Outono particular

Que os guias lhes deem sabedoria, nobres camponesinhas do caos. E que morram seus maridos lenhadores!

Quando nossas folhas passam pelas estações, sobrevivem ao inverno, exibem-se na primavera em tons de cor até fraquinhas começarem a cair pelo chão. Secas, amareladas e avermelhadas, rígidas, fraquinhas, desmancham-se entre o atrito do polegar e o indicador a se esfregarem, vertendo pó. Viram tapete de se pisar nos bosques e florestas e jardins, nossas folhas, e pisam despreocupados os transeuntes enquanto a arvore sussurra do lugar de onde não pode sair “meu senhor, um pouco mais de respeito, por favor, eu já respirei por aí”. Ninguém ouve, ninguém repara, ninguém para e dá ré.

Montes de folhas e cascas, vão abrigando criaturas medonhas, peçonhentas: aranhas, escorpiões, lacraias, e najas, sempre há najas e corais! Tira dali, meu Deus! Não foi para isso que filtrei o ar. Até que o jardineiro chega e com cuidado junta com cisca-dor tudo numa pilha, limpa o que morreu, cava um buraco, cova de folha e flores. Respeitosamente se deixa lá curtir, apodrecer, até só o húmus restar. E ali só se mexe para fazer outra vida florescer. Do que morreu da velha arvore, alimento para as jovens outras irão ser. Outras fomes hão de saciar! Que belo funeral.

As camponesas são nosso terror! Imaginem só, vocês? Mulheres descuidadas a juntar nossas folhas em morros gigantes e atear fogo para acabar de nos sufocar as folhas que restaram para respirar! Quantas vezes quis derrubar um grande galho sob a cabeça de uma camponesa. Mas não consigo não as amar. Pois tudo fazem pela família e filhos verem crescer. Tão indelicadas, tão apressadas e desajeitadas, ao contrário do que o se pensam os filmes e quadros e arranjos musicais. Que os guias lhes deem sabedoria, nobres camponesinhas do caos. E que morram seus maridos lenhadores! Que caiam sob eles nossos corpos mortos ao despencar! Todo peso, toda dureza daquilo que serraram, da vida que dilaceram, do ódio e do amor. Não chores camponesa, você sobreviverá. E em meus sonhos mais profundos viras jardineira para comigo conviver em paz.

Sou Ipê, sou cor de rosa depois do inverno, verde enquanto espero, e galho seco no meu outono particular. Aguento o litoral, meu sertão semi-árido, os diabos que de mim dizem saber mais que os faço pensar. Nesse campo que me fincaram das minhas raízes faço levantamento. Me ajuda anjo! Que faço eu com os insetos e bichos homens e mulheres? Que faço eu com minhas folhas e cores nas estações a se passarem? Hoje o céu está em blue acinzentado e Apolo não apareceu. Tristíssimo! O jardineiro sempre lá. Quando estiver forte meu caule, quando os galhos forem mais firmes, e ali ninho possa se firmar, será preciso vaso grande, dizem, ele vai me remanejar.

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