas mais finas que me deram andarilhos
Aprendi que em reinos que não construí, não devo achar minha morada.
Talvez eu não tenha um reino, mas entendi que o meu lar é de fato essa solitária caminhada.
Mesmo enquanto maga que trocando e aprendendo com cada instrumento
Meu destino é ser meu próprio centro
Até retornar ao pó.
