O conto do conto do livro de contos

Terminei Tirza e precisava de um novo livro. Tem que ser assim. Um atrás do outro. Um tempo na leitura e a coisa toda desanda. Na parte de lançamentos de literatura gostei de duas capas. “Os afetos” e “Somente a verdade” — eu tenho quase certeza que era este o nome. Ultimamente é assim que escolho a próxima leitura. Uma boa capa e pouca grossura. Um livro para ser lido durante meus deslocamentos. No ônibus, metrô ou enquanto espero por alguém ou alguma coisa que está por acontecer. A capa dos “afetos” era mais bonita. Ambos são livros relativamente curtos, rápidos de ler. Feito alguém com a lua em gêmeos, tive dificuldades de escolher. Pedi ajuda, resumi a história de cada um — uma família alemã refugiada na Bolívia depois da Segunda Guerra e um livro de contos, escrito por um advogado lá do Recife que parece que virou ou já era escritor. Contos inspirados ou talvez baseados nos seus anos de escritório. Talvez muita história pra contar. Acabou que a melhor capa venceu. E lá fui eu ler “Os afetos”. 
 Demorou para criar um afeto pela história. Um livro que podia ter terminado em algumas horas acabou levando dois dias. Lá pela metade comecei a gostar. No fim das contas até bateu uma emoção. No engarrafamento, quase perto de casa, ao terminar o penúltimo capítulo, deu uma leve vontade de chorar. Guerra, ditadura, lutas, revoluções e os caminhos que a vida nos proporcionam. No fim das contas gostei.
 E para facilitar a escolha fui logo atrás dos contos do advogado pernambucano. Na travessa mesmo comecei a ler. O primeiro conto era sobre um italiano, fugido também da Segunda Guerra — eu adoro essas coincidências — que tem uma mulher que fica bem doente, paralisada na cama. Ela só mexe os músculos da face. Quando vê o marido, consegue sorrir. A filha disse que a mãe morre no dia que o pai for embora. E então ele fica, mas se apaixona por uma outra mulher. A memória falha, mas eu acho que era uma mulher que trabalhava no escritório dele. E ai ele fica nessa. Tem um final simpático, não vou contar spoiler, só que queria mais. Não sei. Só sei que não me empolguei. Então, larguei.
 Não queria um conto. Bem, não queria aquele conto.

O próximo livro acabou sendo de contos também. “Fugitiva”, da Alice Munro. A capa é maneira e chega a ser um livro grande. Grande para mim. Qualquer 300 páginas já é enorme. Porque nem sempre consigo ler no coletivo. Escolhi pela capa, pelo prêmio Nobel, por ser uma Alice e pelos 3 contos que inspiraram o novo filme do Almodóvar. Prefiro ler antes as histórias que ele leva pro cinema. 
 E lá fui eu de novo encarar um livro de contos.
 O primeiro é muito bom. Alice escreve bem demais. E o segundo, o primeiro que o Pedro usou em Julieta, tem um pouco da história lá do outro livro de contos que larguei. Não gostei tanto quanto o primeiro e acabei travando no meio do terceiro.
 Não que estivesse ruim. Pelo contrário. O problema foi tempo e engarrafamento.
 “Fugitiva” não é para ler no trânsito. Ainda mais no trânsito olímpico.
 Tive que desistir de Alice. Mas é uma coisa momentânea. Depois eu volto.

Mais ou menos tudo que estou escrevendo aqui eu contei na terapia. Ai, ela me mostrou um livro. “A caderneta vermelha”. Geralmente quem mostra livros antes, durante ou depois da sessão sou eu. Depois de alguns anos foi a vez dela variar. Me senti na obrigação de ler. A capa não é nada atraente. Parece capa de romance bobo, uma comédia romântica sem ser muito comédia e romântica até demais para o meu gosto. A história de uma mulher que tem a bolsa roubada. Dentro da bolsa tinha um monte de coisas. A caderneta vermelha tava lá. E tem um cara que encontra e começa a ler. Ele lê pra ver se acha alguma informação sobre a dona, só que a única coisa que ele descobre é uma paixão. Um amor que surge por causa das coisas escritas e do jeito que ela escreve. Mais ou menos isso. Do jeito que eu conto foi o jeito que me foi contado. Não é muito assim que o desenrolar das coisas acontece no livro. Foi algo completamente diferente do que imaginei. Vai ver que foi por isso que larguei.

Eu sempre ando com um caderninho. Escrevo um monte de coisas lá. Foi por isso que minha terapeuta me mostrou o livro. Eu já perdi dois cadernos. No livro não tinha nada que pudesse facilitar a devolução. Eu sempre coloco meu nome completo, telefone, celular, i-meio e uma recompensa. Nunca vi os caderninhos de novo. E tinha muita coisa por la. Pois é, sempre perco quando eles estão quase no final.

Fiquei sem meus caderninhos e sem um livro pra ler durante os passeios de ônibus. Voltei pra onde tudo começa: a mesa de lançamentos na travessa. E não tinha muita novidade. Até que encontrei a nova leitura. E olha que coisa: “Os primeiros contos de Truman Capote”. Contos de novo.

Será que desta vez chego ao fim?

Depois te conto.