A família que escolhi

Para falar da família que escolhi, não posso deixar de falar daquela que não se escolhe, a consanguínea. A primeira relação familiar que tive é o que o tão polêmico Estatuto da Família, em discussão no Congresso Nacional, reconhece como legítima: fomos somente eu, minha mãe e meu pai. Mas apesar de ter crescido neste modelo “tradicional”, nunca me foi imposto que ao sair de casa para formar a minha família, deveria constituir uma cópia desse modelo.

Eu e a minha atual família nos constituímos por histórias parecidas. Nós saímos da casa dos pais para estudar, viemos morar em Porto Alegre praticamente sozinhos e acabamos na Casa do Estudante Universitário Aparício Cora de Almeida (CEUACA), onde nos conhecemos e fomos construindo o laço que temos hoje. Quando em 2014 os aproximadamente 50 moradores tiveram que desocupar o prédio da CEUACA em virtude de uma reforma, ficou decidido que a divisão dos ceuacanos, para a distribuição nas casas improvisadas, seria feita por afinidade. Nos escolhemos para morarmos juntos novamente, e o que seria provisório já passa de um ano e meio.

Muitos podem olhar para nossa família, composta por Belisa Cassel, Jaqueline Bilhar, Tiago Tresoldi, Guilherme Tresoldi, Felipe Gräf, Eduardo Trasel e Miguel Cury (que ainda não mora conosco), e dizer que somos apenas amigos dividindo uma casa. Estarão engados. Nós não dividimos apenas um teto, compartilhamos problemas, preocupações, alegrias, comida, segredos e muito amor. Brincamos que temos um casamento bem sucedido entre várias pessoas, porém, sem sexo e sem filhos.

Terá um momento em que alguns seguirão por caminhos diferentes, ou para morarem sozinhos ou com outras pessoas, alguns já fazem planos de continuarem vivendo juntos quando a faculdade acabar, mas isso não nos afastará ou apagará o que vivemos juntos.

É claro que, como qualquer família, não vivemos em uma harmonia constante. Nós brigamos sim por coisas banais, como uma louça que misteriosamente surge na pia e não é de ninguém, mas também brigamos por nos preocuparmos uns com os outros. Desde que moramos juntos sinto que não estou sozinha, eu tenho para quem ligar caso aconteça alguma emergência e eu sei que eles estarão lá quando for preciso. O sentimento de poder contar com alguém sempre é a representação de laço familiar para mim. Não importa o tamanho da família, a opção sexual, a raça, o sangue. Importa o afeto. Nenhum estatuto vai mudar isso.

Texto de Vanessa Vargas