21 dias sem reclamar

Palavra "complaining" escrito a giz em letras maiúsculas e riscado.

Vou lhes contar uma história…

Lendo alguma coisa no meio das quinhentas e vinte abas abertas no meu navegador, li a história de um cara que fez um experimento: ficar 21 dias sem reclamar. Achei interessante. Curiosamente, no exato momento em que eu estava lendo, senti um soco no meu estômago com o flash de memória de que há poucos minutos havia feito uma mega e deprimente reclamação sobre o teor da vida e sobre o mundo. Para ser mais específico, havia falado dentre outras coisas que "se tivesse uma bomba eu explodiria o mundo, bem feliz". [Mea culpa: não foi de graça, teve um contexto, uma conversa.] Pode parecer engraçado, eu acho pelo menos, mas naquele momento notei o quanto costumo fazer esse tipo de comentário sarcástico sobre pequenos prazeres da vida, minimizando-os, e sobre a minha vida me si [pois é, pinte aqui sua imagem sobre mim]. Sou um grande fã de Bukowski, por exemplo. Humor pra me pegar de jeito? Ácido e bem espinhoso.

Rosto de Charles Bukowski ao lado de uma frase sua: “o mundo, infelizmente, vivia infestado de bilhões de criaturas que não têm nada pra fazer a não ser matar o tempo e matar a gente.”

Pois bem, nunca me senti mal com isso, mas de alguma maneira dessa vez fiquei bolado. Como se uma semente houvesse sido plantada na minha cabeça e de repente começasse a questionar minhas teses mentais sobre a vida, e sobre como rir (para não dizer zombar) dela nos economiza frustrações.

[Acho que acabei de me descobrir escrevendo este texto. Rancoroso e rabugento. Urgh, ainda bem que comecei ess.. opa, esquece, continue lendo]

E se esse meu sarcasmo para com todas as pequenas situações que vivo e vivemos não for o melhor remédio? E se esse remédio deixar sequelas? Melhor, e se ele for uma droga? Mas droga.. droga vicia, não? Hm…

Edward Norton, em Clube da Luta, acordando. "This is your life and it's ending one minute at a time."

Bom, o experimento do cara estava ali pra ser provado. 21 dias, bleh, moleza. Pragmático que sou já fui mentalizando e arquitetando tudo. Um breve resumo antes: trata-se de um jogo, você fica 21 dias sem reclamar (já explico o que é considerado reclamar) e se cometer um deslize, zera o contador. São dias corridos, fechou? Beleza, mas.. e o que eu ganho com isso? Bom, garantia de uma mudança radical na sua vida mas nas entrelinhas do contrato está mesmo que no pior dos casos você deixou de ser um chato reclamão por 21 dias. Legal, bora! Espera. Um ponto importante nesse jogo é ter um amuleto, ele funciona como sua âncora de consciência. [Google metacognition strategies ou metacognition awareness training.] Toda vez que você cometer um deslize nesse jogo, você vai zerar o contador e trocar o amuleto, assim vai sempre tê-lo consigo exercitando tua autoconsciência.

O jogo original, e o original do original, e por aí vai, conta com variações no que se entende por não reclamar. Inclui-se aí não fofocar; não reclamar alto para si mesmo; não reclamar mentalmente [sério, impossível isso]; não corrigir quando alguém comete um erro, dentre outras coisas. Eu decidi ser mais brando, adotei apenas não reclamar alto para mim mesmo, não reclamar de maneira geral, e, quando for realmente necessário, expor a situação apresentando minha própria solução.

Arnold Schwarzenegger se pintando para a guerra.

Meu relato sobre este experimento será atualizado diariamente a seguir.

Dia 0 [sou computeiro, vai]

O dia zero foi a minha preparação. Defini como amuleto uma pulseira hippie que eu já tinha. Ela naturalmente já simboliza a paz, então tudo a ver, não enche. A idéia é: a cada deslize, trocar a pulseira de braço e zerar o contador.

Passei o dia pensando no que falar. Essa brincadeira é realmente interessante, não vou mentir que passaram pela minha cabeça t-o-d-a-s as palavras de cada reclamação assim que uma situação inusitada acontecia: A casa estava suja. O tanque de gasolina estava vazio. O ar condicionado do escritório estava gelando demais. Lá fora estava vindo uma chuva do caralho, junto com uma caprichada frente fria. Não vou nem entrar no mérito do trabalho... já deu pra imaginar o quão sedutor era uma reclamaçãozinha, né? Meu pulso esquerdo estava pipocando querendo uma pulseira nova. Me mantive firme.

Dave Grohl, consternado e emputecido.

Dia 1

Parece que o jogo começou mesmo. É difícil internalizar esse estado de espírito, porém, acho que já posso dizer, é fantástico. Abre parênteses. Tive algumas experiências bastante perturbadoras recentemente, e estou lidando com meus sentimentos sobre isso. Como são muito pessoais, espero poder conseguir escrever sobre isso um dia. Fecha parênteses. Por enquanto, foi um e-n-o-r-m-e desafio manter certas linhas de conversa sem relacionar coisas do passado, o que acarretaria em… adivinha? Isso mesmo, vou evitar falar essa palavra daqui pra frente, vou falar tapioca. Tapioca não tem gosto de nada [desculpem nordestinos, pura verdade], então tudo a ver com o sentimento que quero atribuir. Meus pensamentos estão bem lentos, eu demoro pra responder algumas coisas ainda porque verifico mentalmente se não estou tapiocando. Meu sentimento agora é de que eu estava usando uma droga mesmo… vou contar um segredo, eu tive um momento de reflexão hoje, e eu chorei. Pronto, você não leu isso. Boa noite!

Chandler, de Friends: "I AM EXTREMELY DISAPPOINTED WITH MY LIFE."

Dia 2: TAPIOCA

TAPIOCA. TAPIOCA PRA CARALHO. TAPIOCA DOCE, TAPIOCA SALGADA, BOLO DE TAPIOCA VERDE, CURAL DE TAPIOCA COZIDA.

Impossível! Ainda tentei relevar mil vezes! Falava e pensava comigo mesmo: "ah mas isso não foi uma tapioca vai", "hm, essa acho que foi. não. não foi. foi uma cons-ta-ta-ção". PÉÉÉHHH, luz vermelha. Tava me sentindo a Dilmãe falando asneira pra si mesma depois de falar um monte de bosta. [Sim, eu acredito que ela deva falar consigo mesma pra se justificar. E o pior, ela deve acreditar. Um momento de silêncio… perdemos os petistas a essa altura.]

Poxa, tapioca é bom demais né. É tão suculen… beleza. Eu sei que não. CARA, tive reunião de feedback no trampo, "DR" [é pessoal, não interessa], a cada 5 minutos tem uma notícia bosta no jornal e o Facebook só tem gente reclaman.., digo, comendo tapioca! Porra, assim fica difícil!

Mimimi, pulseira, mimimi, mão esquerda, mimimi, DIA ZERO. Boa noite!

Ted Mosby, de How I Met Your Mother, chorando: "I JUST HAVE A LOT OF FEELINGS"

Dia 0. Tentativa #2

Sentimento de hoje:

Jack Nicholson ensinando um de seus pacientes em Anger Management: "gooooosfraba".

Boa noite!

Dia 1, 2, 3 e 4. Tentativa #2

Antes de começar, algumas constatações:

  • Quando se está com amigos (não aqueles que você acabou de conhecer dividindo gole na balada e que manjam dos rolês… os de verdade, que quando você reencontra sai meia dúzia de palavrão da tua boca e em seguida um puta estampido do toque de mãos no ar), quando se está entre pessoas assim é muito mais fácil se manter sem tapioca. Existe uma incrível virtuosidade nessas velhas amizades que te fazem passar rápido pela estranheza de não saber o que falar (e eventualmente soltar uma tapioca) direto para: qualquer coisa! Até mesmo o silêncio. O importante é que você simplesmente se sente confortável.
  • O trabalho é um ambiente tênue para esse experimento. Testa os teus limites de auto-controle. É incrível o quanto reclamamos no ambiente de trabalho (se isso não ocorre no seu, meu, que sorte!) quase que com prazer. Olhando de fora agora, parece que todo mundo está no trabalho fazendo o seu sacrifício do dia, e é como se tudo o que as pessoas fizessem fosse difícil, complicado ou tedioso, quando na verdade tudo o que elas parecem querer com esse comportamento é atenção. Como se fosse uma licença poética para dizer: "olha para mim, olha como eu sou importante e útil nesta empresa, se não fosse eu aqui não sei o que seria de vocês!". Sabe o que é pior? É contagioso. Quando alguém começa a comer tapioca perto de um grupo de pessoas, todo mundo parece sentir o cheiro e ficar sedento, só esperando uma oportunidade de mandar uma tapioquinha também.
Realmente, trabalho é complicado…
  • Embora seja ruim, existem momentos que tapioca é um instrumento incrível de sociabilização, e nesses momentos sinto falta de verdade. Quase dá vontade de largar o foda-se e mandar a pulseira pro outro pulso. Vou te contar por quê. Até hoje lembro de uma cena que me marcou muito: um dia eu estava num bar com uns amigos e algumas mesas à minha frente havia uma garota conversando com outros três caras. Ela gesticulava constantemente, parecia falar palavrões aos montes, e de repente, todos reagiam com longas risadas. A cena se repetia com cada um dos seus amigos, e a cada vez que a bola passava eles pareciam rir mais. Eu, dentre vários goles de cerveja, não consiga parar de observar aquilo. Não sei exatamente o porquê dessa cena ter ficado na minha mente, mas certamente deve ter a ver com o sorriso daquela garota, e com os vários momentos em que ela ia às gargalhadas, segurando as bordas da mesa de tanto rir. Era uma cena de agradar os olhos de qualquer homem, uma garota linda, de sorriso fácil, pondo três homens às gargalhadas enquanto se indignava com alguma coisa e se expressava tão à vontade que parecia esquecer do mundo à sua volta. Naquele dia, mais tarde, quando eu e meus amigos já tínhamos esgotado todos os assuntos e nos dirigíamos para pagar a conta, encontrei outro amigo que coincidentemente conhecia essa garota e seus amigos. Nos cumprimentamos exatamente ao lado da mesa deles e em seguida ele dá um abraço em cada um da mesa, ainda falando comigo. Sou convidado para sentar e tomar a saideira com todos, e quando penso em hesitar, sinto um toque macio no meu pulso, era a garota, mais rápida do que minha resposta, me puxando pelo braço e me sentando do lado dela. Ela então põe cerveja num copo perto de mim e fala olhando dentro dos meus olhos: "vai tomar a saideira com a gente sim, e vai ajudar a gente a falar mal das pessoas, senta que a fofoca une!"

Sobre esses dias, em resumo, me sinto leve hoje. Mais leve do que antes. Acho que comecei a entender o propósito de toda essa parada, e sinto uma certa tranquilidade quando me pego refletindo comigo mesmo nos momentos de solitude. Como se eu ficasse menos ansioso com o nada, ou com cada momento que vivo. Ainda é difícil explicar, vou continuar com a melhor técnica que desenvolvi até agora enquanto não encontro uma boa explicação: sorria e acena.

Os três pinguins de Madagascar: "JUST SMILE AND WAVE, BOYS. SMILE AND WAVE."

Boa noite!