Sobre os amores que nunca passaram da Cinelândia

Só morando no Rio de Janeiro para saber que a cidade vai muito além das praias exuberantes, livrarias e do Jockey Club retratados com tanto glamour no Leblon imaginário de Manoel Carlos.

Em um dia útil, às oito e meia da manhã, vá até a estação Maria da Graça com destino à zona sul. Pronto! Suas definições de inferno serão atualizadas.

São só 30 minutos de trajeto que mais parecem três horas. Mas hoje até que tá rápido! Olha só, duas músicas e já saímos da estação Triagem…

Próxima estação Maracanã. Estação de integração com os trens da Supervia. Desembarque pelo lado esquerdo. Next stop Maracanã, connect station to Supervia train system. Disembark on the left.

Um minuto após o anúncio sonoro o metrô para na estação. Maracanã não atende muitos passageiros, fora os dias de jogo, a estação serve basicamente os estudantes da UERJ. E talvez ela fosse mais uma aluna da universidade voltando da entrega de algum trabalho ou prova. Ela consegue um vácuo no meio da multidão e se posiciona próximo ao meio do vagão.

Apesar do aperto ela parece estar feliz, balança a cabeça vagarosamente, acompanha a melodia da música que toca em seus fones de ouvido, logo mexe os lábios devagar. Não consigo mais tirar os olhos dela!

Já em São Cristóvão eu quero saber qual música a faz tão feliz. Quero conhecer seu gosto musical, saber quais são suas bandas e artistas favoritos. Qual deve ser sua música favorita? Será que tem uma música que a faça chorar? E aquela que desperta felicidade instantânea, qual será?

Na Cidade Nova eu gostaria de entender os sonhos que ela carrega na mochila. O que levou a seguir a carreira que escolheu, quais são seus objetivos naquela profissão. Será que está satisfeita com o curso? Será que já pensou em desistir?

Na Central fico interessado pelo seus pratos favoritos. Suas experiências inesquecíveis, aquela viagem dos sonhos, os amigos que fez em uma noite de bebedeira e carrega até hoje…E que tipo de night ela deve curtir? Alternativa na Matriz? Um bom samba na Gamboa? Eletrônico em alguma casa na Barra?

Na Presidente Vargas eu penso sobre o seu tempo livre. Quero entender seus hobbys. Quais livros ela deve ler? Ficção científica, romance, suspense? Será que ela tem um animal de estimação? É um cachorro? Um gato? Talvez dois…quem sabe três.

Na Uruguiana o vagão começa a esvaziar e consigo visualizar um All Star surrado. Será que mora longe? Já sei! Deve trabalhar o resto do dia em um emprego de merda para bancar os estudos.

Próxima estação Carioca, desembarque pelo lado direito…

Já se foram cinco estações, tempo mais do que suficiente para pensar em nossa vida de casal, no nosso restaurante favorito, na música do nosso relacionamento, no nome do nosso cachorro. Quantos filhos? Um só? Dois, talvez? É…melhor parar em dois. Fralda tá cara, brother! Nossa! Acho que seriamos felizes, viu?

A Cinelândia chegou, tenho que desembarcar. Você vai ficar bem? Foi ótimo passar esse tempo contigo.

Vou lembrar do modo como você ajeita o cabelo, do seu olhar curioso ao passar na frente de mais uma das infinitas obras da “Cidade Olímpica”, vou lembrar dos seus passos de dança tímidos concentrados no ombro e no pescoço (quem quer pagar mico em público?). Acho que lembrarei de tudo até o fim do dia…

Foi mais um amor que poderia dar certo, mas não passou da Cinelândia.