Só uma noveninha pra gente dona Dita!

O saudosismo duma amiga escritora desencadeou meu lado literário nostálgico: também tive uma avó rezadeira. Qualquer coisa que Deus e o mundo precisasse, encomendávamos reza para ela, que tinha fama de ter “conexão sem intermitência” com o andar de cima. Não se podia pedir chuva desavisadamente- podia descer logo tempestade braba e nos sentiríamos numa “Veneza suburbana”. As solicitações careciam de ser mais específicas, já que se tratava duma reza sem filtros, estilo pé na terra de Manoel de Barros. Quando os solicitantes pediam graças, rápido agradeciam, mas também recomendavam que não se “suspendesse a reza”, nunca se sabe, era o caso talvez de acumular um rescaldo pruma necessidade que surpreendesse nessas esquinas inesperadas do viver. Conclusão: vó rezava dia e noite, sempre murmurava, riscava o caderninho de preces, só suspendia quando falávamos com ela e olhe lá. Dizia que estava pedindo um emprego perto, que gostássemos, o chefe fosse bom, pagasse bem, não trabalhasse muito e brincávamos “vó nem exige tanto assim, isso só deve ter no andar de cima”.
Estranho quando ouço de avós ruins, rabugentos, severos demais: avós em minha memória infantil inocente são compostos de matéria prima de primeira qualidade - fé, ingenuidade e graça. Nem só de composição etérea se fazia minha avó: um dos clássicos de nossa infância foi ouvi-la contando o fora literário dum primo namorado (a família contabilizou cinco gerações nessas relações de parentesco). Ela dava aula (não que tenha estudado muito, mas na escola rural quem ensinava sabia um “cadinho” a mais e compartilhava de bom grado) e chegou a carta do tio Machadinho. Ele é outro folclórico nesta árvore genealógica, juntava brinquedos perdidos nos fundos da casa de madeira doutro avô no norte do Paraná, nosso paraíso infantil de peças raras, entulhadas num galpãozinho dos fundos, em meio a cheiro de chuva, terra vermelha e café. Sei que ela parou a vida para ler o raio da carta, mas não começava com boas notícias “minha querida noivinha escrevo a fim de falar do nosso noivado: tão bem começado e tão mal acabado”. Seguiu-se um dia de choradeira e era o deadline que ela nos dava para chorar um amor perdido: 24 horas. Confesso que após a partida dela escorreguei na obediência essa receita e a sinto ralhando na memória “tenenuméisso”, que devia equivaler numa tradução livre “até parece que é isso tudo”!
Lembro dum rádio antiiigo do avô que ela cuidou décadas depois dum derrame e o cheiro da comida que fazia é o único aroma de culinária com carne que ativa boas sensações na minha memória olfativa — obviamente por razões extra culinárias.
Podíamos falar qualquer barbaridade ao rodapé da orelha dela e depois adaptar para algo palatável à idade ou fé da terceira idade interiorana, que seria acolhido de bate pronto.
Brinco que mesmo que apresentásemos a ela um ogro, chamado Ariosto, ela diria “que amigo e nome bonitos”! Em compensação, ele podia ter sobrenomes trivialmente graciosos como Garcia, Azevedo ou Borges e ela estranharia “que sobrenome esquisito”. Qualquer coisa que não fosse Machado, Mendonça, Duarte ou Brandão entraria imediatamente nesta classificação.
Quando minha mãe “rompeu o enlouquecimento a que o serviço doméstico se destina” e voltou ao batente para ser pirada por terceiros e remunerada por isso, passei tardes libertinas na avó, nas quais o pedido “posso tomar chuva”? era prontamente aceito. Cada poro meu guarda os pulos nas poças como desvios heroicos duma “superproteção filhauniqueira”.
Vó não conseguia comer, tomava banhos dignos de temporada de seca, não tinha ideia do almoço ou jantar da véspera, mas sempre recordava quantas décadas tinha perdido ou nascido um filho falecido. Ela se confessava ao telefone e mandava minhas tias fecharem a porta da sala e recolherem o “piloto da colônia dos gatos que administram atualmente no ABC”, pois era tudo muito perigoso, apesar de morarmos numa cidade dentro da cidade e sermos privilegiados em meio aos 38 prédios que ficam ao rodapé do Heliópolis.
Suas memórias de agruras femininas no sol da roça nos faziam crer que havíamos evoluído sensivelmente de carpinar com cólica no sol interiorano aos chás, bolsas quentes e às vezes primas desmaiando passando pelo mesmo nos subúrbios urbanos.
Quando meu avô morreu, ela preveu “dez anos que não passava de amanhã”, talvez por isso muitos familiares fomos displicentes quando ela foi internada e dois dias depois de pedir “que abrissem a porta praquela mulher de branco que não conseguia entrar” nos deixou antes que vários se despedissem.
Suas fotos em preto e branco guardavam memórias mosaico dum ganha e perde pelas roças familiares interioranas mais irresistíveis que qualquer Vale a Pena Ver de Novo ou Sessão da Tarde diurnos das minha infância.
Sempre que me pego nos vai e vens da minha fé bumerangue não tenho bem certeza se ela tatuou em nós essa conexão espiritual que pretendia. Me perdoo lembrando dum pastor parceiro em projeto social que jurava serem os rebeldes os “filhos preferidos de Deus”. Ainda hoje não tenho ideia de a quem recorrer quando a saúde dá três rasteiras seguidas, minha coleção de trampos inadimistráveis se dilata ou a veia hereditariamente sanguínea me emociona a cada espirro. Porém quando ouço mais e de novo “o quanto dá paz falar comigo”, ensaiando apaziguamentos que ainda descubro como vivenciar, desconfio que um ensaio de tranquilidade para terceiros ela repartiu entre nós sim. E cada um vai partilhando conforme chance e tato vida afora. Sei que essa foi a única ariana que não era pé na porta da minha vida. Um milagre zodiacal.