“Para ajudar, você não precisa ser um super-homem, basta ser você mesmo, o melhor de você”

Fernando Masanori
Jul 18, 2018 · 7 min read
Aulas para crianças de Escolas Públicas no projeto de Desenvolvimento de Talentos

A Paula Grangeiro pediu que compartilhasse essas linhas. Sempre fui envolvido em inclusão de pessoas socialmente desfavorecidas, mas poucas vezes comentei e muito menos escrevi sobre as pessoas concretas que conheci e seu destino, histórias que me fizeram feliz e que a Paula sugeriu colocar neste post. Você pode se sentir incapaz, mas não é preciso ser um super-homem para ajudar os outros, basta que seja você mesmo, o melhor de você. Os nomes são fictícios, mas os personagens reais.

Slide do Keynote de Inclusão PyCon APAC 2016

Cada criança é única

Num Banco de Dados cada chave é única, assim são as crianças. Assim somos eu e você, únicos. Existe uma comunidade bem carente aqui em São José dos Campos, chamada Vila Santa Cruz. Não sei exatamente quantas pessoas vivem lá, mas uma pesquisa apontou duas mil crianças na faixa do Ensino Fundamental. Um local como outros, de pessoas desfavorecidas, alvo de traficantes e de muita violência. Conheci a Fátima, que era como uma líder comunitária de lá.
Hoje temos muitas iniciativas que procuram escalar, atingir milhares pessoas, não são ruins. Tentei pensar ao contrário: será que, se uma pessoa ajudar uma única criança, no reforço escolar, essa atenção pessoal, concentrada, não irá deixar uma marca para sempre? A criança não só aprenderá matemática ou português, alvo do reforço, mas terá, durante o semestre todo, uma atenção que nunca deve ter tido.
Não pensava em começar uma iniciativa, apenas comentei com alguns amigos do ITA essa ideia. Não precisamos criar uma ONG, somos poucos, ajudamos com o que podemos, foi o que me disseram. “Now is better than never” (Zen of Python). E assim começamos: todos os sábados, a dar aulas de reforço numa salinha que a Fátima nos conseguiu. Cada aluno do ITA ficava responsável pela mesma criança, sempre. Conseguimos doações para conseguir um lanche e suco para as crianças. Quinze alunos aproximadamente, eram nossos dois centavos.
Notei que a criança se sentia valorizada, hoje algo difícil devido à desestruturação da família. Lá muitas vezes a criança é cuidada pela avó, até pela vizinha, não tem um pai ou mãe por perto. E acabam indo pelo caminho fácil da droga e da malandragem. Ficamos surpresos, cada um de nós era a referência para aquela criança.
Elas aprendiam, e muito rápido, a se relacionar conosco e umas com as outras, se respeitar mais, de que vale a pena não ir pelo lado mais fácil, do roubo e do tráfico.
Para ajudar a vida dessas crianças, não foi algo desgastante, uma hora por semana durante um semestre. Depois procuramos revezar os voluntários, pois sempre haviam muitos interessados.
Uma única história: Diego. Fui seu tutor. Ele conseguiu terminar o Ensino Médio, e começou a trabalhar, pois tem muitos irmãos e na época o pai estava preso. Encontrei Diego num posto, tinha a tarefa de lavar os carros. Conversamos. Não estava de todo feliz, apesar de que ter um trabalho já é muito. Estava morando ainda na Vila Santa Cruz, com a família. Perguntei qual era o seu sonho. Ele me disse: ser cozinheiro. Deveria tentar mudar, respondi. Depois de uns anos encontrei ele novamente, estava trabalhando como ajudante de cozinha, num local em que fazia esfihas, quibes e outros salgados. Ficamos sem nos ver novamente. Tenho o costume de visitar a comunidade algumas vezes no ano e visitar as famílias. Gosto de entrar nas casas, conversar com calma com as pessoas. Encontrei a mãe do Diego por acaso. Ela me disse que ele estava sendo um sucesso na cozinha. Quando chega em casa, bem tarde, ainda faz salgados para festas, pois todos gostam, especialmente do quibe com queijo. E aí a surpresa: você sabia que ele está indo para o Canadá? A dona do estabelecimento resolveu abrir um negócio lá e convidou o Diego. Ele estava tirando a papelada.

Para ajudar você não precisa ser um super-homem, basta ser você mesmo, o melhor de você
Um dos maiores desperdícios é o do talento. Estatísticas mostram que uma porcentagem constante das crianças possuem qualidades sensacionais, que podem nunca ser desenvolvidas. E numa escola pública, uma criança que quer aprender mais, tem fome de saber, sofre bullying. Reflexão: se isso acontece aqui, numa cidade como São José dos Campos, quanto mais no interior desse nosso imenso Brasil? A morte do seu talento começa aí. E a sociedade como um todo perde com isso.
Em São José dos Campos, pude ajudar algumas crianças do CEDET, coordenado pela Secretaria de Educação. As crianças passam por uma observação, de acordo com a metodologia da Dra Zenita Guenther, da Federal de Lavras, e começam a ter atividades, de acordo com sua possível dotação. Algumas queriam arqueologia, outras jornalismo, um línguas antigas, atividades bem variadas. E a prefeitura procurava voluntários que dedicassem duas horas por semana para orientarem as crianças no seu talento. Me convidaram para orientar talentos de informática. Disse: não tenho capacidade para isso. Nunca mais vou esquecer da resposta: “para ajudar você não precisa ser um super-homem, basta ser você mesmo, o melhor de você”. Gosto muito de dar aulas de programação e assim fiquei alguns anos, usando os laboratórios da FATEC, para essas aulas, ajudado pelos meus alunos, a quem agradeço. As crianças começavam sem ao menos saber usar o teclado, mas aprendiam muito rápido. Elas não tinham medo de perguntar, coisa que trava muitos adultos de progredirem na sua vida acadêmica ou profissional: o medo ao que os outros irão pensar. Era um círculo virtuoso: elas literalmente me surpreendiam, ficava maravilhado por aquele potencial que estava ajudando a formar. E elas correspondiam, perguntado mais, querendo aprender mais.
Alguns nomes: Jonhy. Mal havia começado o Ensino Médio enviava códigos recursivos para os mais variados problemas, vi fotos de competições internacionais de Robótica em que participou. Ana. Quando ensinei o programa que adivinhava um número de 1 até 100, Ana me disse: não gosto muito de números, e conseguiu uma lista de nomes populares de meninas no Brasil. E perguntava: como separo todos estes nomes? Comando split. Como coloco em ordem crescente? Comando sort. E assim, só perguntando, fez esse código, uma menina de doze anos, reaproveitando a lógica do código anterior. Luiz. Ano passado tive um aluno na FATEC excepcionalmente bom. No final de uma aula ele me procurou: você não se lembra de mim? Fui seu aluno nas aulas do CEDET. Neste semestre ele fez Estrutura de Dados comigo, tirou dez em todas as provas e trabalhos, numa disciplina considerada bicho papão em várias universidades.

Paitorista
Assim como muitas mães levam e trazem os filhos para os vários lugares, fui motorista, durante quatro anos, dos alunos do ITA, voluntários do Casdinho, um cursinho preparatório para crianças carentes.
Os alunos já desenvolviam um trabalho pré-vestibular, o CasdVest, cujo lema, bem sugestivo, é “Oportunidade não tem preço”. Em um determinado ano, começou o Casdinho, preparatório para os pequenos. Pude ajudar no início, pois boa parte dos alunos da primeira turma eram do CEDET. O Casdinho ocorria nas salas de aula do Objetivo, nos finais de semana. E os alunos do ITA não tinham carro, em geral eram calouros vindos do nordeste, sem muitas condições financeiras. Então ia até o H8, e o carro saia lotado de alunos do ITA, material didático, “bolachas ou biscoitos” e sucos em direção ao local das aulas. Sempre tivemos conversas divertidas no carro, e lá ajudava em algo material, como distribuir o suco e lanche para as crianças. Nos intervalos voltava a trabalhar nas coisas da FATEC e no final trazia os alunos do ITA de volta ao H8. Conheci muita gente, alunos do ITA e crianças. Vários desse alunos hoje são profissionais bem sucedidos e muitos dos alunos atendidos entraram em boas faculdades. Lá aprendi também o aspecto profissional da inclusão de pessoas menos favorecidas. Os objetivos eram bem claros, assim como as atribuições de cada um no Casdinho. Tínhamos indicadores de desempenho: crianças que estavam deixando de vir, por exemplo. Voluntários então ligavam para os pais. Nenhum diretor ficava mais de dois anos, então sempre se pensava na continuidade. O seguinte já começava a ser protagonista. Isso ajuda muito na retidão de intenção com que ajudamos algo social.

Python para Zumbis

Três amigos de Recife tinham acabado de começar o portal PyCursos. Já dava aulas de programação e amo dar aulas. Pediram um curso online, gratuito, para iniciantes, diziam que tinha jeito para dar aulas. Fui contra, achava que ia dar muito trabalho, comprar equipamentos, etc. Queria algo perfeito, e o ótimo é inimigo do bom. Marcel fez um portal, sem me avisar, de pré-inscrições para um curso com meu nome rs, sem nada pronto. Anunciou na Campus Party o início dele, três mil pessoas se inscreveram em pouco tempo. Tive que começar. Em um mês gravei as aulas. Sem crowdfunding, propagandas, não sou contra, mas não queria. Assim foi o início dessa aventura chamada Python para Zumbis, cujas histórias deixo para outra ocasião.

Fernando Masanori

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