Nunca antes numa história de amor

Eu sei que histórias como a minha são repetidas desde os primórdios por homens que, de tão amargurados, a única coisa que sabem fazer é tornar um inferno a vida de mulheres com as quais resolvem se relacionar.

Sim, resolvem.

Caras assim não se apaixonam. Caras assim não desenvolvem uma relação de carinho, de respeito e cumplicidade com suas parceiras. Caras assim têm vítimas. Selecionam-nas, preparam o terreno e, então, começam a envenená-las. É óbvio que não no sentido literal, mas talvez dessa forma seja até pior.

Mas não eu. Eu não faria isso.

Portanto, deixem-me contar a história desde o princípio.

Eu estava no bar com um grupo de amigos um dia, férias de julho talvez. Não sou o cara com a melhor autoestima do mundo (e quem é?), mas sou bem resolvido, sabe? Faculdade, trabalho, questões sociais, essas coisas. Reconheço a importância. E aí, em algum momento, ela chegou com seu grupo de amigos: não me lembro quantos, não me lembro como ela estava vestida. Mas ela era ideal!

Aguardei escolherem uma mesa, sentarem e fazerem a primeira rodada de pedidos. Pedi ao garçom que enviasse de presente a ela um drink e um papel com meu telefone anotado. Romântico à moda antiga.

Ela me localizou no bar. Sorriu pra mim. E veio em minha direção.

Desde então, não houve um dia que não conversássemos ou uma semana que não nos encontrássemos. Ela tinha seus problemas, a autoestima baixa por ser gorda e pelos cabelos cacheados, mas nada disso importava para mim. Eu dizia que seu cabelo lembrava o da Merida, aquela princesa de um dos contos ditos revolucionários da Disney. Às vezes, até o comportamento era parecido. E apesar de sua forma física, ela era linda.

Poucas semanas depois e estávamos namorando. Ela parecia feliz e eu estava imensamente feliz por tê-la ao meu lado. Eu gostava de sair só com ela. Eu gostava de ter programas só com ela. Ao mesmo tempo e assim como ela, gostava de ter meus momentos. De vez em quando, em situações que não nos atrapalhavam, saia com meus amigos. Eu imaginava que éramos um casal livre de ciúmes, porque ela também saía com seus amigos sem mim.

Mas foi aí que tudo começou.

Um dia, ao ver uma mensagem no meu celular, ela surtou. Começou a dizer que eu estava dando corda para uma menina. “O que ela faz é problema dela. Você é meu namorado, você precisa cortar esse tipo de brincadeira”, eram as palavras exatas dela.

Era óbvio que não tinha nada a ver. Eu tinha amigas antigas, da pré-escola, da adolescência e da faculdade e tudo que conversávamos era só brincadeira. Nada era para atingi-la. Mas eu não queria criar causo e decepcioná-la. Disse que entendia e iria moderar as conversas.

Queria evitar que ela se chateasse com bobagens e um dia coloquei senha no meu celular.

Claro que não era necessário, mas e se ela distorcesse mais alguma coisa? E se começasse a implicar com todo mundo? Também tinha conversas com os caras, grupos… E caras falam tanta bobagem que, bom, não dá pra levar a sério. Ou dá?

Ela era cheia de ideias, personalidade forte e não media palavras ao, digamos, debater com alguém. Por esse motivo, demorei a apresenta-la aos meus amigos. Sabia que ela iria se cansar, se irritar. Sabia que ela sairia chateada. Ela tinha essa aura militante que eu adorava, mas não achava que valia a pena se desgastar com aquele tipo de gente que eles eram.

Mesmo assim, uma vez, marquei um bar para que ela os conhecesse. A torta de climão foi aquela que eu já esperava que fosse: grande e suculenta. Eles eram infantis demais, machistas… Alguns eram, inclusive, o tipo de cara que eu desprezava. O tipo de cara que citei no começo desta história.

Mas eram meus colegas. Em algum momento (que não pude precisar qual), ela apenas se calou e se encolheu em um canto. Beliscava sua batata frita e tomava seu drink como se o universo fosse aquilo e só. Seu pequeno mundo criado ali, bem diante de nós. Eu não me preocupei: ela era madura, crescida, sabia o que era o melhor para si.

Notei que, desde aquele dia, ela se tornou um bocado mais apática, mas imaginava que podia ser coisa dela. Problemas dela. Ela também tinha sua vida: faculdade, trabalho, voluntário, apartamento, bichos de estimação. Não me meti. Afinal de contas, se ela quisesse, poderia falar sobre.

Um tempo depois, em outra saída, ela descobriu sobre os grupos com aqueles caras. Viu algumas fotos e pequenas “avaliações” que faziam sobre as meninas. Eu não comentava nada, não participava, mas era engraçado ver o quão bobos eles eram. E, apesar disso, eram inofensivos. Não dá pra dizer que usariam aquilo na vida real.

Tivemos uma discussão naquela noite. Ela disse que eu compactuava com aquilo, não importa que não falasse nada no grupo. Que eu fazia parte daquele “jogo nojento”. E, cheia de cinismo, disse que era incrível a coincidência enorme de, para nós, só serem bonitas as meninas “dentro do padrão”.

Surtei. Não deveria. Deveria tê-la ouvido. Mas eu surtei. Disse que ela estava louca, que aquilo nada tinha a ver comigo e que, bom. Eu estava com ela. Mesmo quando estava de saco cheio. Eu gostava dela. E ela não era nenhuma princesa dentro do padrão, ou era?

Ela começou a chorar e eu disse que aquilo era exagero. Eu tentei abraça-la e ela disse que tudo o que precisava era ficar sozinha. Que estava cansada de ser a que aguenta tudo quieta. Que eu sequer me importava com ela.

Disse novamente que aquilo era exagero, que poderíamos resolver juntos, mas ela disse que não. Que já era mais de um ano assim. Que ela nem conseguia mais se expressar. Que aquela não era ela.

Aquela foi a primeira vez que passamos uma semana sem conversar sobre absolutamente nada.

Eu a procurei uma semana depois, porque não aguentava mais de saudade. Fui até a casa dela para conversar. Levei chocolates e um cartãozinho besta, mas que poderia ser engraçado se ela ainda fosse normal. Ele dizia: “não coma tudo de uma vez, quero que você se lembre de mim por mais tempo”. Nada demais, certo?

Enquanto conversávamos, ela disse que saiu com um amigo, seu “melhor amigo”, para ajudar a espairecer e se entender. Eu ri. E pelo visto, não foi uma risada simpática como deveria soar (embora, de fato, não fosse). Ela questionou e eu disse que me lembrava daquelas cenas de filme, onde a menina meio vagabunda termina com o namorado e sai com o amigo para inocentemente “dar” para ele.

Veja bem, eu não a estava acusando! Apenas fiz uma brincadeira, uma piada, um comentário aleatório para aliviar a tensão. Ela tentou contar que também havia começado a fazer terapia e quis falar sobre “todo mal que lhe causei”. Eu estava cansado, eu havia feito de tudo por ela! Quis amá-la, quis protege-la, quis que ela tivesse liberdade! Mas estava de saco cheio. Apenas disse que, bom, ela sempre foi problemática mesmo, levantei-me para ir embora e completei com: acho melhor você comer os chocolates de uma vez, antes isso e continuar assim que falar tanta merda.

E fui embora.

Mesmo sabendo que ela estava chorando lá dentro.

Também não especifiquei o que era “continuar assim”, mas pelo olhar dela segundos antes de eu sair, sabia que ela havia entendido.

Agora, vejam bem. Eu sei que errei. Sei que a ataquei e sei que a melhor defesa não é o ataque. E tudo o que ela fazia era tentar me diminuir, me podar, me cercear. Sei que a magoei e que poderia consertar isso, mas ela estava realmente ficando louca. Ela via coisas que não existia, ela se sabotava e ela se diminuía! Eu não podia deixar que aquilo me afetasse também. Eu era um cara bem resolvido e lutando pela minha independência na vida. Eu não podia, jamais, deixar que alguém me puxasse para o fundo do poço dessa forma.

Quando eu a conheci, ela era encantadora. Eu não entendo o motivo de ter surtado ao longo desse tempo juntos, não entendo o motivo de se torturar tanto, de criar problemas entre nós. Nós estávamos tão felizes juntos!

E, como eu disse, sei que há um amontoado de caras que usariam a mesma desculpa e a mesma história esfarrapada para convencer de que ele era o “cool guy”. Sei que há caras que, descaradamente, silenciam suas “companheiras”, fazem… Qual a palavra mesmo? Gaslighting. Eu aprendi sobre isso com ela, numa acusação tão infame quanto possível, mas nunca fiz nada disso. Reconheço a situação em vários amigos, mas não em mim.

Nunca em mim.

*Originalmente publicado em meupalanque

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