Corte de cabelo

O que os olhos não veem o coração não sente. Pode servir para os cabelos também.
Nem quero comentar agora sobre a dificuldade que passei durante anos para cosneguir um corte de cabelo satisfatório. Inúmeras foram as tentativas. Salão, barbeiro, coiffeur, amadores… frustração atrás de frustração. Tal qual alguém que sofre uma decepção amorosa atrás de outra até encontrar aquela pessoa que parece que vai ser pra sempre. Foi o que eu achei também. Pra sempre.
Desde o ano passado venho cortando o cabelo com o mesmo cabeleireiro. 
Tá, preciso admitir uma escapada: uma cabeleleira moderna, cheia de ideias ousadas. Foi uma aventura, não significou nada. E o resultado foi horrível, o que só colaborou para mostrar que eu já tinha o que precisava. Alguém que conhece meu cabelo.
E até então tudo corria bem. Combinávamos encontros pelo whatsapp. Sempre com a cadeira disponível para mim. Oferecia água e uma tomada para carregar meu celular. Nunca deixou minha mochila ficar no chão. Acertava a barba, aparava o bigode e até oferecia uma lavada de cabelo com shampoo e uma rápida massagem. Estava feliz. Satisfeito por enfim encontrar alguém que me entendia, entendi como eu queria meu cabelo. Chega de cortar de mais, de menos, asa delta, máquina 4 ou nuca irritada. 
Até que ontem tudo mudou.
Pode ser que eu tenha alguma culpa nisso. Resolvi aparecer sem avisar. Uma surpresa. Estava sumido. Dois meses a mais do que o habitual para cortar o cabelo. Efeitos da crise. Pensei que ele iria entender.
Foi difícilo. Eu sabia que ele cortava outros cabelos. Não sou bobo. Nunca tive ilusões de ser o único. E era bom que ele tivesse vários cabelos para cortar. Nenhum dono de salão ia manter um cabeleleiro com um cliente só.
Ver ele contando o cabelo de outro mexeu comigo. As coisas que a gente não precisa saber. E se fosse só isso, tudo bem. O pior era o jeito como ele tratava esse novo cliente. Puxava assunto, se interessava pelo que ele fazia. Até perguntou sobre como estava sendo a semana dele. A gota d´água foi quando começcaram a falar de Futebol. 
FUTEBOL!
A gente não conversava, é verdade. Ele nunca demonstrou iniciativa para jogar uma conversa fora. Nas poucas vezes que tentei prolongar algum assunto não tive sucesso. Também não forcei. Achei que fazia parte de seu estilo, que talvez o papo pudesse atrapalhar seu trabalho.
Pelo visto, era o contrário.
Quanto mais falava, cortava com mais desenvoltura. Riam na mesma intensidade que cabelos caiam no chão.
Pensei em ir embora. Não precisava ver aquilo. Acabei ficando. Meu cabelo estava horrível. As pessoas não precisavam ver aquilo também.
Finalmente o corte terminou. Talvez tenha sido o mais longo corte de cabelo da história da barbearia. Nos tres ali. O cabeleleiro, o outro com um belo cortado e eu, com o meu cabelo zoado. Um clima no ar insuportável.
Enquanto eles se despediam e combinavam o próximo encontro fui para o meu lugar. Me acomodei naquela cadeira cheio de ilusões, achando que receberia o mesmo tratamento.
Algo mudou.
No início, deu mais atenção para o celular que pra mim. Não teve água, muito menos preocupação com minha mochila e com a bateria do celular. Trabalhou mudo, como sempre. E olha que era quarta-feira. Futebol era assunto que não faltava. Mas mesmo em silêncio como de costume não estava parecendo a mesma coisa. Uma sensação de que era outra pessoa que estava a cortar meu cabelo. Não tinha mais a magia, algo se perdeu.
Tão estranho que ate dormi no meio do processo. 
E o resultado, bem ficou estranho, mal finalizado.
Acho que vou ter que voltar ao mercado, prtocurar outro. Nem sem mais como se faz isso.
Posso estar sendo um pouco precipitado, não sei.
Quem sabe não tento o que muita gente diz por ai que faz e é feliz. Vou cortar eu mesmo, sozinho.

ou melhor, pedir pra namorada ;)