Fotografia de Nathan Weber, 2011, Haiti.

Ética no fotojornalismo

O Co.visão foi criado com o intuito de mostrar aos leitores da página do Facebook, “No Plural”, o que é o fotojornalismo. Ao longo das últimas semanas, realizamos reportagens para tratar sobre o assunto e abordar relevantes temas sobre a área. Conversamos com professores, fotógrafos, advogados e profissionais independentes que, de alguma forma, convivem diariamente com a profissão.

Para a última reportagem, o tema a ser tratado é considerado um dos mais polêmicos do fotojornalismo: a ética profissional. A fotografia, utilizada como uma forma de produção jornalística, de criação e transmissão da informação, deve obedecer algumas regras pertinentes ao seu real propósito. Parte delas são tidas como essenciais à função informativa e devem ser observadas por aqueles que trabalham diretamente com a utilização do fotojornalismo.

Afinal, o que é a ética? Ela pode ser considerada como um conjunto de valores morais e princípios que irão nortear a conduta humana na sociedade. Logo, é devido imaginar que cada sociedade irá possuir suas próprias condutas, principalmente, éticas e morais. Para o fotojornalismo, pode ser um norte que irá guiar seus profissionais na realização de um trabalho sério, digno e que irá respeitar os limites das situações e das pessoas retratadas.

Segundo o Dicionário Aurélio, ética é “o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”.

A função de um fotojornalista é tentar transmitir, por meio da sua interpretação da realidade, os fatos e notícias através de sua fotografia. Inevitavelmente, existe uma pessoa que está por trás da câmera, operando o equipamento e realizando os registros exigidos pela notícia. Tais registros devem estar inalterados, do momento em que foram realizados até a sua entrega ao receptor final da notícia.

O Fotojornalismo e “o jogo dos 7 erros”

Este cuidado permite com que três formas de manipulação possam ser evitadas. A primeira delas é realizada antes do fotógrafo efetuar o clique. Ela é feita através da modificação da cena, do fato ou das pessoas envolvidas na notícia.

A segunda forma para manipular uma imagem é após o clique e na fase de pós-processamento ou, tratamento.Com os avanços tecnológicos, se tornou fácil modificar uma imagem digitalmente, alterando a veracidade daquilo que fora retratado. Apesar de ser algo que já existe desde os tempos da fotografia analógica.

Por fim, a terceira forma de manipulação existente e que deve ser evitada pelo fotojornalismo é a alteração, posterior à criação da imagem, da legenda utilizada na fotografia. Como elemento fundamental da construção da notícia imagética, se a legenda conter alguma informação que seja inverídica ela irá exercer influência no contexto da imagem.

Aqui, um recente exemplo de manipulação no fotojornalismo. As fotos são de autoria do renomado fotógrafo Steve McCurry. Fotógrafo da revista National Geographic (NatGeo), McCurry foi alvo da crítica no ano de 2016 pela descoberta de alterações, muitas vezes grotescas, em algumas de suas fotografias originais. Questionado sobre as revelações, McCurry afirmou em entrevista para a imprensa internacional que ele não é mais “fotojornalista” e sim, “fotodocumentarista”, o que permite que ele tenha determinada liberdade para o tratamento do seu trabalho. Apesar de ter seu trabalho contestado, McCurry exerceu importante papel na fotografia mundial e é considerado um dos mestres do ramo. Sua foto mais emblemática é o retrato da “Menina Afegã”, que estampou a capa da revista da NatGeo.
O fotógrafo Steve McCurry com o seu retrato “A Menina Afegã”.

Há também formas de manipular as fotos através de técnicas fotográficas. Como exemplo, a famosa e polêmica fotografia realizada pelo fotógrafo Kevin Carter em Ayod, no Sudão, no ano de 1993. Na ocasião, um abutre observava uma menina que aparentemente estava à beira da morte.

A foto, publicado pelo jornal The New York Times, foi ganhadora do prêmio Pulitzer. Certo tempo depois, essa fotografia se tornou alvo de críticas e questionamentos pela imprensa opinião e imprensa internacional. O que era considerado verdade, não passava de uma forma de manipulação feita com a utilização de técnicas fotográficas. Mas até onde essa manipulações fotográficas é algo ético?

A fotografia de Kevin Carter foi vencedora do prêmio Pulitzer, a maior consagração do jornalismo mundial.

A hora de “abaixar a câmera”

Outro tema que também levanta questionamentos entre aqueles que estão envolvidos com a profissão é saber, “qual a hora certa de abaixar a câmera?”. Fotojornalistas estão presentes em diversas situações e ter a consciência de quando e o quê se deve fotografar é algo frequentemente discutido.

O fotojornalista Fernando Rabelo, relata que já passou por uma situação constrangedora ao tentar, por inúmeras vezes, fotografar Ayrton Senna em um momento de lazer. Na ocasião, o fotógrafo, pressionado pelo jornal onde trabalhava, conta ter invadindo a privacidade do ídolo nacional, algo que considera antiético.

Fotojornalista Douglas Patrício de Sousa, 31.

Douglas Patrício de Sousa, 31 é natural de Belo Horizonte e fotojornalista desde 2009. Seu interesse pela profissão surgiu através da paixão pelo esporte e foi se desenvolvendo durante a faculdade. Atuante na área de esportes, também faz coberturas por outras editorias solicitadas pela agência de fotojornalismo em que trabalha. Para ele, a ética no fotojornalismo “está relacionada ao respeito da imagem original, ao momento vivido na hora da captura da imagem”, comenta.

Outro aspecto questionado com ele é sobre a hora certa para “abaixar a câmera”. Muito além de um simples ato, este gesto pode demonstrar a consciência que o fotógrafo possui de saber o que pode ou não ser fotografado. “Muito se discute esse momento entre amigos de profissão. No meu ponto de vista, fotografar determinadas cenas, como pessoas que sofreram acidente, expondo o acontecimento, é algo a se pensar. Eu não faço e procuro evitar esse tipo de situação que poderá causar transtornos, mais que pessoais”, defende.

Ele acredita que seria interessante a criação de um código para os profissionais. “Acredito que seja necessário. Hoje com a banalização do jornalismo, muitos outros profissionais como engenheiros e médicos se aventuram em nossa área sem ter nenhuma base teórica”. Douglas Patrício afirma que a manipulação das imagens, indiferente de como é realizada, é algo inaceitável, “apesar de acontecer bastante”, finaliza.

Fotografia: Douglas Patrício de Souza.
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