A Venezuela e o legado de Hugo Chávez

André Forastieri
Jul 28, 2017 · 3 min read

Hugo Chávez concentrou todos os poderes que pôde em suas mãos. Esvaziou o congresso, calou a imprensa, encheu o supremo tribunal de capangas, jogou opositores na cadeia sem julgamento. Fez da crítica traição. Apoiou os regimes mais cruéis do mundo. Financiou a gerontocracia cubana. Defendeu Coreia do Norte e Miyamar na ONU. Concedeu a medalha mais importante da Venezuela a Kadhafi, da Líbia, Assad, da Síria, e Ahmadinejad, do Irã. Seu governo foi trapalhão e paranoico.

E também foi o governo em que os venezuelanos mais progrediram. Os pobres caíram de metade para 32% da população, graças a vários programas de transferência de renda. Chávez se fez pai dos pobres, sem nunca ser de fato socialista, ao contrário do que reza a maioria dos obituários.

Todos os principais índices de qualidade de vida melhoraram: mortalidade infantil, desnutrição infantil, água potável, expectativa de vida, esgoto. Isso tudo aconteceu mesmo com a economia crescendo pouco. Foi redistribuição mesmo. Hoje a Venezuela é o país menos desigual da América Latina. E deve isso a Chávez.

O país é rico em petróleo, que representa 95% das exportações, e pobre em todo o resto. Mas a maior miséria da Venezuela é a miséria moral de sua elite. Meia dúzia de famílias sempre foram donas de tudo — da terra, das empresas e da imprensa. Sempre trataram a nação como sua hacienda particular.

Os filhos, belos e bilíngues, estudavam nos EUA e mantinham distância da indiada. Corrupção endêmica, lei só para pobre, você conhece a lengalenga. É a tradicional América Latrina, quintal dos americanos, só que com ouro negro sob o solo.

Chávez peitou os seculares donos da Venezuela, sob aplausos de qualquer um com um coração. Inspirou e apoiou outros líderes populares, e às vezes populistas, pelo continente afora. Bravura e bravatas assustaram os milionários dos países vizinhos. Alguns escorregaram para a histeria, e no Brasil também.

Aqui, Chávez foi pintado como diabo desde o começo, e mais ainda a partir de 2002, quando enfrentou e venceu uma tentativa de golpe. Muito papel foi gasto para colar os defeitos e fanfarronices de Chávez em Lula. Como se Chávez não fosse militar de formação, e Lula a vida inteira negociador. Como se a complexidade social do Brasil permitisse as soluções da Venezuela.

Com o tempo Chávez foi pisando em mais e mais calos. Tentaram derrubá-lo infinitas vezes, justificativa para ele ir mais e mais para a direita, sempre mantendo afiado o discurso anti-ianques, anti-imperialismo etc. Manteve o apoio do povo mais pobre, que hoje chora, e com razão. Nunca tiveram maior defensor.

Agora se foi, como vamos todos, e os poderosos e carismáticos também. O que resta aos venezuelanos? Defender as conquistas da era Chávez, enterrar seu entulho, e abraçar toda a frustrante complexidade da democracia.

É o desafio que o futuro reserva também para Cuba. É o processo complexo e claudicante que vivemos no Brasil, um passo para frente, um para trás, três para os lados. Não se sabe de outro melhor.

O defunto não era flor que se cheirasse, nem vilão de opereta. É erro ungir Chávez herói, e erro rotulá-lo ditador. Foi eleito e reeleito por seus méritos. E na última fase, sim, se concedeu poderes próximos aos ditatoriais. Fez bem e fez mal.

O pior que fez foi fazer da Venezuela um país cujo presente e futuro dependiam unicamente de uma pessoa. Merece seu lugar na história, por peitar a elite venezuelana, e por minorar a miséria da maioria mestiça de seu país. Merece repúdio, por fazer essas duas coisas de maneira personalista, autoritária e atabalhoada. Mas não merece lágrimas.

(Meu obituário de Chávez. Parece eu eu escrevi há um século. Foi em 2013. Hoje, a “única pessoa” é Maduro, o presente se foi, o futuro não virá tão cedo. Lágrimas pela Venezuela… e lágrimas pelo Brasil, também encalacrado politicamente, em que todos os índices sociais pioram e pioram, sem alívio no horizonte…)

    André Forastieri

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    Despreocupado, mas não indiferente.