Bruninho não pode mais frequentar casamentos

Esta é uma boa história sobre casamentos. Bem, não é tão boa assim para alguns envolvidos no matrimônio. Principalmente que vai casar.

Bruninho adorava um casamento. 0800! Comida, cerveja, música, diversão e todo mundo arrumado. Adora usar terno e gravata. Curte uma beca. As meninas dizem que ele fica um gato.

Casamento na igreja, no salão, na lage ou no parque. Pode não ter padre, pode ser de qualquer religião. Noivo com noiva, noivo com noivo ou noiva com noiva. Pra ele, não tem problema não. O problema é só com quem quer casar e não fazer festa.

Quando o assunto é casamento, Bruninho tem uma sorte danada. Sempre aparece um familiar, amigo ou amiga pra casar. Uma média de um casamento por mês. Teve ano que em Maio o número aumentava para um por semana. Chegou a virar folclore. Foi apelidado de Santo Antônio. Alguém tem uma amiga desesperada pra casar? Apresenta ela pro Bruninho. A amizade com ele se fazia mais eficaz que colocar a estátua do santo de cabeça pra baixo atrás de uma porta.

Como ele adora um casório! Desde pequeno. No início, ia só pela comida, pelo refrigerante em abundância e para ver quantos bem casados ele conseguia enfiar no paletó ao fim da festa. Foi crescendo e começou a ter outros interesses. A cerveja, a dança, o Red, o Blue e o Black Label. E pelas convidadas também, claro. Sempre se dava bem. De fato, o terno e a gravata ajudavam. Já conseguiu trocar uns beijos com garçonetes, algumas madrinhas de casamento, primas dos noivos, uma colega de faculdade do irmão de um noivo, a chefe de outro noivo e até uma irmã da noiva. Esta última conquista deu um problemão. Sabe aquela velha história da irmã ciumenta que acha que a caçula resolveu pegar um cara no dia do seu casamento com o único objetivo de roubar para si todas as atenções do dia mais importante da vida dela? Pois foi a treta que rolou. Bruninho e a menina estavam bêbados demais da conta. O único dia que eles sabiam que iriam estragar era o dia seguinte com uma ressaca absurda. Que confusão que foi! Nosso herói achou que não sairia vivo dali. De repente viu um monte de primos e tios querendo enfiar a porrada nele.

Curiosamente, depois deste triste episódio, algo mudou. As cerimônias por um tempo cessaram. Teria a crise afetado o amor? Bruninho chegou a cogitar a hipótese. A vida sem uma festinha de arromba com chuva de arroz não tinha tanta graça.

E as notícias ruins começaram a chegar. Todos os casamentos que tinha ido recentemente haviam terminado em divórcio. Adultério, ciúme, excesso de brigas, problemas entre quatro paredes… Os motivos eram os mais variados. Num período de seis meses soube com pesar que nada mais nada menos do que, entre amigos e parentes, oito tiveram que mudar o status no Facebook e na vida para DIVORCIADO.

E os números só fizeram aumentar com o passar do tempo. Pirou! Teve o pensamento absurdo que tudo era sua culpa. O problema era ele. Vê se pode?! E logo em seguida surgiu um casamento em sua vida. Pensou que uma festa poderia trazer normalidade, alegria e afastar tal pensamento sem pé nem cabeça de sua mente.

Com a proximidade do evento veio uma certa angústia e uma crise de ansiedade. Hesitou em comparecer. Só que era o primeiro casamento no qual ele teria um papel importante. Um amigo de infância, que já não via fazia um certo tempo, o convocou para ser padrinho. Não revelou a triste coincidência, muito menos seus pensamentos negativos para ninguém. Respirou fundo, e foi. Foi de gravata borboleta pela primeira vez. Primeira vez e última que usou uma gravata assim. A noiva abandonou seu amigo no altar!

Depois dessa não teve jeito. Bruninho caiu em desgraça. Passou a ter certeza. Estava amaldiçoado. Estava amaldiçoando o amor alheio. Será que tinha alguma coisa a ver com transar com a irmã daquela noiva no banheiro feminino do salão de festa e ter provocado toda aquela confusão? Aquele casamento também tinha acabado mal.

Ver duas pessoas celebrando o amor era o que mais deixava ele feliz. Saber que de alguma forma ele contribuía para o fim daquilo tudo foi um golpe duro demais para ele.

Compartilhou seu drama com amigos e até buscou ajuda psicológica. Ninguém comprou o drama dele. Bobagem, Bruno. Nada de maldição. Acabou virando piada, lenda urbana. Qualquer casamento que terminava sempre surgia um engraçadinho para dizer: será que o Bruninho tava lá?

Depois do dia da fuga da noiva, Bruninho nunca mais vestiu um terno. A gravata borboleta, ele queimou. Se limitou a frequentar festas de quinze anos e formaturas. Casamento, seu evento principal, nunca mais.

Até hoje a piada permanece. O advento da tecnologia do Meme só fez facilitar a zoação. Não tem mais Bonner e Fátima? Um amigo ( da onça) manipula uma imagem e lá está Bruninho na igreja, ao lado do casal do Jornal Nacional. Acabou Brad e Angelina? Surge uma montagem da cabeça de Bruninho no corpo de uma criança carregando as alianças na cerimônia Hollyoodiana. Um GIF bem engraçado, infelizmente preciso confessar.

Os amigos pegaram pesado com ele. A brincadeira passou dos limites. Por um bom tempo ele sofreu. Não por deixar de frequentar as festas, degustar os quitutes, encher a cara ou por não mais ter a chance de conhecer uma moça bonita toda maquiada e vestindo um velo vestido de festa. Ele sentia mesmo a falta de presenciar o amor. Ser o responsável por partir corações era o que acabava com ele.

E um belo dia, Bruninho resolveu tomar uma atitude. Largou o trabalho de professor de geografia e foi estudar direito. Formou-se advogado e se especializou em divórcios. Hoje, ele praticamente tem uma sessão por semana, onde vê casais oficializando o fim de uma relação amorosa. Alguns de comum acordo, outros com certa tensão. Bruninho acha que assim pode dar jeito nas coisas. Antes, ele testemunhava o amor e logo em seguida tudo acabava. Agora, ele participa do fim da história, torcendo para que logo em breve possa receber noticias de casais querendo cancelar o divórcio e reestabelecer a união amorosa.

Por enquanto, ainda não tem tido boas noticias. Ainda não voltou a frequentar casamentos. Mas agora ele anda de terno todo dia.

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