… E esse tal de Eduardo Bolsonaro?

É preciso refletir no seguinte: as práticas políticas de destruição e enfrentamento das instituições da família Bolsonaro continuarão firmes enquanto o clã estiver no poder. Não dá para negar o elefante na sala. A lista de radicalismos é longa e vai desde a desqualificação das pesquisas históricas sobre os casos de mortes e desaparecimentos de pessoas e ataques à memória dos que foram vítimas da violência do Estado brasileiro durante a ditadura militar, declarações sobre a possibilidade de fechar o STF (Supremo Tribunal Federal) com “um soldado e um cabo” até incitação e defesa do uso da repressão policial em caso de protestos no Brasil. O último exemplo de radicalismo feito pelo clã Bolsonaro foi a recente defesa por Eduardo Bolsonaro do Ato Institucional número 5, em caso de revoltas sociais aos moldes das que andam acontecendo na América Latina. “Vai chegar um momento em que a situação vai ser igual ao final dos anos 60 no Brasil”, disse o deputado federal e líder do Partido Social Liberal (PSL), no canal de entrevistas da jornalista Leda Nagle, ao analisar o quadro geopolítico da América Latina. Em resposta à sua própria leitura, concluiu: “se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta, e uma resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser uma legislação...”. Fecha aspas.
Aqui cumpre um breve parênteses. O Ato Institucional Nº 5, de 13 de dezembro de 1968, resolvia editar o seguinte dentro da Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais: possibilidade de decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores; possibilidade de decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição; possibilidade de suspensão dos direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassação de mandatos eletivos federais, estaduais e municipais; possibilidade de decretar o estado de sítio; e, principalmente, a possibilidade de suspensão da garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular. Fecha parênteses.
Como se podia esperar, o filho do presidente da República tentou remendar o ocorrido, em entrevista ao Programa do Ratinho, no canal SBT, ao simular um discreto pedido de desculpas: “De maneira nenhuma eu cogitei naquele momento retornar ao AI-5. Talvez [!] eu tenha sido um pouco infeliz [sic] por ter citado o AI-5. Se eu pudesse voltar atrás, talvez [!] eu não tivesse falado em AI-5 porque acabei dando munição para a oposição ficar me metralhando.” Como num perigoso “brincar de batata quente”, Jair Bolsonaro fez questão de passar a sua vez para o filho ao lamentar a fala de Eduardo sobre AI-5, dizendo: “Quem está falando sobre AI-5 está sonhando. Não existe. AI-5 no passado, existia outra Constituição, não existe mais. Esquece. (...) Cobrem dele (Eduardo). Quem quer que seja que fale em AI-5 tá falando… tá sonhando. Tá sonhando! Tá sonhando! Não quero nem ver notícia nesse sentido aí”, afirmou Bolsonaro.
Afinal, não há disfarce capaz de encobrir qual é o porquê disso tudo: como bem assinala o cientista político Marcos Nobre, “o principal objetivo do radicalismo do clã Bolsonaro é a construção e a consolidação de um movimento conservador no Brasil, inspirado nos EUA”. Nessa linha de pensamento, eis os frequentes ataques antiestablishment. Daí os frequentes ataques às instituições do Estado brasileiro. Em suma, uma tática antissistema.
Mas, … e esse tal de Eduardo Bolsonaro? Ironias a parte, não se trata deles não entenderem nada sobre tudo, ou entenderem de tudo sobre nada. Se trata de uma estratégia de se fazer passar por desentendido para te deixar sem entender o que eles já entenderam muito bem!
