Dá um jeito no teu namorado

Há algum tempo uma amiga recebeu uma mensagem no gato curioso que, se foi incômodo para mim, nem imagino para ela. O comentário em questão falava algo sobre seu namorado, de uma forma que eu já havia esquecido que existia. Era uma crítica a ele e ela, como namorada, deveria falar com ele.

Ela deveria consertá-lo.

Foram inúmeras as vezes que ouvi que eu era responsável por “educar meu namorado” também. Tantas que começaram mesmo antes de namorarmos. Tantas que nem sequer posso dizer que lembro a primeira vez que ouvi sobre isso: é algo que, se eu não tivesse aprendido sobre padrões e imposições sociais há anos, eu diria que é natural. Nasceu na gente que é mulher.

Dedica-se para as mulheres a educação do mundo todo. Precisamos ensiná-los (por toda a vida), precisamos falar com eles, precisamos lhes mostrar o caminho da luz. Se ele erra, nós pedimos desculpas. Se ele erra, é nosso dever “dar um jeito nisso”. É nossa culpa que ele errou, afinal, não estamos fazendo direito.

No entanto, não temos que cumprir nenhum dever. Não podemos salvá-los, não podemos educá-los, não podemos mudá-los. Não assinamos um contrato que nos torna responsáveis por outra pessoa, especialmente quando a outra parte é adulta e pode responder por si.

Já passamos a vida toda cuidando de nós mesmas. Desconstruir a si mesma é trabalhoso o suficiente, cuidar de si mesma é uma tarefa árdua (especialmente quando nos sentimos sozinhas o tempo todo). Nossa relação com nós mesmas, porém, é eterna. E é a única que vale a pena. Se não estivermos por nós, o mundo só lamenta.

Homens crescem sendo mimados e esperando que a sociedade se curve aos seus pés. Cabe a eles a possibilidade de errar (sempre), a possibilidade de tratar mal outras pessoas, a possibilidade de optar ser rude, ser hostil, de ser dissimulado. A nós cabe ser quem salva, quem limpa a bagunça, quem se parte ao meio para que eles continuem inteiros. Cabe estar sempre pronta para carregá-los nas costas.

É preciso cuidado ao repetir discursos que culpabilizam outras mulheres, principalmente quando se é uma. Não podemos permitir que sigam cobrando de nós atitudes ou discursos que jamais proferimos.

Entenda que sua amiga não é responsável pelas cagadas do parceiro e que ele é o único capaz de resolver o problema que criou. E se isso for uma necessidade, é preciso tratar diretamente com ele. Não a faça carregar pesos extras, não reforce a culpa que um mundo inteiro já entrega a ela todos os dias.

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