Ludificação 101

Primeiro de tudo: eu acho a palavra Gamificação bem feia. Já vou avisando que vou usar ‘o bom e velho português’ nesse artigo e vou usar a palavra ‘Ludificação’ como tradução de ‘Gamification’. Tão avisados.

Estava eu no Scrum Gathering Rio 2016, olhando as palestras, e uma coisa me saltou aos olhos. Tivemos um workshop usando ludificação para ensinar coisas sobre posições do ágil e um case de ludificação para encorajar a aderência às práticas ágeis usadas pela empresa.

Observando os cenários, saí com a cabeça fervendo… Cada experiência é única, mas eu fiquei com a impressão que, na ânsia de experimentar, as pessoas acabaram deixando pra lá alguns items que fariam com que a experiência fosse menos complicada.

Um preceito base é que a participação em um jogo nunca deve ser obrigatória. Nem vou me estender muito nisso, por que todos sabemos que obrigação é chato! Estamos de acordo? Beleza, vamos lá.

Quando se está trabalhando em ludificação num ambiente de trabalho, é muito importante saber que jogo a sua equipe quer jogar. Cada jogador se sente encorajado por um aspecto do estilo, a recompensa para cada um é diferente. Observe seu público alvo, o que move ele? Recompensa? Triunfo? Status? A oportunidade de se vangloriar? Tente criar um jogo que tenha apelo para cada pessoa da sua equipe. É importante que eles participem do processo.

Mantenha SEMPRE seus objetivos em vista. Você quer que as pessoas cheguem no horário? Participem das diárias? Resolvam mais bugs em menos tempo? Seus objetivos moldam suas regras.

Não deixe de mensurar o seu sucesso também! Meça sempre e meça frequentemente o engajamento dos seus jogadores, mas também meça a mudança de hábito dos seus jogadores de alguma forma. Você também merece o seu triunfo. Além do que, como você vai pivotar seu jogo sem saber o que está acontecendo? Não seria legal medir quanto tempo o hábito criado pelo jogo persistiu na vida dos jogadores? Não deixe pra depois o que você pode fazer desde o início.

Pessoas altamente competitivas preferem jogar jogos por pontos e jogos com tabela de classificação. Também é um modelo fácil para criar um jogo. Tome cuidado. Competitividade demais pode estragar a coisa toda. Institua tarefas que precisam da ajuda de outros jogadores se você quiser estimular espírito de equipe (ou impedir que o espírito de equipe se perca!)

Um grande motivo para abandono do jogo (perda de engajamento) é a impossibilidade de vitória. Poucos jogadores persistem só para ‘vencer o jogo’. Se o jogo for competitivo então, nossa senhora! A tabela de classificação pode ser um desestímulo, se a diferença de pontos for muito grande.

Para o caso de jogos por pontos/com tabelas de classificação: a escala da pontuação é super importante para a percepção de possibilidade de vitória. Quanto maior o abismo em pontos entre o primeiro e o último colocados, mais impossível parece a tarefa de subir na tabela. Pode diminuir a escala sem medo. É uma percepção de quantidade mesmo! É muito mais fácil uma pessoa com 3 pontos acreditar que consegue alcançar uma com 8 do que uma pessoa com 500 pontos acreditar que consegue alcançar uma com 11000 pontos.

Não tenha medo de ajustar o jogo! Percepção de injustiça também é uma grande causa de desistência. E não precisa cancelar o jogo para ajustar. Anote os possíveis ajustes, junte com o feedback dos jogadores e implemente na próxima iteração.

Dê sempre aos seus últimos lugares uma chance de subir na tabela. Isso mantém os últimos lugares jogando pelo desejo de vencer e os primeiros lugares jogando por medo de perder sua posição.

Eu sou partidária de jogos curtos. Especialmente se forem competitivos. Além de ser extremamente complicado criar e manter boas regras para jogos longos, é importante dar um tempo pros jogadores descansarem. Ninguém consegue jogar o tempo todo. Em último caso, se seus jogadores não quiserem jogar de novo, você sempre pode criar um jogo novo.

Não frite sua mufa para tornar seu jogo completamente seguro contra trapaças. As pessoas tendem a não trapacear por pressão de seus pares e por orgulho, especialmente em um ambiente de trabalho. É seu status social que está em jogo. Além disso, se seu jogo não foi criado para estimular as pessoas a serem honestas, é um desperdício de energia. Melhor impor penalidades para quem for pego trapaceando que se preocupar com isso de cara.

Acima de tudo, divirta-se! Diversão é contagiosa. Todo mundo quer entrar no jogo quando vê os coleguinhas se divertindo.