Maré alta


Long Hair Waves, sketch por Johnny Bro.

“Qual a programação para hoje a noite?”, aquela era a mensagem, e ele, embora quisesse, ainda precisava despertar e enquanto tentava não sabia se queria acordar. Melhor dormir, dormir pra sempre, pensou e levantou e escovou sua fratura exposta, que chamam dentes, “sorriso”, os otimista dizem. Aquela fileira de ossos que em conjunto com músculos e pele formam expressões, “quase sempre sinceras”, ele disse para si mesmo de frente ao espelho. Não vou sair, pensou, não depois de uma tarde inteira dormindo e uma semana de cão. “Não vou sair, hoje não” e voltava a pensar e ouvia como se fosse sua alma a dizer que iria permanecer trancada, no quarto, sob a luz amarelada daquela luminária que ele mesmo fez com as mãos. Uma, duas, três cuspidas e sangue, sempre tinha vermelho na saliva e ninguém sabia dizer porque. Câncer? Não, a médica descartou, mas pensou sentada em sua escrivaninha, enquanto tentava afastar a lembrança da longa lista de atendimentos para aquela tarde, ouvindo a respiração dele com seu aparelhozinho que tudo diz porque tudo ouve. Mas era preciso vigiar, fumantes nunca se sabe se estão a morrer. É preciso investigar, se fuma está a morrer. E passou um encaminhamento, três, e alguns exames e o abraçou pois ele sabia abraçar e ela não estava acostumada a ser tratada assim.

Preciso de um café, um cigarro, pensou e sabia que assim poderia pensar com clareza em meio a toda aquela escuridão. Só então poderia decidir se iria sair daquela prisão particular. E lançou-se no sofrimento, no aperto do peito, de sentir-se preso em sua própria morada. Quis chorar, morrer seria bom, descansar desse nada, afinal. Mas não podia, balançou a cabeça que não. Mal acabara de encontrar o seu grande amor, era preciso viver. Sempre repetindo para si mesmo que era só o começo. E tudo sempre parecia começo, não tinha fim. No entanto nunca chegava ao meio. Porque? Porque não conseguia seguir para linha do horizonte sem abandonar a ideia de que existe um lugar lá para se chegar? E ele caminhava, como andava, porém sem largar pegar nenhum raio de sol ou frutas por onde passava, só o cansaço e a respiração ofegante. “Estou cansado”, pensou em voz alta e virou a xicara de café forte de uma golada e acendeu um cigarro para tragar toda aquela aflição.

Ia sair, fazer algo, decidiu por fim, e retornou a mensagem pedindo desculpas pela hesitação. Um vinho, combinaram, tudo que precisavam era um vinho e ela não tinha nada a mão, então ele lembrou-se da garrafa que havia guardado para Marco Antônio, seu amigo de longa data por tê-lo ajudado numa de suas batalhas contra as maquinas, porque ele sabia como resolver essas coisas, havia passado anos na academia a pão e água para adquirir seu diploma de engenharia e era capaz de transformar qualquer coisa em qualquer outra com uma nova e inesperada função. Mas havia meses que não via Antônio e ele não fazia menção de aparecer, “então tomaremos essa garrafa”, ele e ela, em seu quarto, pois os dois precisavam se ver, conversar, mas sem sair para qualquer lugar.

Enquanto esperava ela chegar, tomou um banho rápido e fora surpreendido por não ter pensado em nada enquanto se banhava. Como eram raros esses momentos em que não se pensa em nada! E não tão raros eram quanto os instantes em que pensava no nada a fraquejar o tudo que o aguardava. Tão jovem, corpo forte, belo, com seu rosto quase feminino e sua barba por fazer. Quando a campainha tocou, era ela, perfumou-se com o cheiro dele que ela mais gostava e correu para a atender, deixando sob a pia do banheiro a navalha para consertar a barba e a ausência rara de pensar.

Subiram para o quarto e finalmente puderam conversar. Ela querendo saber das novidades, “não tenho nenhuma, ficarei com as suas” ele respondeu e riram, enchendo as taças daquele vinho que era o favorito de Maria. Doce, muito doce, ela sempre preferira vinhos doces ao passo que amava espumantes secos ou brut rosé. Nada estragaria aquele momento, era tudo de que precisavam por hora. Bastava.

E Maria pôde então contá-lo sobre seus novos namoricos, suas escapadas, sempre no plural. “A maré alta chegou!” disse ela, enquanto pensava naquele rapaz jovem viajante e sonhador que amou e que não ficou por não amá-la da maneira correta, muito embora no amor não haja uma forma concreta, estática, padrão. Mas Lázaro não era o que ela necessitava, com sua cabeça muito a frente e sua vida muito atrás. Como estava naquele momento aquele jovem e belo moço, com vinho e cigarro nas mãos a sua frente. Contando para ela como isso o fazia sofrer também, enquanto ela falava sobre Ben, um estrangeiro que a encantara e não sabia porque tão bela permanecia solteira. “Se beleza fosse o suficiente estaríamos feitos” respondeu ele e riram, pois sabiam da pretensão em afirmarem-se belos, o que não era mentira, quando havia na silhueta de modelo de Maria e nos seus longos cabelos pretos e lisos com sua pele alva, como as flores brancas de seu jardim, uma beleza intacta e extraordinária.

Mais um cigarro, mais uma taça e assim a noite seguiu com os contos dela sobre suas paixonites desvairadas. Ele sempre a repetir sobre como sentia saudade de seu amor. Que outro dia choraram os dois ao telefone por não aguentarem a distância física da vida, uma vida que estava decidida a morrer para que dela brotasse a sua própria, dos dois, em união. Até os problemas precisavam serem reinventados, as dores, a luta, mas seus, finalmente seus problemas, não mais o de suas famílias desajustadas. Novamente o nada. Tinha de findar essa seca desgraçada. Era preciso viver, vir e ver.

Ela tomou sua ultima taça e foi dormir, pediu, para passar a noite lá, pois o álcool já havia subido a cabeça e não era prudente dirigir. Antes de cair sob a cama a cabeça e deixar descer por si o sono e os sonhos, segurou a mão dele e disse enquanto via secar as lagrimas nos olhos avermelhados, que fossem para sua casa, os dois, ele e seu amor, passarem uns dias, cozinhar, passear na praia para esquecer o que precisa ser esquecido na vida, e viverem aquele sentimento nobre e sincero que ela tanto sonha para si mesma. Ele agradeceu e cobriu ela com o cobertor. “Boa noite”, não disseram, mas pensaram, pois sabiam que só desejar não basta. Era inegável que aquela noite havia sido boa, porque então desejar que fosse boa uma noite que já passara?

Pela manhã ele fora ao jardim, consertar os estragos das pragas e colheu uma flor de jasmim e pôs no travesseiro onde dormira ao lado de Maria, para surpreendê-la quando acordasse. Tão pacifica ela dormia, como as ondas de sua maré alta, sob os lençóis finos esvoaçantes do vento forte que entrava pela janela junto aos primeiros raios de sol. Enquanto ele lia na sala de estar e ela acordava sem notar a flor, tudo que queriam era amor e, por isso, não se notava em volta os cheiros, as texturas e a cor.

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