Black Mirror é muito Pós-humano — ou — A nova ficção Ciberpunk

Francisco Barbuto
Jul 25, 2017 · 3 min read

por francisco barbuto

Lendo uma entrevista dada pelo criador da série Black Mirror(2011, 2016), Charlie Brooker, série disponível na Netflix, soube que o título é uma referência às telas que, a todo o momento, nos rodeiam.

“O “espelho negro” da abertura é o espelho que você encontrará em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone”, afirma Brooker.

A tela é espelho, reflexo da nossa realidade e vai além, pois permite a criação de “realidades virtuais”: reflexos de nossa cognição.

É emblemático pensar na tela como reflexo de nossos pensamentos (que, pasmem, não são refletidos pelos espelhos comuns), pois isto nos remete à ideia da simbiose homem — máquina e nas consequências ficcionais e reais desta suposta simbiose.

A ideia de que o homem e a máquina podem se completar e se acoplarem não é nova. O termo “ciborgue”, criado na década de 1960 por Clynes e Nathan Kline (SANTAELLA, 2007), foi e é comumente usado para se referir ao ser humano que tem partes maquínicas, próteses que o completam ou ampliam suas capacidades.

Esta ideia foi amplamente retratada na ficção. No cinema temos vários exemplos que nos remetem às consequências da tecnologia no modo de vida que se instala em nossa cultura. Dentre os mais reconhecidos podemos citar Metrópoles (1927) de Fritz Lang, Tempos Modernos (1936) de Chaplin, 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968) de Kubrick, mais recentemente Blade Runner (1982) de Ridley Scott, Robocop (1987) de Paul Verhoeven, a franquia Matrix (1999, 2003) das irmãs Wachowski, entre muitos outros.

Na literatura, a ficção Ciberpunk (que serviu também de inspiração para o cinema), por exemplo, considera a tecnologia que invade e modifica o corpo como tema central do pessimismo frente ao futuro da humanidade. O Ciberpunk enquanto parte do gênero de ficção científica, se ambienta no limiar do real e do virtual, sempre com uma visão sombria desta relação e do domínio da tecnologia sobre a vida (não muito distante do que vemos em Black Mirror).

Muito do que se entende hoje por Pós-humano, nasce das narrativas e das reflexões contidas neste mundo ficcional, que vão, em grande parte, se confirmando no mundo real, e servindo de base para a construção de novas narrativas que pensam o futuro do humano no contexto da imersão tecnológica. Pensar o Pós-humano é compreender que o ser humano deixou de ser natural a partir do momento em que se pôs a falar e a produzir linguagem (SANTAELLA, idem), é compreender que os artifícios usados por nós para modificar o mundo, tornam a separação entre homem (natureza) e máquina (artificialidade) uma questão a ser repensada. De certa maneira, a série Black Mirror nos leva a esta reflexão. “Naturalizando a tecnologia” podemos compreender melhor quem somos e quem podemos nos tornar em um futuro próximo que pode ser tão assustador quanto maravilhoso.

Black Mirror pode ser a nova ficção Ciberpunk porque atualiza o conceito de pessimismo em relação ao nosso uso das tecnologias, aproximando a ficção da realidade e usando a verossimilhança pra botar medo na gente, e nos fazer pensar. Black Mirror é muito Pós-humano, pois nos mostra que homem e máquina são um só: interdependentes e imbricados numa relação de co-construção de resultados imprevisíveis. A ver!


Originally published at comessencial.wordpress.com on July 25, 2017.

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