4 belas mentiras que nos contam nas corporações

Atuei quase dois anos com jornalismo corporativo, mais precisamente dentro da lógica comunicação corporativa. Como ela desvela e revela a ‘bunda’ da empresa por assim dizer. Como em tudo que damos atenção por um longo período, é normal criar-se conceitos sobre os ideais já sedimentados e tidos como verdades irrefutáveis.
No caso do universo corporativo o que mais há são verdades irrefutáveis; na minha opinião algumas extremas e burras, a primeira delas: toda empresa é igual. Sim, a afirmação tem lá cerca de 70% de verdade, porém é nestes 30% que reside o trágicômico. Assim como a famigerada votação do impeachment trouxe a luz o tom jocoso, hilário e completamente obscuro de nossos ínclitos deputados, 30% das empresas vivem estes cenários escancarados diariamente e as outras 70%, como falamos no cinema em vários ‘panos de fundo’, ou um belo faz de conta. Isto é: há uma exacerbada luta pelo poder, por, como cita Matheus Haddad, troféus. São vários e cada um tal qual um Mario corporativo pode montar no Yoshi e alçar alguns voos, ou cair sentado sobre um cactus.

A diferença é que aqui o jogo não leva a salvar a princesa, mas sim o ego, os inflados e vários egos, que muitas vezes tornam as empresas, mesmo as maiores em espaço físico, a se tornarem pequenas arenas de batalha. Porém o Pokémon aqui não é o Pikachu, mas sim o orgulho, os títulos, a arrogância e, claro, a liderança; esta de fato a segunda grande verdade, das empresas, ou melhor dizendo a maior mentira delas.
Líder e chefe não deveriam ser conceitos esparsos e dicotômicos, ou para usar um termo literário mais moderno: dialéticos. O conceito de chefe é abjurado por todos, desde empregados até aos próprios senhores do cafezal. Tem-se a ideia de um mini ditador que da sua mesa pura e ilibada dita ordens no melhor estilo Another Brick in The Wall, e os empregados, pequenos e ignóbeis, apenas o circundam obedecendo as sábias ordens deste ser iluminado por algum deus corporativo, que, claro, escolhe seu rebanho a dedo, pois assim como seus escolhidos é dotado de uma sapiência tal qual Nietzsche, Bataille e Blanchot nunca, nem em seus maiores delírios, sonharam.

Chegamos com este devaneio a terceira verdade. Bem, somos meros empregados! Ah seu zé ruela, mas disso eu já sei. Calma, pequeno gafanhoto, lembra da ideia do cinema, mencionada acima? Explicarei: todo filme é produzido consciente ou inconscientemente em camadas, ou seja, tudo o que seus lindos glóbulos oculares veem na tela não passam da entrada, da ponta do ‘real’ significado do que se pretende dizer. Ou você, realmente acredita que a fala do mendigo — Homens na lua, homens girando ao redor da terra e ninguém mais presta atenção na lei e na ordem terrestre — no início de Laranja Mecânica fora apenas o delírio de um bêbado ou de um Kubrick em crise criativa, durante a escrita do roteiro?
As cenas iniciais de 2001 podem explicar esta fala sem qualquer dúvida. Claro, menciono algo que está transparente. Lúcido. Porém há pontos que são obscuros e apenas com uma visão apurada conseguimos visualizar ou claro delirar sobre, tal qual este texto. Mas ainda falando em texto, já percebeu a etimologia da palavra empregado?, talvez um prego possa explicá-la de forma mais transparente. Isto é, perdão pela grosseria, mas você e eu não passamos de um pedaço de tábua (em)pregada pelo sistema, que ao menor sinal que irá rachar será substituída, assim num piscar de olhos.
A quarta verdade, para aludir a ideia da quarta parede é a transparência. Contudo, transparência de cu é rola. A maioria das empresas está tão preocupada em descobrir como multiplicar seus ganhos em progressão aritmética que a comunicação e a transparência são apenas um engodo para inglês ver. Sim, até mesmo você sentado em um jardim inglês, com sobretudo e tomando um chá com o dedo mínimo em riste, está nesta conta. O problema não é latino e muito menos isso acontece por culpa do PT ou da tia Dilma; mas claro, partindo da hipótese de sempre buscar um bode expiatório para culpar, talvez olhar-se no espelho possa ajudar, ou não.