O cara do Uber

O cara do Uber parece ser gente boa no telefone. Eu ligo pra dizer exatamente onde estou. Não gosto de andar atrás deles. Outro dia aprendi uma boa piada: O Uber é mais barato porque metade do percurso a gente anda procurando o carro. Eu ligo principalmente por causa da piada, pra não andar e por estar quase sempre atrasado.

O cara do Uber antes deste cara do Uber era muito estrela. Não atendeu o telefone e cancelou a corrida por 4 vezes. O cara do Uber do título foi bem mais profissional. Atendeu e me encontrou no lugar certo. Não andei nada.

O cara do Uber já sabe quem eu sou. Passou por um com uma passageira que pegou em Copacabana. Me viu na rua, celular na mão, olhando para um lado e para o outro, principalmente quando um carro surge na rua. O cara do Uber usou sua intuição de Uber e viu em mim um passageiro em potencial. Ele entregou a passageiro no destino certo e resolveu um tempo esperar por mim. Eu ainda estava tentando contato com o outro cara, o vacilão. Enquanto eu não resolvia minha situação, o cara do Uber fumou um narguilê.

Como eu sei disso tudo? O cara do Uber não ofereceu bala, nem água. O cara do Uber só tinha história pra contar.

No começo, após as formalidades cordiais, eu que falei. Um desabafo. Nem pensei em um eventual corporativismo. O cara do Uber nem ousou em defender o seu colega. Concordou que o aplicativo falha. Bem antes de ser motorista, ele já era passageiro que nem eu. O cara do Uber adora o Uber. Não anda mais de ônibus, trem, metrô ou táxi.Só Uber. No lazer ou no trabalho. Ir ao Centro, de Metrô, ele e a mulher, sai mais caro.

O cara do Uber não é só o cara do Uber. Ele tem outro trabalho. Não disse qual.Mais à frente na história você vai saber que ele fez direito. Mas eu acho que ele trabalha com outra coisa.

O Uber é um a mais no orçamento. O cara do Uber prefere trabalhar de noite. Adora a Zona Sul. Justamente neste dia, começou a trabalhar cedo. Por isso pegou a passageira em Copacabana. E vai continuar assim: tarde e noite. Contra a sua vontade. É que o material escolar das crianças veio TRÊS MIL CONTO! Fora a mensalidade. E filhos, ele tem dois. Um de dez e outra de cinco. E a de cinco inventou de querer fazer natação. A mãe gostou da idéia e quer voltar a nadar. E por isso, ele tá na pista, de noite e de tarde também.

O cara do Uber não gosta de trabalhar de tarde pelo mesmo motivo que tantos outros motoristas não gostam: o trânsito! Ele ainda não curte as pessoas que usam o Uber de tarde.

O cara do Uber adora a noite. É uma maravilha. Todo mundo é maneiro. Na Zona Sul, claro. A galera quer ir e vir com mais facilidade. O cara do Uber agora quando pedem pra encerrar a corrida antes do destino final. Na esquina, na rua antes, próximo do retorno. Tudo pra facilitar o seu trabalho. E ele ainda diz que tem muito mais gentileza.

O cara do Uber até descobriu um novo point. Pelo menos novo para ele. A mureta da Urca. O cara do Uber, vez ou outra, ajuda passageiros a colocar um isopor de cerveja na mala de seu carro. Todo dia, pelo menos umas duas viagens pra lá. O cara do Uber tem 45 anos. Diz que ainda tá por fora dos novos points, conhecendo muita coisa. 25 anos fora do mercado.

De tarde não é assim. A mulher que veio de Copacabana só fez reclamar o caminho todo. Reclamou da vida, do trânsito, do trabalho, do marido, do filhos, e claro, do cara do Uber. O cara do Uber não tinha culpa do engarrafamento. De tarde tem dessas coisas. De noite não tem isso.

O cara do Uber prefere a noite, mas sabe dos perigos. Já entrou em rua errada na favela e viu gente armada. Ainda bem que não teve assalto ou violência.

Roubado, o cara do Uber já foi. Tem uns dois anos. Heitor e Wallace. Os nomes ele lembra até hoje. O processo ele guarda na gaveta. Acompanhou o caso todo. Por isso é advogado. Ou pelo menos, acho que é. Não ficou claro se chegou a se formar. O cara do Uber tava parado no sinal. Heitor apareceu esculachando, xingando ele e a mulher. Wallace veio depois botando arma na cara. Levaram dinheiro, relógio e celular.

O cara do Uber ficou puto. Correu atrás, chamou policia. Depois, sozinho, foi procurar por ele. Achou que era justiceiro. Achou, chamou a policia de novo e os caras foram presos. O cara do Uber acompanhou até a decisão do juiz. 5 anos e alguma coisa de cadeia. Heitor não tinha passagens. Wallace curtia roubar patrimônio publico.

Recentemente, o cara do Uber foi comprar cerveja no Pão de Açúcar 24 horas e reencontrou Wallace. O cara do Uber disse que trocaram olhares. Olho no olho. Wallace não lembrou dele. O cara do Uber, sim. O cara do Uber tem boa memória.

E aí, o cara do Uber começou a falar de religião. É muçulmano. Falou em árabe e tudo. E quando passou em frente à Santa Úrsula voltou a falar do direito. A madre superiora chefona de lá não gostava dele. E a faculdade ele não chegou a terminar.

O cara do Uber ainda falou de profeta, esfirra, Alcorão, kibe, Maomé e cerveja. Tem amigo muçulmano que diz que não pode. Ele bebe mesmo assim.

O cara do Uber só não bebe em serviço. Ainda bem porque logo adiante tinha uma Lei Seca. O cara do Uber disse que sempre é parado. Desta vez, não foi. Sorte minha. Sorte dele. A Lei Seca tava na esquina do destino final. Meu ouvido já tava cansado de tanto ouvir. Eu ia deixar ele falando sozinho.

Na avaliação, o cara do Uber ganhou “bom papo”.