L’Origine du monde: Ana, Iara, o nu e o feminismo

foto: Rosano Mauro jr.

Quando se é criança é muito provável que as pessoas tentem impor que rosa é coisa de menina, azul é coisa de menino, carrinhos e monstros são coisas de homenzinho, cozinha e Barbie são de mulherzinha. Ana Larousse desde a quarta série gostava de jogar futebol com suas colegas e, durante as Olimpíadas Colegiais, o time feminino foi excluído. O motivo? Falaram que era jogo de meninos. Mesmo tão nova ela organizou um abaixo assinado. “Eu fiquei possessa. Fizemos muito barulho” e elas conseguiram: o time de futebol feminino foi incluído. “Foi uma vitória linda pra mim na época. Mas só essa, porque nos jogos eu acabei fazendo um gol contra que rendeu muita piada por anos!”, brinca. Naquele tempo ela não sabia o que era feminismo, mas olhando para trás tem absoluta certeza que esse foi seu primeiro ato feminista, “acho que eu sempre fui naturalmente feminista”.

Iara Rennó, tem muito em comum com Ana. Por volta de seus 10 anos de idade, não entendia e ficava indignada com as privações sexistas. Cortou o cabelo bem curto e só andava com meninos no recreio. “Não aceitava de jeito nenhum que me enquadrassem naquele padrão ‘cor de rosa’. Fui pintar a unha pela primeira vez aos 24 anos e usar batom só depois dos 30, no fundo era uma vontade de não pertencer ao padrão, bem na onda do ‘queimar o sutiã’”. Quando lançou o livro Língua Brasa Carne Flor (Ed Patuá, 2015) as pessoas começaram a dizer que ela era feminista “eu até estranhei no início, mas parece que sempre fui essencialmente feminista mesmo antes de saber o que o termo significava”, assume.

Larousse e Rennó são cantoras e compositoras, feministas, brasileiras e trazem o nu para a literatura da música com a naturalidade que se deve ter.

Recentemente Iara lançou o clipe de MAMA-ME, mulheres com peitos de todos as formas sem blusa ou sutiã os apertando. “Desde a gravação da música a gente já imaginava que os peitos deveriam ser as grandes estrelas do vídeo. Apartidário, em múltiplas cores, tamanhos e formatos: um manifesto MAMAÍSTA do movimento PEITISTA!”, comenta. O resultado não poderia ser melhor, as modelos, as luzes, o ritmo, a letra, a voz. Todos saíram satisfeitos. “Ninguém ficou com a sensação de ter feito um topless gratuito, sabe? Todas sentiram-se úteis ali, manifestando sua beleza, independente de padrão, sua sensualidade e sua própria vontade”, orgulha-se.

A nudez ainda gera um desconforto aqui, uma polêmica ali e, infelizmente, é tabu por todos os lados em nossa sociedade. Se mamilos são polêmicos desde muito antes do meme que já é velho, barrigas chapadas ou gordinhas também o são. A L’Origine du monde, de Gustave Courbert, ainda causa. Pelos? tê-los ou não, em comum fica a polêmica. Uma mulher amamentado gera debates absurdos. Mas na propaganda de cerveja, ou na revista erótica o corpo da modelo é só entretenimento.

“Quando a iniciativa é da própria mulher, geralmente o ato se choca com o interesse do mercado — que é majoritariamente hétero-machista. A propaganda quer vender um produto, por isso o nu na propaganda está vendido. Mas quando a pessoa se despe pela sua própria vontade, exercendo a sua liberdade pelo próprio prazer, e não servindo ao sistema ela é logo julgada”, analisa Iara.

Ana sentiu tal julgamento na pele, literalmente: no ano passado fez um show nua, com frases de apoio a legalização do aborto escritas por todo o corpo. Ao postar as fotos do show em suas redes sociais, recebeu uma chuva de comentários agressivos. “Desde baixarias como ‘puta’, ‘vagabunda’ ou ‘por isso que é feminista, que homem ia querer uma desgraça dessas?’, até textos imensos falando sobre o quão cruel é o aborto e muitas críticas à minha postura a favor de sua legalização”, recorda. As agressões em sua grande maioria seguiram cheias de argumentos religiosos. “Quando vi que toda essa agressão ao movimento feminista vinha de homens e toda crítica à legalização do aborto vinha com a bíblia nas mãos, tive ainda mais certeza de estar no caminho certo”, afirma.

Para responder as ofensas, Ana mantém a calma e aposta no diálogo. “Escuto, argumento e tenho uma paciência que nem sei de onde consigo extrair para responder os que me atacam sem atacá-los, sempre respeitando o que dizem e sem fazer nada senão dialogar pacificamente. Já vi resultados lindos com isso. Acredito demais nessas ações. Como sempre digo, de que adiantaria eu fazer manifestos somente perante os que pensam como eu e ignorar os que refutam minha postura? De absolutamente nada. É para os que pensam diferente que devo me posicionar e são eles que devo ouvir e responder” reconhece.

foto: David Ferreira — Polarizada

Dizem que o Estado é laico, mas no Congresso a bancada evangélica só cresce. Querem ditar regra, querem nos proibir. Somos mulheres e estamos aprendendo a sermos donas dos nossos próprios corpos, estamos fazendo nossas próprias regras e para Iara ainda existe muita gente que recusa a nos escutar. A sociedade ainda insisti em diminuir as mulheres, tirarem nossas vozes, nossas vontades. A busca por mais liberdade e autonomia também dá o tom ao clipe de Iara. “Acho revoltante ser considerado crime uma mulher estar de topless na praia e o cúmulo do absurdo hostilizarem uma mãe amamentando em público. Essa demonização dos mamilos tem que acabar, e acho que podemos contribuir pra isso insistindo no assunto” desabafa.

Larousse indica que caminhamos a procura de um futuro, quem sabe, melhor. “Acho que estamos no processo de abrir espaço para as mulheres. Estamos olhando mais para as que sempre estiveram ali e chamando mais parceiras para se mostrar. Mas ainda tem muito chão pela frente”. Ela, que se entende como romântica, consegue fazer uso do nu em sua arte de uma forma bela e sutil. “O nu está em meu trabalho de várias formas. Em ensaios fotográficos, fotos de divulgação para a imprensa, vídeo clipe e, sim, muitas vezes no palco”. A cantora e compositora prefere ser reconhecida pela sua produção artística. “Vou pro lado avesso da imagem da mulher cantora diva que se produz e cultua o corpo como santuário de beleza e que deve ser desejado. Não quero que me achem bonita, que me desejem. Quero que me ouçam que sejam sensíveis a minha arte, quero ser vista como uma artista, uma compositora, não uma gata, gostosa, sei lá. Se atraírem por mim, que seja por eu ser do jeito mais eu do mundo. Pelo que tenho a dizer e a fazer sentir”.

  • Publicado originalmente por indicai.mus.br
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