
12 de janeiro de 2016.
Entrou em casa sem fazer barulho, pq a chuva tava boa no comecinho de noite que estava chegando.
Ouviu gemidos.
Ficou mais calado.
Não precisou abrir a porta.
Observou.
Pegou uma mochila.
Colocou na costas.
Tirou a foto deles da moldura.
Levou no bolso.
Deixou um bilhete.
Ela ouviu a porta bater.
Ele deixou a aliança no muro.
13 anos de casados.
E tinham comprado tudo.
Ele pensava o por que.
Ela pensava aonde.
12 de janeiro de 2018.
Sentado no deserto.
Sentada na praia.
Ele com fome depois de estar 3 dias andando.
Ela com sede depois de horas correndo.
Ainda pensava no por que tinha acontecido aquilo.
Levava tudo, sem hesitar, à apoiava em qualquer coisa que fosse, evitava ficar na monotonia, e sempre amou.
Ela imaginava onde será que ele estaria, não Ele, mas o outro, com a qual apagou o sentimento que tinha, o comodismo de ter encontrado alguém.
Bom
Ou ruim.
Estava sempre lá.
O barulho de carros correndo nas dunas era de se distinguir entre o vento escaldante do deserto, e ele sabia que coisa boa não era.
1 ano e 2 meses antes tinha descoberto, mas não falará nada, e esperava que ela cumprisse a promessa
_se vc desistir de me amar, encontrar alguém, apenas me diga que entenderei_
2 anos depois era, soldado paraquedista da legião estrangeira, o plano de contingência de um pessimista, estava na décima primeira ou decima segunda incursão pelo país que o acolheu.
Ela estava esperando depois da rotineira linha de exercicios na praia, ele chegou, a beijou e continuaram sorrindo, olhando o por do sol.
Um estalo na alma.
Uma dor lascivante.
Nos dois.
Algo estava errado.
Ela sentiu uma pontada no coração.
Ele sentiu a munição 556 perfurar seu baço de um lado ao outro.
Não caiu, nem gritou, atirou contra os 2 jipes beges com 4 extremistas do Iêmem, que divergiam da opinião que a França defendia o Estado.
Ela sentiu que algo não ia bem, olhou pra cima e imaginou o que Ele estaria fazendo, só soube pelos pais que ele tinha saido do Brasil, e ido viajar. E se tivesse o amado de verdade? Não só por dizer que o amava na igreja, ela sabia que não o queria, nao naquela hora do eu vós declaro, queria viver, conhecer pessoas, conhecer lugares, experimentar sabores.
O sangue não ficava mais dentro do corpo e arrastado, ele tentava ficar de olhos abertos como o companheiro nigeriano gritava.
_*OPEN U'RS EYES WHITE SKULL!*_
O esforço e a hemorragia fizeram ele fechar os olhos e imaginar.
Se ele tivesse se esforçado mais.
Onde estaria.
Mas, nas linhas de tempo que corriam na mente dele. Ele sempre estava com ela.
Nas missões cristãs de apoio aos necessitados.
Nas viagens programadas que nunca sairam.
Imaginou tanta coisa enquanto a areia misturada com sangue sujava a farda bege escuro e as botas já gastas.
Ele fechou os olhos e pegou a foto que nunca saira do bolso.
Olhou.
Viu o céu.
Lembrou a brisa da praia e cheiro do rio.
E fechou os olhos de novo.
