Uma vez minha irmã disse que eu só gostava de coisa velha.
Isso, de fato, é uma calúnia. Eu gosto de muita coisa nova, mas tudo bem, eu confesso que tenho uma queda por coisas que não são da minha época. Como Beatles e toda essa vibe vintage.
Se não fosse minha paixão por tecnologia, internet e todos os meus gadgets eu diria que nasci na época errada. Principalmente em relação à música, parece que antigamente as bandas eram tão melhores. Os festivais, a “paz e o amor”, o “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.
Além de Beatles, que vou guardar pra outro texto, Cazuza é um bom exemplo. Ele faleceu quando eu tinha apenas dois anos — e já não cantava há algum tempo, mas ainda assim sua música entrou na minha vida de alguma forma. Não sei como eu o conheci, provavelmente por adultos que me cercavam. Escutei, gostei e procurei por mais.
Não sou muito fã de música nacional, sei apreciar e respeitar. Mas não são muitos que estão na minha playlist. Cazuza está. Definitivamente não entendo quem não aprecia suas músicas. Tudo bem você não gostar do estilo, mas preste atenção nas letras, por favor?
Em cada música há pelo menos uma frase marcante, como “ideologia, eu quero uma para viver”,“meus heróis morreram de overdose” e a minha favorita: “mentiras sinceras me interessam”.
Cazuza era um compositor genial.
Então, essa semana enquanto escutava algumas de suas músicas, me deparei com uma frase de “Exagerado” que me fez pensar um pouco no sentido por trás das palavras: “adoro um amor inventado”. Amor inventando, quem é que gosta de um amor inventado? O que tanto almejamos não é um amor de verdade, real? Pois é, foi aí que entendi o que Cazuza queria dizer. Ou se não, pelo menos formei a minha teoria.
Nascemos e crescemos com essa pressão que devemos encontrar nosso parceiro, que ninguém é feliz sozinho. Que a felicidade depende da vida a dois. Então, quando conhecemos alguém, e começamos a nos interessar por essa pessoa, já achamos que é amor. Inventamos. Enganamos a nós mesmos.
“Eu nunca mais vou respirar, se você não me notar.
Eu posso até morrer de fome se você não me amar”
Na música, aparentemente, Cazuza nem tinha alguma relação com essa pessoa. Ele simplesmente se apaixonou pela ideia que aquela pessoa representava, ou por seu físico, e inventou esse amor desenfreado que ele canta.
Mas cá entre nós, que atire a primeira pedra quem nunca fez isso. Quantas vezes pensamos que é amor e na verdade era só carência? Nós nos agarramos tanto à ideia de querer um amor, que acabamos inventando um. E é uma sensação tão boa, se apaixonar é bom. Pensar que será pra sempre, que aquela pessoa será única na sua vida. Que você não vai mais conseguir viver sem ela e todo aquele conto de fadas que, principalmente nós mulheres, imaginamos.
Até os amores platônicos entram nessa categoria. Como aquele paquera que você nunca ficou, mas tem certeza que ele é o homem da sua vida. Nós inventamos amores o tempo todo, porque precisamos dele para continuar vivendo. Porque dessa forma vamos seguindo em frente, porque ficamos bem humorados, felizes.
Então, Cazuza, se era isso o que você queria dizer, devo confessar que eu também adoro um amor inventado.
Email me when Laís Fracky Scrivani publishes or recommends stories