O que fazer quando tudo se transforma

Estou em fase de mudança intensa. Saí de casa, deixei todo mundo pra trás e vim sozinha morar em Portugal. Mesmo familiarizada com o lugar e com a experiência de estar longe, desta vez, tem sido diferente. A perspectiva de volta é tardia, o adeus, longo. Tudo que eu conheço vai estar muito diferente quando eu voltar. Principalmente as pessoas.

É natural isso de não estarmos sempre rodeados dos mesmos, mas desconhecer alguém é muito estranho. Você conhece uma pessoa e, por um certo tempo, ela está colada a você, te acompanhando, e vice e versa. Então, de um dia pro outro, você não está mais ali. Quando a distância vem (seja em tempo, seja em quilômetros, seja em sentimento), tudo muda. A casa que era familiar ganha uma cadeira nova, quadros na parede. A pessoa que era familiar muda de rosto, muda de hábitos. A cada dia, um átomo de mudança. O processo é lento, quase gentil, mas transgressor. A imagem que tínhamos tão nítida na mente vai perdendo fragmentos, os traços vão se tornando opacos, os sons vão ficando baixinhos. E, quando a gente vê, não reconhecemos mais aquela pessoa. Crescemos pra lados opostos, não nos acompanhamos no caminho. A conversa parece vazia, parece que falta.

Sempre me intrigou essa naturalidade com que seguimos a vida. Como alguém pode ser central pra você e, dali a algum tempo, nem sequer fazer parte do seu dia a dia? Acontece. É natural, mas é estranho. Muitas vezes é até necessário, libertador. Mas essas idas e vindas de pessoas pode ser triste. Às vezes, esse desfazer-se de alguém é descontínuo. Ele rasga. Deixa aquela dorzinha chata, presente. Você sente a cicatriz tentando se fechar, se apagar.

Tenho pensado muito sobre a questão do encontro. De encontrarmos uns aos outros. Como essa troca (se nos deixarmos) é intensa! Realmente trocamos muita coisa, a gente se mistura, de certa forma. Gostos, manias, lembranças, os limites entre o meu e seu ficam incertos. É como aquarela em papel, uma mancha de cor. Livre. Mas, quando vem o desencontro, ficamos um pouco perdidos. O que será que era meu? O que era seu? O que era nosso? As pessoas nos despertam personalidades. Criamos um universo particular, privado, onde somos quem não somos com mais ninguém. Cada um nos desperta um eu. E, no momento do reencontro, ele acaba sendo interno também, recuperamos quem somos quando estamos com aquela pessoa. Sentimos falta de nós próprios quando temos saudade de alguém. Isso é muito louco, né? Sentimentos são uma zona. Fazem uma bagunça interna, viram e reviram tudo, e a gente sai atrás, tentando entender como essa desordem pode fazer tanto sentido.

Mas o que fazer quando alguém vem te bagunçar e depois vai embora? O que fazer quando tudo muda? E os amigos, os amores, os lugares continuam se transformando à sua distância? Olhe pra dentro. Dê uma olhada pra zona que ficou e se pergunte: o que vale a pena manter? O que escolho deixar em mim? Quem sou eu agora? Esse é o reencontro mais importante: o com a gente mesmo. Juntar as diversas personalidades que nos foram despertadas e formar um mosaico cada vez mais completo de quem a gente é.

Minha mãe me ensinou, desde que sou pequena, que todas as respostas estão dentro de nós. Entender e ouvir o que vem dali é muito importante. A mudança interna vem em avalanche. Precisamos nos cuidar, fazer sentido das coisas e entender quem somos apesar das transformações e por causa das transformações. Precisamos acompanhar as mudanças e saber lidar com elas. Aceitar que tudo tem seu tempo, que desconhecidos se tornam amores, que amores se tornam desconhecidos. E ficar em paz com tudo isso.