Descanso: não um luxo, mas uma necessidade

Minha forma preferida de descansar: conversar com amigos

Sou workaholic assumido. Amo fazer muitas coisas. Isso em parte é relacionado com minhas hipomanias. Quando dei o treinamento de 3 meses, em programação, para jornalistas da Folha, a editora do nosso grupo logo me perguntou sobre isso. Minha resposta: “Sim, deu para perceber né?”. Ficava horas a mais na redação, queria ver aquelas matérias serem terminadas rs. Todo final de semestre faço um relatório de atividades para a FATEC. Entre agosto e dezembro do ano passado foram 26 Workshops de Raspagem e Análise de Dados Públicos. Se quero continuar contribuindo, preciso descansar, não é um luxo, mas uma necessidade. Existem dois tipos de cansaço, físico e psicológico. Vou escrever sobre o segundo. Também situações extremas: morte de um familiar, nascimento de um novo filho, ser despedido de um emprego. Irei tratar mais do cansaço psicológico cotidiano, previsível.

Em geral não é o trabalho duro que provoca o burnout, mas o sentimento de que nossa vida não tem sentido. Quando a pessoa sente-se desvalorizada no seu trabalho. “Ocorreu-me a ideia de que se quisesse aniquilar alguém, bastaria dar-lhe um trabalho de total inutilidade e falta de sentido” (Dostoiévski). Isso se tornou realidade no século XX, num grupo de prisioneiros judeus húngaros. O comandante do campo ordenou, que uma centena de prisioneiros, transportassem areia de um extremo ao outro, e quando terminavam a tarefa, a ordem era levar ao lugar original. Dia após dia, semana após semana, levavam areia e devolviam. Enlouqueceram, tentaram fugir, foram baleados pelos guardas, outros se atiraram nas cercas eletrificadas. (Eugene Heimler, “Mental Illness and Social Work”). Hoje movemos código de um repositório do github para outro. Algumas vezes sem sentido. O que dá sentido para um código? É o problema que ele resolve, do qual o programa é apenas um meio. Uma forma minha de descansar é buscar os problemas mais interessantes, que encontro nos cursos de Análise de Dados Públicos. Isso funciona no meu contexto, que é de ensino de programação. Jornalistas, economistas, advogados, pessoas de Humanas em geral tem me dado essas demandas, em Políticas Públicas. Levo depois estes problemas para os meus alunos na FATEC. Criamos um círculo virtuoso: alunos que se envolvem em problemas reais, cujo código resultante depois serve de exemplo para ensinar programação para pessoas de Humanas.

Ajuda conhecer qual o traço da personalidade que mais me faz cansar: a) perfeccionismo tendendo à mania, que me leva a ficar em detalhes esquecendo o todo, numa irreflexão que tira o foco do essencial b) dramatização que aumenta os efeitos internos de ações ordinárias, ansiedade por não prever os acontecimentos e suas naturais consequências c) ativismo que nos leva a correr sem saber para onde d) falta de independência e capacidade de decidir, que nos faz padecer pelas coisas indefinidas e) descubra o seu caso particular rs, não sou psicólogo, mas faço terapia toda semana e recomendo fortemente, para o autoconhecimento.

No mundo da TI é comum o Hackaton, uma maratona de um final de semana, onde as pessoas ficam comendo pizza sem dormir, regado à RedBull. Ok, existem casos e casos, muitos tem retidão de intenção e até dão os diretos dos projetos para os participantes. Mas, imho, é a antítese de um trabalho sadio. O problema de muitas empresas é ver esta forma de trabalhar como habitual, ordinária. Trabalhei em uma grande instituição financeira, várias maratonas de 36 horas programando, sem parar. O médico foi categórico: eu tinha que mudar. Larguei tudo. Comecei a pós graduação no ITA, com uma bolsa CAPES, olha só, para quem trabalhava em instituições financeiras enormes é um choque o valor de uma bolsa. Depois prestei um concurso na FATEC, faculdade pública estatudal de São Paulo. Sobre minhas aulas escrevi “Hoje sou um professor feliz”.

Se você é um gerente, chefe, coordenador. As pessoas são diferentes, respeite a diversidade. Algumas pessoas adoram resolver imprevistos, viajar para conferências, se divertem com isso e a rotina acaba com sua parte psicológica. Outras necessitam de mais estabilidade, não gostam do curto prazo, ficam esgotadas se não planejam com paz cada passo. Adoro viajar para eventos. Consigo me virar com hospedagem e transporte. Mas me esgota fazer um relatório que justifique a viagem feita, pois é muita burocracia, assinaturas, comprovantes, etc. Não existem unicórnios, pessoas totalmente poli-facéticas. Pedir algo que excede a capacidade dela irá esgotá-la. Cada um recebeu seus dons e procura desenvolvê-los. Focar naquilo que lhe é estranho por natureza pode cansar.

A planta cresce, não quando você joga um balde d’água nela, mas pela chuva fina e constante. Não é necessário gastar muito para descansar. Alguma viagem sim, serve para mudar de ares. Porém precisamos de hábitos saudáveis. O grego hygieinos, saudável, dá origem a palavra higiene, conjunto de medidas que permite conservar a saúde. Higiene mental: talvez desconectar-se do mundo digital. Hoje é infinito o número de mensagens nas redes sociais, músicas no Spotify, opções de vídeo no Netflix, notícias na internet. O homem moderno pode cair na ansiedade, pois fica perdido com a quantidade de opções que lhe são dadas. A comunicação eletrônica dá uma urgência, uma pressa na resposta. As dezenas de contatos não sabem que você é um só e está simplesmente falando com um amigo, familiar ou namorada naquele instante. Estar online não significa que temos o direito de interromper a pessoa. Comecei a usar o iMessage por causa disso, por causa do “online” que aparece para meus contatos automaticamente ao entrar no Wpp. E por outro lado, não há mal em responder assincronamente, ou em muitos casos, nem responder.

Sono: princípio elementar de que precisamos dormir, quando habitualmente trabalhamos pela madrugada, quando acessamos muito o celular no meio da noite, podemos ter um sono não reparador. Eu deixo o celular longe do alcance, ou pelo menos em modo avião. Uma pessoa pode também ter a dificuldade de dormir. A insônia em si não é uma doença, mas um sintoma. Temos que buscar as causas, muitas vezes com ajuda de um especialista. Podem ser fatores externos, luz, alimentação, ruídos, ou internos de ansiedade, tensão por problemas de relacionamento, respiração. Sempre podemos aprender sobre o sono. Por exemplo, pensava que devia ficar na cama, foi um erro. Agora se não estou com sono não fico angustiado, vou relaxar comendo algo, escutando uma música ou vendo algum vídeo curto.

Stress: pressão. Saber distender, sem ter o tempo totalmente ocupado, pois assim acabamos sempre correndo para chegar milimetricamente nos compromissos. Ter ritmo não implica correria ou precipitação. Existem pessoas habitualmente com cara de pressa, ou checando constantemente as notificações das mensagens que vão e voltam. A facilidade de transporte e de comunicação eletrônica criou muitos indivíduos angustiados. Assim você pode deixar simplesmente ver sua vida passar. Uma parte do descanso está na capacidade de contemplar as boas coisas da vida. Nesta semana captei este casal de mãos dadas. Devem ter uns 70 a 80 anos.

Casal que ainda anda de mãos dadas

Diversidade nas formas de descansar. Cada um pode descobrir formas criativas de descansar. Eu trabalho muito com códigos e pensando. Então me descansa fazer trabalhos manuais. Vou fazer uma confissão: cozinho dançando kkk. São várias formas de descansar. A cozinha, bricolagem, pintura, criar uma horta para alimentação orgânica, aprender novas línguas, encontrar a natureza do alto de um monte ou vendo a imensidão do mar, visitar antigos amigos e parentes, escutar um podcast enquanto fazemos algo manual. Um amigo está cultivando minhocas, todo o lixo orgânico vai para elas, e periodicamente elas devolvem húmus, que serve para a horta caseira.

BOM HUMOR. Saber rir de si próprio. Dramático já chega o Galvão Bueno nas narrações de futebol.