Sozinha na Índia?

Abri os olhos, o quarto estava bem escuro, o edredom era bem quentinho, o colchão confortável e eu me sentia extremamente descansada! Respirei fundo e por um breve momento me senti dentro de uma zona de conforto, até me lembrar que fora daquela porta do quarto havia a… Índia! Estava a apenas um corredor de distância de vários barulhos, cheiros, gostos e pessoas que tomam as ruas de nova Delhi. Bateu uma preguiça de acordar e ter de encarar o mundão lá fora, mas eu quis tanto esse momento, passei anos querendo viajar sozinha pela Índia e… Sam? Você esta acordado? Sabe o que nos espera hoje? A Índia! Caímos na risada antes mesmo de pisar os pés para fora da cama.

Quando fiz minha primeira viagem para fora do país, aquela para o Peru, conheci muitas pessoas pelo caminho e fiz especialmente uma grande amizade a, coincidentemente brasileira, Emily ❤️ Então, quando resolvi me aventurar pela minha segunda viagem sozinha, dessa vez quase do outro lado do mundo, tomei por pressuposto que, na realidade, nunca estamos sozinhos, principalmente em uma viagem, quando as pessoas que você encontra são justamente aquelas que também estão viajando, abertas ao mundo desconhecido ou até pessoas locais, mas que estão de certa forma receptivas a novas experiências, pois estão em contato com uma pessoa viajante (Renove seus ânimos: Procure a viajante mais próxima! rs), nunca estamos sozinhas.

Antes de ir, todos me perguntavam se eu não tinha medo de viajar sozinha — especialmente à Índia — ou me pediam pra tomar muito, muito cuidado. Claro que eu levava em consideração as preocupações das pessoas e tinha minha dose de receio também, mas me sentia confiante 1. Porque o Brasil também não é um país super seguro, já fui assaltada diversas vezes e sim, ando na rua com medo de estupro e quase não ando sozinha de noite por falta de segurança pública educação da população 2. Nunca se esta sozinha e confio que sempre há de surgir pessoas especiais em nossos caminhos e que posso ser uma pessoa especial no caminho de outras pessoas. Logo, com fé, fomos eu e meu mochilão à Índia, sim! Esse post é o primeiro de uma série chamada “Encontros”, onde narro encontros que minha memória guarda com carinho e que mostram o inusitado da vida, ou comprovam que há tantos encontros e desencontros na vida que o inusitado nem existe.

Sam e as Sauditas

Quando resolvi fazer um curso profissionalizante de yoga na Índia ( O yoga Teacher Trainning de 200 horas do Yoga Alliance), imaginava que encontraria pessoas com pelo menos uma coisa em comum comigo: o Yoga. Para minha surpresa, quando cheguei ao curso só havia mais três alunos, duas mulheres da Arabia Saudita (QUANDO imaginaria conhecer pessoas da Arábia Saudita e praticantes de yoga?!) de mais de 40 anos, um moço de trinta e poucos canadense que nascera em uma ilha e eu, brasileira de 20 e poucos anos, era a pessoa que praticava yoga a mais tempo ali. Durante o mês intenso de convivência pudemos comprovar uma das minhas máximas preferidas:

Homo sum: nihol humani a me alienum puto

Disse terêncio há quase dois mil anos atrás “Sou humano e nada do que é humano me é estranho” e eu amo tanto essa frase que não sei nem como ainda não a tatuei na testa.

Sim, tínhamos o Yoga como ponto em comum, mas com o tempo descobrimos que esse era o menor deles, eram tantas similaridades que ficamos surpresos: éramos de países com clima, cultura e línguas totalmente distintos, de gerações diferentes (por isso enfatizei a idade ali no parágrafo acima), religiões diversas… mas até nossa posição política era similar e enxergávamos questões morais e éticas de maneira muito complementar. Estávamos abertos a ouvir uns aos outros, encontramos as fraquezas de cada um e demos toques construtivos uns aos outros durante todo o mês e acho que foi uma das melhores experiências de grupo que já tive.

Uma tem 4 filhos e a outra 6, tocam uma empresa de empoderamento feminino no país delas e são simplesmente incríveis!

Depois do curso o Sam tinha mais uma semana em Índia e acabamos aproveitando ela juntos! Eu tinha que aguentar os homens se dirigindo a ele como se fosse meu marido em qualquer situação de compra e ele levou bronca de uma moça na balada que não acreditou que ele é gay. Tentamos não ser enganados pelos motoristas de tuk tuk, dividimos camas pra pagar menos nos hotéis, fizemos mais amigos, andamos muito por Delhi, abordamos os mais diversos assuntos e a companhia dele foi incrível! Em um dos dias encontramos as Sauditas de novo em Delhi pra comemorar meu desaniversário (uns dias antes do meu aniversário) e foi um encontro bem curioso, porque não tínhamos mais todo o ambiente do curso pra nos unir e mesmo assim foi super legal (:

Sim, eu fui sozinha á Índia, sai e cheguei no aeroporto de Delhi sozinha, de taxi. Viajei de trem sozinha por horas, desci de um ônibus sozinha no meio da estrada porque não queria pagar um policial, me hospedei sozinha em um hostel que ficava no quarto andar de um prédio, mas como não sabia disso, quando fui subindo as escadas não sabia se tinha mais medo de o taxista subir e me estuprar ou chegar no último andar e de ter sido enganada, não ter hostel nenhum.

Viajei sozinha e isso significa passar por qualquer perrengue sozinha e não é tão diferente de morar sozinha no Brasil: já fui assaltada no meu bairro e as vezes chego no hall do meu andar com medo de algum vizinho ser stalker e saber meus horários, as ruas que ando etc. Mas fazer as coisas sozinha também significa fazer as coisas no seu tempo e do seu jeito, se conhecer melhor, ter conversas livres com outras pessoas, descobrir que há diversas situações em que você mesma não sabe como vai reagir… pra mim, é muito gratificante me reconhecer como ser único e independente, ao mesmo tempo dependente (Anatta) e recomendo que qualquer pessoas viaje sozinho(a) uma vez na vida! Não precisa ser exatamente pra um ambiente tão exótico como a Índia, mas se querem saber, há muito mais em comum entre todos os países e pessoas do que nós jamais seremos capazes de compreender.