Minha experiência na PyCon Namíbia

Fomos pela comunidade. Participei ajudando o Django Girls, dando uma palestra e um curso de introdução à programação, na segunda PyCon Namíbia. Para quem assistiu Mad Max Fury Road, aquele deserto é na Namíbia, um país no sul da África com dois milhões de habitantes, tendo como vizinhos Angola, Botsuana e África do Sul. E você deve estar se perguntando: como eu fui para lá na África? Só para ajudar. Em termos de turismo a Namíbia é um grande deserto, diferente da África do Sul, por exemplo. Desta forma pessoas do mundo inteiro foram ajudar a desenvolver a comunidade na África: Reino Unido, Holanda, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Brasil, pelo que me lembro.

Primeiras impressões da cidade. A capital Windhoek é bonita, limpa, com avenidas largas. Os carros são novos. Até poucos anos atrás dependia da África do Sul. A comida é apimentada, comem muita carne em geral. O que não me passou desapercebido, quase sempre nos restaurantes se pedia para empacotar as sobras, para serem levadas. Durante a conferência também os participantes pediam para guardar o resto da refeição, que era levado para casa no final do dia. O meio de transporte principal é o táxi. O percurso para qualquer parte da cidade custava de R$ 4,00 a R$ 5,00 reais. As pessoas são muito acolhedoras! Quando cheguei, me perdi, pois mudaram o nome de algumas ruas. Duas moças, militares, conversaram comigo. Eu disse o nome da rua. Elas me responderam: muito longe, nós vamos com você até lá! Durante vinte minutos elas foram conversando sobre a cultura, pessoas, comigo. Um bom começo.

Pessoas > Tecnologia. O Django Girls foi um pouco conturbado, faltou luz elétrica e a internet parou de funcionar num momento da tarde. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que não eram de Computação, a grande maioria. Uma moça que ajudei era de Ciências Sociais, feminista, e queria divulgar sua causa pela África construindo um site. Outra, do terceiro ano de medicina, como curiosidade adicional ela fora 5o lugar no Miss Namíbia. Mas a grande surpresa veio no jantar de confraternização. Chegamos uns 40 minutos antes no restaurante, dentro da própria universidade. Os participantes e funcionários, vendo que estávamos lá, resolveram agradecer, cantando e dançando. Ao ver alguns congressistas chorando de alegria, inclusive eu, guardei para lembrar: pessoas > tecnologia. Foi um detalhe e tanto que tiveram conosco.

Fomos para ajudar, mas na verdade temos muito que aprender da África: na Namíbia 50% dos estudantes de Computação são mulheres. A conferência começou, com duas trilhas, com palestrantes também da universidade. Eu dei minha palestra, sobre o Python para Zumbis e sua repercussão na comunidade (algum dia eu conto as sugestões que me deram). No segundo dia, fomos surpreendidos por uma barricada, que nos impediu de entrar na Universidade. Os alunos estavam fazendo um protesto, pois não há universidade gratuita lá, todas as três principais de Windhoek eram pagas. O motivo era justo, porém estávamos sem lugar para o evento. Em 45 minutos a organização havia conseguido um outro local. Como demoraria mais tempo para avisar todos, o evento foi retomado no dia seguinte. Um detalhe de como as pessoas lá são acolhedoras: eu elogiei a camisa de um rapaz do Zimbabwe, bem colorida. A Jessica Upani, que era a chair, me disse no final do dia: amanhã você é meu convidado para almoçar fora. Eu pensei que era um restaurante mais típico e fui. Depois do almoço ela me levou numa vila de artesãos, onde faziam as camisas e ganhei uma de recordação :-) Perguntei para ela também qual a porcentagem de meninas no evento. Fiquei sabendo 50% dos participantes era mulher! E que no ano anterior também haviam tido esse número. Qual era o segredo? Ela me explicou que na Namíbia, 50% dos estudantes dos cursos de Computação eram mulheres. Eu pensei, estamos aqui para ajudar, mas na verdade temos muito que aprender da África.

Como na Namíbia conseguiram 50% de mulheres nos cursos de Computação? Excelente pergunta, tão boa que foi motivo de um jantar dos participantes. Descobrimos que outros países africanos não seguem essa proporção, como África do Sul ou Nigéria. E que a Namíbia não tinha nenhuma ação governamental nesse sentido. O povo namibiano é um povo conservador, onde os alunos do ensino médio andam de gravata e até na conferência rapazes usavam camisa social manga comprida. O máximo que eu cheguei é o temperamento “amigável” do povo, que talvez anulasse a força do estereótipo na área. Se alguém conseguir uma explicação eu estou bastante interessado.

Raspberry Pi’s. Eu dei o workshop para iniciantes no último dia. A minha surpresa foi que haviam montado um laboratório para até 50 pessoas com Raspberry PI’s, patrocinados pela PSF. No final doaram Raspberry’s para quem não tivesse computador em casa. O que foi o caso de algumas meninas que participaram do Django Girl’s.

Futuro. Algumas pessoas que estavam comigo organizaram outras conferências na Nigéria e no Zimbabwe. A primeira PyCon Zim teve um problema financeiro: a PSF concedeu o grant de ajuda, porém a lei americana impedia o envio do dinheiro, devido ao governo atual. Os organizadores levantaram um financiamento coletivo. Pessoas do mundo todo começaram a fazer Lightning Talks divulgando a campanha. E então surge a força da comunidade: 213 pessoas levantaram 4,700 euros para o Zimbabwe. Finalizando, aqui você terá uma lista de recursos na África e vale a pena assistir Keynote da Aisha Bello e do Daniele Procida na EuroPython. Nesta palestra, por exemplo, a Aisha comenta que até o momento já foram organizados 62 Django Girls na África em 11 países!

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