Tu é a flor morta dentro de mim

O fato é que nem todos nascem com o dom da jardinagem

E aparelhos de nada servem se não há a leveza da mão. Sabes que nunca fui leve, mas tentei mesmo assim, diversas vezes. Gastei muito tempo cuidando de ti, com meu coração que inflava orgulhoso a cada novo espinho, mesmo sabendo o quanto eles poderiam me machucar. Continuei, plantei-te cada vez mais fundo dentro de mim. E que felicidade, florzinha! Cada espinho teu me arranhando por dentro me dava duas certezas: Eu estava viva, e isso era real.

Cada grão de pólen teu que me sufocava em alergia me dizia que eu também podia praticar a jardinagem.

Florzinha, como eu tentei adequar meu solo pra que você pudesse florescer. Você não tem ideia de como sua espécie é exigente, e de como é difícil alterar o próprio pH, se limpar por dentro, trocar as bases e se encher de nutrientes pra te nutrir, você não tem ideia! Sempre me achou forte, mas foi tudo montado de forma artificial, justamente pra você. E funcionou! Depois de 3 meses de foco desesperado, sem dormir ou comer, vivendo pra te viver, eu consegui! Surgiu um botãozinho! E era tão lindo, tão meu, tão novo. Ele cresceu, e se abriu, exalando um aroma que nunca antes eu tinha sentido. E era bom, florzinha. Não era o meu favorito, mas era bom, e foi conquistado com muito esforço. Eu estava feliz. Eu estava viva.

O problema foi quando acabaram meus recursos, eu não podia mais prover. Eu percebi que você era só flor, fruto não seria jamais. E eu cuidaria de você pra sempre, me alterando pra te fazer sobreviver, mas você jamais me daria um nutriente. Então eu chorei, florzinha.

Um rio de lágrimas, chorei por mim e por você. E tu não podia fazer nada pra me consolar, né? Tu é só flor, eu sou só gente. Não é assim que funciona. Chorei de novo. Aí eu vi uma das minhas gotas cair na borda da tua pétala, borrando o contorno. E percebi que você não era real. Tu era um desenho. Era quase flor. Mas não era.

Foi um choque. Me achei maluca, florzinha. Não podia ser real. Aproximei meu nariz e percebi que você tinha cheiro de abacaxi: era desenhada com caneta gel. E eu achei que era teu botão. Meu deus! Eu me desdobrei pra dar nutrientes pra um papel! E toda aquela dor que eu senti? E todo o esforço? E tudo aquilo? Nada. Tu era uma florzinha desenhada no papel.

Olha, florzinha. Eu não quero desdenhar de você. Eu queria mesmo era fruta, aí você se mostrou flor, e eu já fiquei decepcionada. Depois que eu descobri que tu era papel então… porque é que eu te cultivei em mim?

Não. Eu não quero ser ingrata. Você nunca foi real, mas as sensações foram, não é? Me fez feliz. Me ensinou que eu posso mudar (Se bem que nem sempre vale a pena). Foi tão bela no seu próprio espaço que me fez acreditar. Esse mérito é teu, florzinha.

E escuta, não fica triste não. No fim das contas eu te coloquei debaixo da terra que sobrou e com a sua decomposição ganhei nutrientes que me fizeram sentir maior que o mundo. O meu pH aos poucos está voltando ao normal, e as feridas reais dos teus espinhos desenhados já estão cicatrizando. Vai ficar tudo bem.

É a última vez que te escrevo, florzinha. Adeus.