Ex-adventista, ex-cristão, ex-teísta

A maioria de nós brasileiros é criada como cristão (no meu caso católico). Desde cedo aprendemos que Deus existe, que Ele é bom, que devemos seguir Seus mandamentos e ler a Bíblia. Ou seja, a maioria de nós (principalmente os que nasceram no início da década de 80 como eu) foi criada como cristão e, provavelmente, católico.

Apesar de eu ouvir isso sempre, eu nunca via ninguém lendo a Bíblia (apesar de vê-la como objeto de decoração na maioria das casas) e percebia que havia algo no ar, algo do tipo "não questiona muito, só acredita e pronto, pode até fingir se quiser". Pra mim a religião era uma formalidade sem sentido.

Desde cedo eu pensava sobre o significado da vida, sobre auto consciência e realidade. Tentei achar as respostas na religião mas logo percebi que não iria ser fácil porque eu, por algum motivo, não queria respostas superficiais ou ilógicas.

Quando cheguei no início da adolescência parei um pouco de pensar nessas coisas e fui viver a vida, fiz vários amigos, arrumei uma namorada e tudo foi bem durante alguns anos. Até que conheci uma turminha diferente, uma galera que cuidava da saúde, se comportava de maneira discreta e amigável, muito diferente das pessoas não católicas que eu conhecia. De cara me identifiquei com eles e logo descobri que eles eram Adventistas. Conversamos bastante sobre alimentação, saúde, relacionamentos e religião. Percebi que eles não só falavam que a Bíblia era importante, eles realmente a liam e tinham explicações mesmo para as partes mais bizarras dela. Independentemente do fato de eu acreditar ou não no que eles diziam, eu os achei coerentes. Algo que eu ainda não havia visto no mundo religioso.

Pensei que já que eles estudavam tanto eles poderiam ajudar com as minhas questões existenciais. Comecei a estudar com eles e muita coisa passou a fazer sentido. Estudamos a história do cristianismo, reforma protestante e sobre o cristianismo moderno, as coisas estavam indo bem, consegui responder parte das minhas indagações sob um preço que na ocasião não me pareceu caro: tive que partir de algumas premissas que não satisfaziam 100% minha forma de pensar. Mas como eu estava curtindo o momento, as descobertas e os novos amigos, decidi que o preço seria justo.

Em pouco tempo me tornei um dos caras mais estudiosos da turminha, eu conseguia encontrar falhas de raciocínio até nas pessoas que estavam naquele ambiente há décadas. Ganhei alguns inimigos, mas segui meu caminho. Porém, com o tempo, fui percebendo que essas falhas eram a estrutura da fé daquelas pessoas e isso me deixou em conflito comigo mesmo porque… eram realmente falhas? Seria correto expô-las? Decidi estudar mais para tentar encontrar algo que me mostrasse que a fé e a razão poderiam caminhar juntas, quanto mais estudei mais me convenci do contrário.

Aos poucos o clima dentro da comunidade religiosa foi ficando pesado por causa das minhas indagações, de um modo geral, acredito que as pessoas religiosas não gostam de pessoas que fazem perguntas difíceis. E era exatamente isso que eu estava fazendo. Porém minha intenção não era incomodar, eu estava à procura das respostas de forma sincera.

Apesar do clima pesado continuei meus estudos. Dediquei praticamente todo o meu tempo livre à leitura da Bíblia e dos livros de Ellen G. White e refleti sobre tudo o que estava acontecendo na igreja. Eu não estava feliz, me sentia preso àquela realidade, eu não conseguia nem imaginar uma vida sem religião.

Até que algo muito importante aconteceu na minha vida: eu descobri que ia me tornar pai. Naquele momento todas as correntes que me prendiam àquela vida desapareceram como em um passe de mágica. Para mim era muito claro que eu não queria que minha filha vivesse naquele ambiente.

Mas e minhas respostas? Onde eu as iria procurar? O fato de abrir mão de algo que eu acreditava que poderia me dar essas respostas me deixou apreensivo e eu comecei a ficar triste, isso me fez refletir muito.

Durante uma dessas reflexões, em um momento de introspecção, a ficha caiu e eu percebi que eu realmente não acreditava no que a igreja ensinava. O sentimento foi de liberdade, eu poderia buscar outras formas de expressar o cristianismo sem a sensação de que eu estava deixando a igreja verdadeira. Foi aí que eu deixei de ser adventista.

Então passei a visitar outras denominações, as experiências foram interessantes porém percebi que todas possuíam os mesmos problemas. Elas se baseavam em fé, e o argumento da fé é uma falácia lógica chamada petitio principii (petição de princípio), "que consiste em afirmar uma tese que se pretende demonstrar verdadeira na conclusão do argumento, já partindo do princípio que essa mesma conclusão seja verdadeira em uma das premissas".

Em outras palavras é como correr atras do rabo. Por exemplo, como se faz pra ter fé? Alguém poderia responder que a fé vem de escutar a palavra de Deus. Mas se eu não acreditar na palavra de Deus de que me adianta escutá-la? Essa mesma pessoa provavelmente responderia que a palavra de Deus deve ser escutada com fé. Ou seja, nunca se chega a lugar algum.

Outro exemplo é sobre a crença na Bíblia. Deve se ter fé para acreditar nela, porém para se ter fé é preciso lê-la com fé.

Após algum tempo de reflexão e centenas de falácias lógicas estudadas outra ficha caiu: não sou cristão. Que sensação boa, poder abrir a minha mente e procurar as respostas em outras religiões.

Passei a ler sobre outras religiões. Algumas eram muito parecidas com o cristianismo, outras eram mais interessantes já que tinham Deus como algo mais subjetivo e, em muitos casos não eram monoteístas. Decidi me aprofundar no Budismo e gostei já que um de seus princípios é que "existem vários caminhos". Porém vi na prática o mesmo problema que eu via nas igrejas cristãs: muita gente achando que sabe todas as respostas.

Deixei um pouco os livros religiosos de lado e fui ler Filosofia. A Filosofia me levou à Astronomia e depois cheguei a Biologia e com tudo isso veio a Teoria da Evolução das Espécies e a Teoria do Big Bang.

Nesse momento de estudos digamos "seculares" outra ficha caiu e, aos 24 anos, pela primeira vez na minha vida eu percebi que eu não era mais teísta.

Eu concluí que acreditar em coisas que fazem sentido me deixa feliz e lutar contra isso me deixa triste. Pra ser mais exato eu aprendi que não é preciso acreditar em nada porque o conhecimento abre a mente, conhecer é melhor do que acreditar.

Percebi que a vida é muito curta para se desperdiçar com dogmas e regras religiosas sem sentido. A vida é linda, cheia de aleatoriedades, cheia de surpresas, cheia de desafios, cheia de amor. Podemos ser felizes e gratos por nossa vida, não precisamos de um Deus.

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