Há algum tempo deparei-me com uma turma de “gurus” que criou umas fórmulas mágicas para ganhar dinheiro. Aparentemente deu certo. Os caras estão faturando muito. Centenas de milhares de reais todos os anos ensinando a turma a fazer “milagres” com posts patrocinados no Facebook, mexendo com SEO, AdWords e adjacências.

Certo dia, em um grupo que discutia comunicação/mídia/marketing, não medi palavras para descrever minha indignação. Entre eles, um cidadão disse que para isso “não precisa de estudo formal”.

Certo. De fato, não precisa. Mas, será que fazer marketing é como ferver água? Eu acredito que não.

Na ocasião, quando percebi que havia uma certa confusão enquanto argumentava, apelei para a comida (todo mundo se interessa por comida e consegue compreender paralelismos feitos com ela). Eis que surgiu a Parábola da Picanha.

Onde posso comer da sua carne?

A Parábola da Picanha.

Metade da população sabe assar carne na brasa, outra metade assa sem saber. Alguns sabem fazer churrasco (manejar o carvão, subir e descer os espetos e grelhas na churrasqueira, jogar água no fogo, bater o sal da carne…). Fazer churrasco não é assar carne na brasa.

Esses “gurus” dizem que carne assada na brasa é churrasco. Mas afirmo, com toda a certeza de quem aprecia carne, não é. Explico.

Tome um desses “gurus de fórmula mágica” e um churrasqueiro. A cada um deles, dê uma peça de picanha de igual formato e peso e um quilo de sal grosso.

Ao “guru”, pague $500 para que prepare a carne em uma hora e explique o passo-a-passo.

Ao churrasqueiro você paga $1.500 para que ele prepare a carne em seu tempo e explique o passo-a-passo.

Você acha que vai sair a mesma coisa? Tenho certeza que não.

Para o “guru” conseguir o mesmo dinheiro que o churrasqueiro receberá, ele precisa ser rápido, preparando e explicando os passos de maneira sucinta, mais ou menos assim:

“Pegue a carne, passe o sal em toda a carne e leve ao fogo (não muito alto). Vire o espeto a cada cinco minutos. Se estiver assando homogeneamente, deixe mais um pouco. Se estiver assando mais de um lado do que do outro, compense. Foi assim que fiz. Prove e veja como está gostosa. Aproveitando, fiz essa farofa ‘de brinde’. Bom apetite.”

Você pega um garfo e uma faca, corta um pedaço e prova. Está deliciosa, um pouco salgada, mas deliciosa. Você precisa compensar com água ou refrigerante, mas está deliciosa. Você pega mais um pedaço, passa na farofa (que não estava no contrato) e percebe que a farofa também está, como a picanha, deliciosa, mas salgada. Mais um gole de água ou refrigerante e você desiste de comer aquela carne deliciosa, porque está cheio da mistura de farinha e líquido.

Um mês depois do trauma de comer aquela picanha e farofa deliciosas e salgadas, você chama um churrasqueiro. A didática é mais ou menos essa:

“Bom, antes de mais nada, você precisa saber que não se deve furar a carne mais que uma vez e é para passar o espeto. Para fazer uma picanha realmente saborosa, temos duas opções: a peça inteira ou em fatias. Como você prefere?”

Você teve uma experiência anterior com a peça inteira e pede que seja feito assim. Então, o churrasqueiro fala:

“Ok. Mas, se você vai comer sozinho, é melhor que façamos em fatias, pois podemos assar de acordo com sua fome. Tem certeza que quer inteira?”

Nessa conversa, já vão-se uns 15 minutos e você está morrendo de fome e ansiedade. Enquanto pensa, o churrasqueiro te serve um pãozinho de alho, uma linguiça e uma “tulipinha” de frango para acalmar o estômago, com um pouquinho de vinagrete e molho de pimenta. Farofa não. Você pensa bem, mas pede que seja feita a picanha inteira.

“Bom, você quem manda. Mas vou cortar um pedaço, fazer três fatias e reservar. O restante vai em peça para o fogo agora.”

Você concorda e vai ouvindo o passo-a-passo:

“A picanha não tem pressa para ser assada e você não pode ter pressa para comê-la. O sal vai na capa de gordura, que fica virada para cima, na prateleira mais alta da churrasqueira, e o motivo é simples: essa gordura salgada vai derreter e penetrar naturalmente na carne. A picanha não tem pressa para ser assada e você pode ir comendo mais um franguinho enquanto isso, que tal?”

Em uma hora você não comeu picanha, teve uma aula sobre churrascaria e já provou outras iguarias. Você pensa: “será que esse cara vai me enrolar?”. Não. Ele está sendo muito bem pago para preparar a picanha e você já recebeu muito mais informações essenciais que na experiência anterior.

“Muito bem, com a gordura derretida, podemos bater um pouco do sal e baixar a carne na churrasqueira”.

Duas horas e tanto, algumas “tulipinhas” de frango e duas linguiças depois, vem o churrasqueiro trazendo a peça de picanha que você pediu.

“Prove. Se não gostar, podemos fazer as fatias que separei. Aqui tem um pouco de farofa, mas sugiro que coma só a carne, para você sentir seu sabor real.”

Então, você pega um garfo e uma faca, corta um pedaço e prova. Está deliciosa. Sal no ponto. Derretendo na boca. E, antes de engolir o primeiro pedaço, já vai cortando o segundo. O churrasqueiro pergunta o que você achou, e tudo o que você consegue responder é um sorriso com boca cheia e os olhos revirando para cima, que pode ser traduzido em “Tá divino! Quero mais!”

É aí que você percebe que há diferença entre um “guru de fórmula mágica” e um profissional de marketing/propaganda/mídias sociais com horas de estudo, graduação, extensão e pós-graduação (graduações).

Assar carne é fácil, basta colocar ao fogo. Difícil mesmo é fazer churrasco.