exercício de escrita criativa

Há um tempo vi num blog [que infelizmente não lembro do nome] uma proposta de escrita criativa que consistia em imaginar 5 palavras ou blocos de palavras compostas e redigir um texto, sem limite de linhas ou tema definido. A única exigência é que estas palavras estivessem presentes. Então numa destas noites resolvi experimentar. Pensei [de forma aleatória] em:
 “pão”, “batata”, “triciclos”, “cimento fresco”, “psicanálise freudiana”

Abaixo o resultado destas mal traçadas linhas.

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Acordei cedo e após tomar um banho frio, vesti qualquer coisa e desci até a padaria. Enquanto o elevador descia, me lembrava da refeição que tivemos na noite anterior: sopa de batatas.

Goulash Venison, sopa de batatas com mix de carnes típica da região da Bavária.

Ela estava comigo naquele restaurante de sempre, o francês, que ironicamente era gerenciado por um alemão. Talvez isso explicasse o fascínio de seu administrador em implicar com o chef, que era de Toulouse.

Hans, o alemão, exigia que o menu tivesse a famosa sopa de batatas, iguaria da Bavária e de quase todos os países daquele lado da europa. Nesse restaurante também serviam um pão maravilhoso de entrada. Lembro de ter visto Bernadete pedir ao garçom que trouxesse mais uma porção.

Ela estava radiante naquela noite, assim como sempre esteve em todas as outras. Seus vestidos escuros, de caimento médio, maquiagem simples e sofisticada, daquelas que se produzem em 10 minutos, mas que nos levam a pensar sobre a beleza feminina por uma eternidade, culpa da sinestesia de um olhar penetrante, de lábios vermelhos e convidativos, como os dela.

Caminhei pela rua molhada, as nuvens insistiam em nos respingar após o temporal da madrugada. Haviam muitas folhas pelo chão anunciando que a primavera e a saudade eram sentidas.

Concreto debaixo para cima.

Me fez lembrar que há 3 dias naquela mesma calçada o cimento estava fresco como a primeira página de um livro infantil. Ainda posso ver algumas marcas, provocadas enquanto a amálgama asfáltica se formava. Dava para ver ali 3 linhas, que denunciavam a passagem de triciclos ou o risco feito por um tridente.

Naquela mesma rua funcionava, onde hoje está a padaria, o escritório de um famoso psicanalista. De origem hispânica, Ruan Escalante era o profissional preferido daquela horda de seres neuróticos e entediados que compunham nossa sociedade urbana.

Aqueles de muitas posses ou até mesmo alguns menos afortunados da classe média. Todos queriam se acomodar no divã de Ruan, que era como o pão fofinho do restaurante, um querido, um alento para aquelas mentes tão atordoadas e carentes.

Todos os caminhos da emoção levam ao divã.

Meu pai costumava se consultar com Dr. Ruan. Era uma forma honesta que ele encontrou para recuperar do trauma que fora a morte de mamãe. Em algumas idas ao consultório, na condição de acompanhante, pude ver meu pai e outras pessoas que buscavam desabafar.

Naquela idade eu não fazia ideia do que se tratavam aquelas consultas, tinha zero noção do que seria uma “regressão” ou no que consistia a abordagem da “psicanálise freudiana” no tratamento de mazelas causadas pelo desequilíbrio da mente, do movimento social que só acelerava, dos vícios recém-inventados e das aporrinhações dos relacionamentos.

A verdade é que nunca precisei de psicanalista como preciso de pão fresco e café todas as manhãs.