Amor: a única família que importa

Lucas Vasconcellos, 24 anos, é ex-estudante de fonoaudiologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e ficou famoso recentemente por uma publicação que fez no seu Facebook, na qual relatou um diálogo com seu irmão de 8 anos a respeito do amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Agora, Lucas está em processo de finalização de sua autobiografia e pretende seguir na carreira literária. Você pode acompanhar os textos e postagens na página do Facebook, Lucas Vasconcellos.

Ele conversou com a página Toda Forma de Família e contou um pouco da sua história e sua percepção sobre o termo “família”. Confira:

Para começar: qual a sua concepção sobre família?

É interessante analisar que, pela etimologia da palavra, desde muito antes do império romano, o termo “famulus” dizia a respeito do escravo que servia a casa, sempre sob a autoridade de um patriarca. Enquanto um conjunto de escravos que serviam sob o mesmo teto chamava-se “família”. O conceito de família como conhecemos partiu disso, estabelecendo-se de um tipo de relação escravista e moldando-se através do tempo pelas enormes mudanças culturais que a precederam (em sua grande maioria, infelizmente ou não, religiosas). Atualmente, qualquer dicionário que você pegue vai lhe dar algumas definições de família como uma categoria que compreende um ou mais gêneros ou tribos com origem filogenética comum; duas ou mais pessoas unidas por filiação, casamento (do ponto de vista religioso, não essencialmente o legal); etc. Essas definições acabam sendo simplórias demais, e cruelmente excludente com todos os outros tipos de relações existentes que não são reconhecidas na modernidade. Na minha opinião, a base da família, e bem mais importante do que os laços de sangue, são as relações construídas dentro dela. Relações providas de tudo que é mais necessário para um indivíduo: afetividade, reconhecimento, interlocução e orientação, a preservação de seus direitos fundamentais (principalmente no que diz respeito a liberdade, ao respeito e ao bem-estar de seus membros). Mas principalmente afetividade. É pelo afeto que nossas relações se constroem e pelo afeto que perduram. É tudo o que levaremos de cada uma delas.

Existe alguém, que não tenha laços de sangue com você, que você considere da sua família?

Sim, eu vejo alguns dos meus amigos como sendo parte desse tipo de relação. O que carregamos uns pelos outros, o que fazemos uns pelos outros e tudo que criaremos a partir disso também merece reconhecimento. Não é somente pelos laços de sangue que nossas relações são construídas, afinal, da casualidade do encontro entre dois estranhos pode surgir a oportunidade de uma história em que se considerem uma família sem a necessidade de que sejam realmente uma família.

O depoimento que você publicou no Facebook sobre quando você revelou ao teu irmão que você é gay emocionou muitas pessoas. Como é a relação com os outros membros da tua família de sangue? Como você lida com isso?

Sobre o relacionamento com meus genitores, em resumo, foi algo destinado a nunca dar certo. Meus pais têm muitos problemas e, por crescer em um ambiente caótico e em constante desamor, eu acabei me tornando mais um deles. Desde criança, nunca senti como se fizesse verdadeiramente parte da minha família, e com o tempo piorou a ponto de eu me sentir um órfão, apesar de ambos os meus pais estarem vivos. Enquanto eu me afundava em resignação e aprendia a aceitar essa sensação de abandono, fui surpreendentemente acolhido. Minha relação com meus avós se estreitava cada vez mais, com eles se esforçando exaustivamente para que eu não me sentisse sozinho no mundo. Eu ainda tinha uma família, apenas não percebia, visto que fui ensinado a crer que pai e mãe eram absolutamente tudo que deveria importar dentro desse conceito. Minha avó me convidou a morar com ela, por volta dos 17 anos, e pela primeira vez eu senti como se tivesse uma casa. Então, meus avós e meus irmãos são a única família que importa para mim.

Na sua opinião, você acredita que no futuro todo e qualquer tipo de família será aceito pela sociedade e reconhecido legalmente?

Eu sinceramente espero que sim. Eu tenho alguma fé em tempos melhores, para essa questão da família especialmente, porque eu ando continuamente me questionando para onde foi a nossa humanidade. O amor deveria importar, ele deveria ser a voz mais alta, mais que todas as outras vozes carregadas de ignorância que acabam nos machucando. A intolerância e o desrespeito acabam sendo maior que nossa compaixão uns pelos outros e, se esse panorama não mudar, ou se piorar, eu não hesitaria em desistir dos meus sonhos de formar uma família algum dia. Não quero trazer ao mundo uma criança que precise ouvir que seus próprios pais são aberrações. Espero que os tempos mudem, espero que as pessoas melhorem, e eu possa dar a alguma criança a chance de ser feliz. A chance de ser amada verdadeira e incondicionalmente por seus pais, sem que ninguém esteja lá para questionar se esse sentimento é válido.

Para você, a geração do seu irmão, por exemplo, vai lidar melhor com esse tipo de situação? Vão estar mais propícios a encarar a realidade de que nem todos fazem parte da dita “família tradicional brasileira”?

Acredito que sim. É uma geração que nasceu em um tempo em que a informação está no seu auge e isso faz uma grande diferença. O que motiva a intolerância é principalmente a ignorância, é essa falta de interesse de ir a fundo e se permitir entender algo que até então você não compreendia. Quantos dos meus conhecidos repudiavam a homossexualidade, e então eu me descobri gay, e, felizmente, eles descontruíram suas ideias odiosas impostas por parâmetros convencionados sobre o tema. Mas eles se permitiram a isso pois tinham um grande afeto por mim, foram compassivos e buscaram o próprio esclarecimento para que nossos caminhos não se separassem. Compaixão e esclarecimento é tudo que se precisa nessa questão e é o que anda faltando ao mundo. E também sobre o meu irmão, existe algo de muito belo nele, e em todas as crianças para falar a verdade: pelos olhos da inocência, enxerga-se apenas a verdade. Ele encontrou sozinho a verdade para minha pergunta, sobre duas pessoas iguais estarem juntas: amor. No final, é tudo sobre amor. E eu torço por um mundo com mais adultos que não se esqueçam disso.

Texto de Guilherme Engelke

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