O que é família?

O conceito de família deveria ser: Um lugar onde sempre cabe mais um… onde o sorrir é rotina e viver é resultado de uma felicidade simples e sincera... E isso não significa que seja um lugar sem brigas, choro e barulho…porém isso aí não pode ser todos os dias…

Na casa da gente devia ter acordos de paz, tipo assim: De vez enquando pode até ficar zangado, xingar, desejar o mal, mas todos os dias não!!! Deve ser porre o viver em meio a tanta confusão, barulho e desrespeito diários…

Aqui em casa têm dias de cheiro, beijo e abraço… mas também têm dias que ninguém se aguenta…nossa é horrível a sensação de não querer voltar pra casa porque no lugar de paz encontraremos inquietude e desrespeito com o nosso eu.

Assim, eis algumas descobertas:

Primeiro: Silêncio para ouvir.

Um belo desafio! E por isso é necessário muito treino. Ouvir não é fácil, pois temos que limpar a mente dos nossos pensamentos e dedicarmos minutos de controle dos dedos para que fiquem sem mexer nas teclas do celular. Minutos, quase eternos, para não desgrudarmos os olhos da boca do falante.

Segundo: Paciência para escutar.

Escutar é o segundo estágio do ouvir. Quando escutamos nos aquietamos e nos esquecemos de nós mesmos… Porém quando aprendemos a silenciar estamos capacitados à compreensão do que estar nos sendo dito. É aquele lance de prestar atenção, sentir o sentimento do outro de verdade.

Terceiro: Interesse pelo outro.

Quanto juntamos a capacidade de silenciar com a paciência para ouvir de fato teremos um interesse genuíno pelo outro. É intrigante perceber efeitos quase imediatos na relação familiar, considerando a simplicidade de tudo isso. O investimento é milhares de vezes menor, sendo desnecessário dinheiro.

Quarto: Reciprocidade com a gente.

De repente, passamos a nos acalmar. A nos enxergar pela percepção do outro que antes estava lá e não víamos. E nós também éramos invisíveis. Quantas vezes a minha capacidade de falar enganou-me como alguém incompreendido. Na verdade era eu que não compreendia, não ouvia, não me importava com a história do outro. Sendo eu o centro.

Quinto: Mudanças de hábitos.

O aparente desassossego pode ser um sentimento de paz. O que acontece como resposta aos desentendimentos é que não precisa ter paz o tempo todo, isto é, se alguém não quer dar ou responder bom-dia, deixa. As pessoas têm o direito de acordar mal… Por que achar que todos os dias as pessoas querem ser gentis? Deveríamos mesmo é ter hábitos mais saudáveis, sendo gente autêntica que não obriga o outro a ser cópia [da gente].

Sexto: Aceitação.

Família é lugar de aceitação e acolhida. Quem disse que somos perfeitos? E casa deveria ser lugar de muitos sons — risos, gargalhadas, músicas e canções no chuveiro. E o barulho da TV também, mas que seja com pipoca na bacia, esta passando de mão em mão até ficar vazia. Família é lugar de sentar do lado, juntinho.

Sétimo: Reconciliação.

Em casa é lugar de “lavar roupa suja”. Isso mesmo, nada de ficar levando pro mundo inteiro a fragilidade daqueles que nos são íntimos. Nada disso. Casa é lugar do “senta aqui”, do “vamos conversar”, do “vou te ouvir”, do “falo e tu me escutas”. E se perder as estibeiras? Não tem problemas, pois se rompeu deve ter um jeito de juntar/ligar de novo. Família é lugar de dar e receber perdão.

Oitavo: Comida feita na cozinha.

A cozinha é um lugar fantástico para acolher. E não é só adulto [mãe, pai ou outro alguém] que pode fazer isso. Filho e filha podem cozinhar, passar aquele cafezinho quente, fritar aquele ovinho crocante, fazer aquele bejuzinho… E comida, além de alimentar, salva a gente da fome de união. E o que dizer daquele prato que alguém gosta de comer e só tu sabe fazer? É mágico e libertador.

Nono: Lavar a louça para quem fez a comida é gesto dos bons.

Isso mesmo. Tem família achando que é mãe/mulher/empregada deve ser a responsável pela cozinha [de tudo: de fazer comida aos pratos lavados]. Cozinha é lugar de homem, criança, jovem, é lugar de quem come - mesmo que seja no quarto. Chega de achar que as pessoas são serviçais ao nosso dispor.

Décimo: Família hoje mudou.

Família é feita de gente. Não importa o gênero, a idade, a etnia. Família não é amor, apenas. É lugar de respeito, pois casa em que as pessoas não se respeitam não é legal. Além disso, em famílias de casais separados também dar pra ser família… conversando, sedendo, negociando um pouco espaços e tempos para si e para os outros.

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Tais descobertas não são canônicas, dogmáticas, definitivas. São, na verdade, possibilidades, ou melhor, estratégias de sobrevivência…

Sei também quando nas famílias faltam pão na mesa, dinheiro para comprar o pó de café e leite tudo é mais difícil. E entender porque algumas famílias têm tanto ao ponto de jogar no lixo, enquanto outras passam fome e privação não é tarefa fácil.

Porém, te digo que já passei por dificuldades na vida… precisando de ajuda quando um alguém que “do nada” arranjava uns trocados que livrava do sufoco… tendo uma vida marcada muito mais por gestos de acolhida, de bondade do outro para daí ensinar o abraço, o beijo, a gratidão aos filhos e filha.

Entender também a violência dentro dos lares é muito complexo. Sei que muitas crianças aprendem a odiar, a brigar, a machucar com os seus próprios cuidadores (ou abandonadores, melhor dizendo).

E se acaso você perceba a realidade com tintas bem mais fortes do que eu… lembra da existência de alguém com menos do que tu tens, pois há muitos seres despossuídos do direito [de cidadão] de ter casa, roupa lavada, comida na mesa, escola boa para estudar, sem dinheiro para comprar um sorvete para os filhos ou o ingresso para o cinema [tem gente que nunca foi ao cinema, ao museu, por exemplo].

Então, família é o quê? Para mim é em certos momentos ilha, em outros é continente… podendo ser pequena ou grande… É casa cheia de carros na garagem, mas bem vazia de beijos e abraços…. É casa sem garagem ou carro, mas tendo colo, cafuné, cheirinho no rosto, beijos demorados e abraços apertados…Assim, família é coletivo sem deixar de ser solidão. É um não ser, um porvir constante.

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Eu vivo numa casa com filhos (dois) e filha já adultos. Têm dias que não quero tê-los por perto; e têm outros que eles/ela não me querem também. Mas creio que a gente tem sofrido de um mal daqueles que se amam e também se odeiam… se deixam e depois se buscam… ou que resmungam [até rosnam] uns com os outros para depois ficar de chamego igual “gente sem vergonha” jurando odiar pra sempre pra depois chorar feito criança quando passa um ou dois dias sem se falar.

E a sua família como é? Quer conversar comigo sobre este assunto? Tô aqui.

Beijos, da Fran.