Por que é tão difícil começar algo por nós?

foto via pretaeponto.me

Nós adoramos falar de recomeços.

Em tempos de virada de ano, o sentimento é ainda mais latejante. A gente anseia pela possibilidade de viver uma nova história. Queremos o novo planner-sei-lá-das-quantas, a lista de objetivos mais charmosa que há, uma agenda muito bem organizada. Queremos criar uma lista das coisas que precisamos, e pelas quais vamos nos esforçar a ter. Mas se tanto adoramos planejar e visualizar os novos horizontes, por que tanta dificuldade em iniciar algo para nós mesmos quando o assunto é vida real e prática?

Quando uma boa mudança da vida acontece, ficamos ansiosos e esperançosos pelos novos rumos, mesmo que com certo medo. Se conseguimos um emprego novo, os olhos brilham, a barriga esfria, e a sensação de recomeçar nos fortalece. Sentimos orgulho da vaga conquistada e esperamos ansiosamente pelo famigerado primeiro dia de trabalho. Já se mudamos de casa, todo o perrengue que passamos entre caixas e carretos sai rapidamente pela janela quando pisamos no chão da nova casa vazia e silenciosa, pronta para ser preenchida e vivida com nosso protagonismo em cena.

É gostoso começar a trilhar novos caminhos. Ansiamos por isso até nas pequenas coisas, como o lançamento de um livro novo que queremos muito ter em mãos, ou a empolgação em assistir o filme cujo trailer nos emocionou. Admiramos e adoramos ver novos projetos sendo criados, seguir novas pessoas nas redes sociais, fazer novos amigos e começar novas paixões ou hobbies. A mudança é o nosso motor para seguir em frente quando a vida dá uma empacada, quando algo não parece estar da melhor forma (afinal, quando parece?). Imaginamos e criamos planos o tempo inteiro. Sonhamos acordados ansiosos por virar páginas velhas e iniciar outros capítulos. Passamos a vida buscando pequenos novos passos a serem dados.

Sim, o objetivo de ir à academia no ano seguinte é lindo, mas a anotação no tal planner talvez seja ainda mais bela. Acordar cedo quando o céu ainda está escuro para ir malhar antes de trabalhar… não é tão fácil. Sim, achamos o máximo descobrir pessoas que abandonaram suas carreiras tradicionais para se reinventar ou viver de forma mais autônoma. Mas pensar em largar a nossa estabilidade para encarar desafios e responsabilidades sem férias ou benefícios… não é tão simples.

E por aí vai.

Talvez o que amamos mesmo é falar sobre recomeços, é olhar para eles, aplaudi-los. Mas temos uma dificuldade enorme em aplicar qualquer mudança em nossas vidas, principalmente quando a ação é para nosso próprio benefício, conta e risco. Isto é, quando temos que agir para mudar algo apenas por nós mesmos.

Tudo isso para dizer que eu mesma estou há meses (não vou dizer anos…) namorando o Medium, visualizando com brilho nos olhos o meu futuro perfil com textos frequentes, almejando as amizades que essa rede poderia me oferecer e cultivando uma admiração desmedida por quem está por aqui.

Mas, ao mesmo tempo, nunca movi um dedo para cá estar. Até agora.

E abro essa porta tentando me convencer de que é mais inteligente viver os começos que podemos nos proporcionar em vez de admirá-los de longe, no nosso imaginário.

Portanto, aqui vou eu: do planner para a vida.