Meu irmão mais velho


Quando nasci ele tinha quatro anos. No auge de seu privilégio de filho único, viu naquela bolotinha de quatro quilos e meio a maior ameaça de sua vida. A fim de proteger seu território, armava emboscadas ardilosas para eliminar sua recém-chegada rival. Em uma delas, se aproximou sorrateiramente do meu berço e deixou escapar das pequenas e perigosas mãozinhas um barulhento brinquedo que me fez despertar aos berros. Mesmo sem saber, ali já me ensinava uma importante lição: é, gordinha, você vai ter que provar um bocado pra se dar bem por aqui!

A verdade é que chegar ao mundo depois dele só me trouxe benefícios. É como se de alguma forma ele tivesse preparado o terreno para a minha chegada.

E acho que foi assim que me senti quando tomei a frente dele naquela tarde, anos depois. Ele queria pipoca. Meus pais queriam que ele vencesse a timidez e fosse por conta própria encarar o bigodudo de chapéu branco que remexia o milho. Eu, provavelmente, queria resolver aquela pendenga desimportante para comer, é claro, mais pipoca.

Naquela imensidão de quadris e pernas gigantes, tomei as moedas da mão dele e encarei o mundo que o amedrontava. Já no auge dos meus dois anos e qualquer coisa, sabia que poderia enfrentar quantos pipoqueiros fossem necessários por ele. Como quem elimina dragões e vence labaredas de fogo, percorri aqueles dois metros com uma valentia que, literalmente, não cabia em mim. E voltei com um saco cheinho de pipoca para o meu irmão mais velho.

As diferenças cresceram com a gente. O respeito e a compreensão também. Meus cabelos e meu guarda-roupas agradem sua persistência. Era sempre pro quarto dele que eu corria ao primeiro sinal de uma festa da escola. Ele, feliz, procurava as melhores e mais sofisticadas opções. Eu, super mal humorada, praguejava contra a decadência da sociedade, os costumes, os shoppings e o planeta. Até hoje é assim.

Também eram seus ouvidos que eu escolhia para acolherem minhas angústias, reclamar dos atentados à minha liberdade cometidos pelos nossos pais e de como a humanidade estava fadada ao fracasso. Ele ouvia tudo calado e, invariavelmente, concluía com sua sabedoria, travestida de mansidão e generosidade, me mostrando que nem o mundo era tão feio e nem eu estava tão errada assim.

Hoje é aniversário dele. E eu só queria lembrá-lo que estarei aqui sempre, seja para encarar todos os pipoqueiros do mundo ou só discutir a existência e o fracasso (não disse?) da humanidade. Eu te amo do tamanho do universo.

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