A Gestão de Conflitos e o Teatro do Oprimido

Vivemos nesta mudança de paradigma, referente ao papel da linguagem, em que esta encarna os limites do mundo. 
 A verdade é que a comunicação verbal é uma consequência do nosso próprio desenvolvimento e da sociedade em que vivemos. Enquanto processo de aprendizagem, ela molda-se à realidade na qual está inserida. Quantas pessoas ainda utilizam a palavra olvidar? Arrisco-me a afirmar que serão poucas.

Outro exemplo deste sintoma é o acordo ortográfico, que é fruto duma união mais ao menos artificial de duas culturas medianamente parecidas. No fundo, como refere Foucault a comunicação-verbal é a “[1]configuração geral da natureza (…) A linguagem não é o que é porque tem um sentido; o seu conteúdo representativo terá tanta importância a ponto de servir de fio condutor para suas análises, não tem aqui papel a desempenhar. As palavras agrupam sílabas e as sílabas, letras, porque há, depositadas nestas, virtudes que as aproximam e as desassociam, exactamente como no mundo as marcas se opõem ou se atraem umas às outras.”

E é por isso que o autor referia que o papel da comunicação verbal é sobrevalorizado. Para todos os problemas existentes que tenhamos, há sempre aquele conselho repetido ao infinito “devem falar”. Mas é mais do que falar, principalmente no que toca à resolução de conflitos. É que falar não chega, é preciso comunicar, é preciso fazer com que a mensagem que queremos passar seja de facto perceptível, é preciso perceber o target que queremos atingir, porque apesar de todos utilizarmos a mesmas palavras, damos importância e significados diferentes para cada palavra.

Se deixássemos de falar, será que deixávamos de mentir?

Quantos de nós já utilizamos os clichés “não há palavras que cheguem para comentar isto” ou “não tenho comentários”? É que a comunicação-verbal nasce do nosso próprio domínio do mundo que nos envolve: e consequentemente atribuímos bastante importância à comunicação-verbal, porque foi um processo criado por nós e no fundo, é uma consequência da importância e presunção da importância que todos julgamos ter (parafraseando uma personagem da série Sense 8, que mostrava que apesar de todas as formas de comunicação verbais poderem ser diferentes em todo o mundo, os sonhos, esses, continuam a ser iguais na Índia ou na Alemanha).

É aqui que entra o Teatro do Oprimido. Claro que enquanto processamos a palavra Teatro, grande parte das pessoas que está a ler este texto vai encontrar-se no dilema de continuar a dar importância ao que estou a escrever. O Teatro é sempre visto na nossa cultura como um factor de entretenimento e de lazer e raramente com intervenção ideológica. Mesmo os Teatros de Revista estão praticamente mortos nos dias de hoje.

Para vocês que ainda continuam a ler, esta metodologia foi criada por um senhor chamado Augusto Boal, na época da ditadura fascista do Brasil. Não pretendo aqui descortinar ou tentar contar-vos a história do Teatro do Oprimido (acredito que a Wikipédia fará esse papel na perfeição), mas posso contar-vos que existem variadíssimas correntes e que esta metodologia se baseia em exibir os problemas das comunidades onde se insere, responsabilizando-as pela resolução dos conflitos desses mesmos conflitos. Uma das zonas onde esta técnica é utilizada, é na fronteira entre Israel e Palestina, em manifestações pacíficas.

Uma dessas vertentes é o Teatro Imagem, em que os actores representam estaticamente uma situação de conflito real e em que o público a tentar compreender e — num momento posterior -, encontra uma solução. O senhor Boal utilizou esta técnica, quando se encontrava a estudar uma comunidade de Índigenas no chile, que claramente não percebia a nossa comunicação verbal, nem — e espante-se! — a comunicação não-verbal. Para isso, ele representava algumas situações de forma estática, de forma a dar tempo para que o seu público compreendesse a mensagem, sem ruído.

Foi exactamente aquilo que fizemos nesta Knowledge Sharing. Na primeira sessão, dividi a turma em dois grupos e dei-lhes liberdade para recriarem um caso.

Como o tempo é escasso, nas edições seguintes passei eu a dar-lhes os casos para serem trabalhados em grupo. Um grupo encenava uma situação, enquanto o outro era convidado a interpretar e a resolver essa mesma situação. Uma das situações de conflito baseava-se numa situação real, a cidade de Mostar, em que existiam dois conflitos a serem interpretados e representados. Por um lado uma situação de conflito religioso, por outro um conflito emocional.

Noutro caso, o conflito centrava-se numa empresa portuguesa e na descriminação baseada nas origens de um colaborador.

Aquilo que todos percebemos, é que mesmo numa situação aparentemente fácil de compreender, em que não havia ruído, movimentos ou pressão de timing, a percepção do que se estava a passar, dividia bastante as pessoas. Algumas das questões que dividiam o grupo que estava a interpretar a situação eram: quantos conflitos existiam, na mesma imagem ou como resolver o conflito de forma a que todas as partes ficassem satisfeitas com a situação?

Acredito que se soubéssemos o resultado para todas estas questões, o mundo seria mais perfeito, no entanto, através do Teatro do Oprimido, temos todos a hipótese de criar… hipóteses. É isso mesmo. De criar múltiplas hipóteses, de falharmos. De errarmos e tentarmos criar outra situação. No fundo, é como qualquer outra negociação, seja de um contrato ou de poder perante outro interveniente, com a excepção que neste caso, temos tempo para tentar desenvolver uma solução à medida e ajustada. É também uma forma de compreendermos a liderança: muitas das vezes temos de agir e reagir perante uma situação de conflito e temos de conseguir perceber a mensagem facilmente, de forma a entendermos onde está o conflito a ser resolvido e que poderá fazer a diferença. Se formos um pouco mais ambiciosos, podemos dizer que o marketing e a suas técnicas de segmentação claramente ajudam perante estas circunstancias.

E sim, é verdade, eu poderia passar horas a escrever sobre este tema, mas também aqui, não há palavras que cheguem.

[1] As palavras e as Coisas, Michel Foucault

O Luís conheceu o Teatro do Oprimido numa formação na Geórgia. Interessa-lhe sobretudo a junção da arte com a formalidade e o resultado das duas. Com formação em Gestão e Comunicação, é responsável pelo departamento de Marketing & Talent Development da FMQ,