Trabalho voluntário em vila sustentável no Peru

Este é o primeiro post de uma série de 3 sobre a minha viagem ao Peru sozinha. Os próximos posts da série são:
 Peru: Trilhas em Huaraz e Oásis de Huacachina e Cusco, Machu Picchu e Lago Titikaka. Boa leitura :)
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Em 2015 aproveitei um pouco mais das férias da faculdade passando 39 dias no Peru, sozinha. Meu intuito era fazer uma viagem econômica em algum local da américa latina para aprender espanhol na prática e trabalhar em alguma eco vila, fazer trilhas, praticar Yoga… Escolhi o Peru pela passagem aérea mais em conta e por me apaixonar pelas fotos da vila ecológica Eco Truly Park, então fiz um pequeno roteiro eco turístico pelo país e torci para conseguir sobreviver como vegetariana na terra dos pollos.

Eco Truly Park

Antes de ir

Comprei a passagem com um amigo pela bird turismo, foram quatro passagens: São Paulo — Lima, Lima — Cusco, Cusco — Lima, Lima — São Paulo. Paguei 1300 reais nesse conjunto e parece que foi um ótimo preço na época, uma amiga brasileira que conheci no Peru pagou o mesmo, na mesma época, apenas pelas duas passagens de ida e volta.

Os nuevos soles, moeda do país, comprei sem taxas aqui no Brasil, diretamente com dois peruanos que estavam fazendo projetos pela ONG em que eu trabalhava, a AIESEC. Há quase 60 escritórios dessa ONG pelo Brasil, se você entrar em contato com eles, talvez de a sorte de encontrar por perto gringos do país em que você pretende viajar e combinar com eles de trocar moedas. Também tinha alguns dolares, mas as taxas no Brasil estavam caras e torci para encontrar onde trocar no Peru. As casinhas de câmbio das cidades pequenas em que fui (Huaral e Barranca) eram sujas e esquisitas, mas não me deram problemas e as taxas eram ótimas recomendo que você troque dolares no Peru e não no Brasil, pois além de as taxas serem melhores, você pode até dar sorte de trocar com algum gringo que vai mochilar depois pelo Brasil.

Como era minha primeira viagem sozinha, resolvi fazer um plano A e um plano B, o plano A era caso eu não sentisse muita confiança em ir para muitos lugares, então eu passaria 1 mês fazendo trabalho voluntário na vila sustentável e depois voaria para Cusco e faria uma das trilhas à Macchu pichu. O plano B era um pouco mais ousado, eu passaria 3 semanas na vila, depois subiria para Huaraz de ônibus, viria as montanhas com gelo, faria trilhas e voltaria a Lima para pegar o vôo a Cusco, faria as trilhas lá, talvez passasse no lago Titicaca e depois voltaria ao Brasil. Aconselho que você pesquise vários possíveis lugares a ir, dependendo das pessoas que você conhecer por lá (e o Peru é um local com muitos turistas, alguns mais experientes, há muitos meses pela América latina) você pode acabar aproveitando pra se aventurar além dos lugares comuns.

Apesar de o site do Eco Truly Park dizer que tinham sempre espaço para voluntários, mandei um e-mail confirmando o preço de 30 reais pela diária com as refeições inclusas e se realmente havia vagas. De fato eles tem muitas acomodações para voluntários, vários apareciam lá sem nunca ter entrado em contato antes e os que acampam ao invés de ficar nos alojamentos, ganham desconto na diária.

Sobre o plano de fazer a trilha ao Macchu Pichu, mandei e-mail para muitas delas para confirmar os preços, a dificuldade das trilhas e os dias e horários de saída, mas no fim resolvi decidir isso por lá e inclusive comprar os ingressos para o parque lá mesmo. Se você pretende visitar a Montanha mais alta em Macchu Pichu, recomendo que compre o ingresso antecipadamente pelo site, mas para mim foi quase sorte não ter comprado…

Chegando lá

Cheguei de noite em Lima e só poderia ir para a vila pela manhã, ja sabia disso, então pretendia dormir no aeroporto por umas horinhas (era o tipo de coisa que eu queria fazer uma vez na vida rs), mas chegando lá, apesar de ser super seguro e ter várias pessoas dormindo num corredor iluminado, fiquei um pouco receosa e acabei pedindo informações na “agência de turismo nacional”, o lugar mais seguro para se pedir ajuda por ali, mesmo assim, é claro que acabei pagando mais caro pelo improviso. Dica basicona: Se você chegar de noite, como eu fiz, já agende um hostel e mande um e-mail para eles te mandarem um táxi.

Logo da agência nacional de turismo, você vai encontrar até camiseta com ele.

No dia seguinte, mesmo sabendo as instruções para chegar na vila, pedi ajuda à recepção do hotel e eles super me ajudaram, explicaram pro meu taxi tudo e parece que ele gostou de mim rs até estacionou o carro, entrou na rodoviária comigo e me mostrou onde comprar o bilhete. Os peruanos, no geral, estão sempre dispostos a ajudar. Mesmo com o meu portunhol iniciante, deu tudo super certo, peguei um ônibus que ia até Huaral, mas pedi para descer em “chacra y mar” (chácara & mar) lá peguei um tuk-tuk (sim, aquela motinha fechada que usam na Índia) até o Eco Truly Park e pronto, desde o hotel em Lima até lá, demorei aproximadamente uma hora e meia, tudo deu menos de 20 reais. Cheguei na vila por volta do meio dia em um dia de semana, então estava tudo muito sossegado e os trabalhos do dia já estavam terminando, neste dia não trabalhei, apenas almocei, conheci a vila e o pessoal.

Por ser muito próxima de Lima, o fluxo de pessoas aos finais de semana é muito grande na vila, é um lugar super turístico e a entrada e saída de voluntários também é grande. Foi um ótimo lugar para começar a viagem, pois conheci muitas pessoas, peguei muitas dicas e me acostumei com a língua e o sotaque Peruano. O movimento porém, é só aos finais de semana, pois a vila é na verdade um templo Hare Krishna — uma jovem vertente das antigas religiões Hindu — e aos dias de semana a rotina dos devotos não pode ser atrapalhada.

Apesar de os moradores serem religiosos, ninguém precisa participar das cerimônias de noite, nem das aulas de Yoga pela manhã. A rotina dos voluntariados, dos trabalhadores que mantém a vila, dos hóspedes (a vila também funciona como hotel) e a dos devotos apenas convergem nos momentos de refeição. Diferente de algumas outras religiões orientais, a vida lá não era tão disciplinada, às vezes algumas atividades se atrasavam, não tínhamos um trabalho específico para fazer ou a devota responsável por dar aula de Yoga não aparecia pela manhã. No geral, a rotina dos voluntários era:

  • 6:00 Yoga (opcional)
  • 7:00 Café da Manhã
  • 8:00 Trabalho Voluntário
  • 12:00 Almoço
  • Livre
  • 19:00 Culto (opcional)

Quando a professora não aparecia, fazíamos Yoga livre ou um dos voluntários guiava a aula para os outros — até porque aparecem alguns voluntários por lá que são professores de Yoga mesmo. Já os trabalhos eram diversos: colher batata, fazer mosaico, pintar e lixar paredes, tirar ervas daninhas do roseiral, ajudar na cozinha… Todos duravam apenas 4 horas, então após a hora do almoço já estávamos livres e no resto do dia podíamos fazer o que quiséssemos.

A plantação de batatas
E. tentando trabalhar enquanto o Hanuman se divertia
Roseiral

Geralmente, os voluntários se uniam e pediam algum workshop para as madres, aprendíamos alguns artesanatos e até mesmo remédios à partir de ervas. Também nos reunimos muitas vezes para fazer yoga, andar pelas dunas, ir à cidade comprar ingredientes para cozinharmos coisas especiais de tarde… E às noites fizemos fogueira, cantamos e vimos muitos filmes.

A costa do Peru é desértica e ouvi dizer que naquela região perto de Lima nunca chove (acredite, os objetos eram deixados ao ar livre, sempre) e, pelo menos em Setembro — a época em que fui — o céu estava sempre nublado, dava a impressão de que ia chover, mas não chovia. Isso era meio tenso porque os banhos na vila são gelados, e só foram realmente agradáveis nos poucos lindos dias em que o sol saiu, mas nada que um exercício constante e consciente de desapego não tenha resolvido :)

Apenas um dia saímos da vila acompanhados com alguns devotos, eles foram nos mostrar um castelo (se não me engano o mais antigo do Peru) em Huaral. Disseram que no verão eles tem piscinas públicas, mas no inverno, quando fomos, não gostamos muito do passeio, pois o castelo foi todo remodelado e as “relíquias” estão bem bagunçadas, parece que os herdeiros do lugar resolveram lucrar ao máximo com o turismo e deixaram de lado o cuidado com a história. Veja por você mesm@:

Huaral, apesar de ter um comércio bem ativo, é uma cidade bem simples e provavelmente este é o motivo de os herdeiros terem explorado o castelo das mais diversas formas para entreter os moradores da cidade. Neste dia, além de passarmos por lá, também demos uma volta pela cidade e apreciamos o pacífico :)

Enfim, lá na vila conheci uma brasileira e uma alemã que também tinham planos de irem fazer trilhas em Huaraz, ao norte do país, então pegamos um ônibus para Lima, dormimos uma noite de graça no templo Hare Krishna de lá e, no dia seguinte, fomos nos aventurar em Huaraz, o que vou contar em outro post, pois este já esta um pouco longo. Aliás, os 39 dias que passei no Peru estão divididos em 3 posts aqui no blog, confira os links da continuação no fim deste post :)

Aqui vão algumas fotos e dicas finais para quem pretende passar um tempinho no Eco Truly Park:

  • Vá de mente aberta para conhecer e trabalhar com pessoas de diferentes nacionalidades e com as mais diversas motivações para estar ali: algumas pessoas vão à vila procurando desenvolver o lado espiritual, outras vão para vivenciar o dia-a-dia de uma vila sustentável, outras são apenas curiosas…
  • Leve fones de ouvido para utilizar em algumas atividades extenuantes e/ou solitárias como carregar madeira, tirar erva daninha, transplantar mudinhas de plantas… Tem trabalhos que com uma musiquinha passam rapidinho. Claro que o silêncio, a musiquinha Hare Krishna ao fundo (às vezes) ou conversar com outras pessoas é super legal, mas se você pretende passar um longo tempo na vila, leve um fone de ouvido;
  • A praia lá é suja então não espere nadar no mar, infelizmente a corrente marítima leva naturalmente o lixo de Lima e outras cidades para aquela praia e, ao andarmos pela orla, encontramos inclusive alguns leões marinhos mortos. Talvez esse seja um fenômeno que ocorra somente na época do ano em que eu fui, mas vale avisar;
O lixo que chegava com o mar: essa foto foi tirada umas 6 da manhã em um dia que resolvi correr pela praia
  • Leve sabão para lavar roupas, há umas moças que vendem coisas ali na frente da vila, mas costuma ser um preço mais caro que o normal. Aliás, peça para as pessoas da vila te ajudarem e não as vendedoras da frente, pois minha amiga sofreu um pequeno golpe ao tentar colocar crédito de celular com a moça da primeira barraquinha em frente a vila;
  • No fim, se passar vários dias, peça desconto ao pagar sua estadia :)

Os próximos posts da série são:
 Peru: Trilhas em Huaraz e Oásis de Huacachina

e

Cusco, Machu Picchu e Lago Titikaka.

Boa leitura :)