“O que importa não são as cartas que recebemos na vida, mas nosso modo de jogar com elas.” Kay Redfield Jamison

Acelerado. Sempre tive altas acelerações na minha vida. Lembro de um semestre em que comecei a estudar dinamarquês, mandarim e teatro ao mesmo tempo. Tinha uma sensação de urgência, irresistível, por fazer coisas, sem controle, num fascínio contagiante e veemente. Falar rápido, dormir pouco. Porém desabei uma vez, incapacitado para nada, durante toda a semana. Esses e outros muitos sintomas me levaram ao médico. Fui num psiquiatra e tive um diagnóstico: transtorno bipolar. Convivo com isso desde 2005, tomo três remédios e faço psicoterapia.

Ref. para o artigo original do Estadão

O Brasil tem um número de pessoas com transtornos mentais muito acima da média mundial, por exemplo, 9,3% tem problemas de ansiedade e 5,8% depressão, segundo dados da OMS, divulgados no início deste ano. Em geral vemos as pessoas alegres nas redes sociais, mas não imaginamos que uma parte significativa delas sofre com algum destes problemas.

Eu decidi escrever este post para ajudar alguém, que esteja passando por alguma dificuldade psíquica. Pela estatística é muito provável que algum leitor esteja precisando do consolo de uma palavra amiga. Você não é um maluco, e principalmente não está sozinho. Se quiser, meus contatos estão no final deste post.

Se um médico especializado fez o diagnóstico de algum transtorno psíquico em você, não deixe de tomar os remédios que ele receitou! Além dos medicamentos e psicoterapia o que me ajuda? 
1) Amigos, em primeiro lugar. Eu estou em uma comunidade, Python, que é muito inclusiva. Não há problema se você é um pouco diferente. Você é aceito mesmo assim. Eu não consigo ficar até muito tarde nas cervejadas, pois minha pilha acaba, mas nunca ninguém fez uma brincadeira por causa disso. É conveniente que você possa estar com pessoas que te aceitem, como você é, sem a necessidade de fazer teatro toda hora. Um temperamento ardente te torna mais vulnerável. Não permita ao seu lado pessoas que sejam negativas, daqueles que adoram matar seus sonhos.
2) Fazer algum esporte diário. Estou correndo todo o santo dia, isto além da parte física, me ajuda a me afastar das redes sociais, pensar com calma nas coisas. Se você não curte, faça meditação. O importante, na minha opinião, é ter algum tempo para pensar. Estou lendo livros sobre o tema mindfullness.
3) Planejar muito bem o tempo. Ou prevemos os acontecimentos e as suas lógicas consequências ou eles nos engolem. E então surge a aflição e a angústia. O homem padece pelas coisas indefinidas. Ter a pendência na agenda, com data, hora definida pode ajudar. A serenidade é amiga da ordem. A técnica Pomodoro me ajuda a focar. Eu peço o conselho de amigos para saber o tempo que cada coisa deverá levar. Planejar também o tempo de descanso. Se o arco fica sempre com a corda esticada, quando você realmente precisar usá-lo, será inútil. É preciso afrouxar as cordas de tempos em tempos.
4) Um certo desapego do status social. Eu sou o que sou e nada mais. Evito as comparações com meus amigos nos carros, notebooks, celulares e assim por diante. Não há problema em ter essas coisas. Eu comprei um Iphone 6S no Japão, ano passado. O problema é você dar tanta importância a elas, que, se elas quebrassem, fosse como arrancar o seu coração. Pois isso acaba consumindo seu cérebro: “my preciiooussssss”.
5) Saber dizer não. Eu fixei um limite de palestras e minicursos. Depois é lamento, não vou poder. Eu tinha uma viagem planejada para o Zimbabwe, porém pelo número de eventos que já tinha agendado, desisti de ir. Seria demais? Sim, paciência.
6) Saber delegar. Eu tenho um risco de ser ultra-responsável e de exercer um excessivo protagonismo pessoal. Porém vejo que as pessoas fazem as coisas melhor que eu, quando formadas. Estudar quem poderia dar continuidade aos seus projetos.
7) Ter muita paciência consigo próprio. As coisas são como são, e não como eu gostaria que fossem. No meu caso troquei muitas vezes de remédio, até estabilizar. “Ter a serenidade para aceitar o que não pode ser mudado, a coragem de mudar o que pode ser mudado e a sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

Sei que é difícil enfrentar uma doença. Porém eu consegui aceitar minhas limitações e com os remédios e a psicoterapia eu tenho uma vida bem produtiva. Nos últimos dois anos dei 172 palestras e minicursos, em 14 países diferentes. Além de pessoas da área da Computação, converso muito com jornalistas, economistas ou arquitetos. Viajar, conversar com pessoas com uma cabeça diferente da minha, me deixa muito feliz. Meu trabalho principal é a docência e neste semestre, 92% dos meus alunos de introdução à programação foram aprovados, o que foi um recorde até agora. Meus dois cents.

Contatos: https://about.me/fmasanori