Apenas por uma noite.

Silêncio. Foi tudo que restou entre nós. Um grande e inconfortável silêncio. Talvez o erro tenha sido meu. Pra falar a verdade, eu não sabia o que fazer naquela situação. Eu queria. Você também. Bom, ao menos você achava que queria, e eu pensava que tava tudo bem.

Eu nunca fui de conquistar alguém, de atrair olhares. Na maioria das festas eu era aquela pessoa que ficava no canto, e tentava não notar e nem se fazer notar. Até aquela noite. Talvez por esse motivo eu tenha me sentido propenso a aceitar a proposta infame que me fez. Ou que o álcool fez. Talvez fosse teu jeito de andar, de se vestir ou de se portar. Talvez só o seu jeito de ser. Não sei ao certo o que foi. O que sei é que me prendeu, forte e bem amarrado, desde o início.

O problema é que a abstinência tornou a minha carne fraca, e meus pensamentos, nebulosos como estavam, embaçando minha razão, comprometendo meu julgamento, me pegaram pela mão e me levaram onde sempre quis estar, mas nunca tinha tido coragem.

Há certo prazer em estar com alguém desconhecido. Há um quê de aventura, de etéreo. Havia algo no seu jeito de falar, ou de se portar. Havia certa sensualidade na vontade com a qual beijou meu pescoço, ou na força com a qual eu puxei seu cabelo. Tinha alguma coisa no seu toque e no seu cheiro, que me fez responder de maneira feroz. Por alguns instantes, éramos um do outro e nosso amor era eternamente e infinitamente finito. Havia algo na maneira como você passava a suas mãos por mim ou em alguma das inúmeras vezes que perguntou meu nome. Era anonimamente perfeito. Era bom. Parecia certo e ao mesmo tempo intangível, transcendente.

Eu gosto da loucura. E a sua me atraiu. Durante o tempo que fomos um do outro, eu te entendi e você me entendeu. Eu senti você. Pude cheirar seus pensamentos, provar das tuas angústias, beber das suas mágoas, tocar suas cicatrizes. De repente você tinha todas as perguntas, e eu, as respostas. Tudo isso ao mesmo tempo em que sussurrava “Relaxe”, antes de me beijar de novo.

No entanto o grande problema desses momentos é que eles são efêmeros. Chegam e se vão tão rápido quanto a duração de um suspiro. Há uma farpa intrusa, um contratempo nesses acontecimentos: o fatídico dia seguinte. A vergonha de se olhar e se estranhar. De não reconhecer no outro a coragem e a vontade que as mentes nebulosas e sem clareza têm. Ontem se quer, hoje não. E tudo isso se traduz a partir do peso de um silêncio.

Antes fosse só isso. Acontece que sempre se descobre o motivo por trás de todos os atos. Havia algo ali, no dia anterior, sim. Havia a falta, a necessidade, a vontade refreada, o pensamento suprimido, o grito calado. Tinha os relacionamentos mal resolvidos, a vontade de esquecer, de ter algo para esquecer. E tudo isso transbordou. Eu senti, você também. Não era amor, não. Era mágoa, raiva, desconto, retaliação, vingança. A luxúria é o mais agridoce dos pecados, e provamos juntos. Esse pecado nos faz sentir desejados, bem quistos, como a muito tempo não se é. Há certo fascínio nessa loucura.

Acontece que não é a primeira vez que isso me ocorre. Que alguém me usa e eu a uso também. E imediatamente no dia seguinte tudo que aconteceu é sempre taxado como um erro, empurrado pro esquecimento e assim seguimos a vida. Embora isso seja uma bela solução pra uns, pra mim não o é. Não consigo parar de pensar, não consigo esquecer. Pra mim nunca é um erro, mas para os outros sim.

Veja bem, há muito tempo que eu vivo assim. E não consigo me acostumar. Acho que só me notam e me querem quando precisam, e eu sempre estou lá. Eu sou o consolo, o abraço, o conforto pros abandonados. Enquanto você possivelmente nem se lembrava do ocorrido, ou tentava empurrar o “erro” para o esquecimento, minha ressaca teve o gosto da sua boca.

Mas nem é tudo isso o que mais machuca. O que mais dói é saber que nunca mais nos olharemos nos olhos, e nunca mais vamos nos sentir tão plenos quanto naquele momento. Por causa desse desconforto, a falta de tato que precede tais casos. Fomos uma noite só, e fim. Nada demais pra você, mas grande coisa pra mim.

Sei que já deveria ter me acostumado, mas isso me satura cada vez mais. Pois só estou com alguém quando este alguém precisa esquecer, mas nunca se lembrar. Eu não pertenço a lugar nenhum, não pertenço a ninguém. Eu sou o caso de uma noite só, anônimo. Já fui tantas pessoas e ainda assim ninguém. E me cansei. Da próxima eu vou descontar. Dá próxima eu vou escolher. Da próxima vez serei eu quem me consolarei. Vou usar e só dar importância quando me convém. Me cansei de sempre ser o erro de outrem.