Quase 40


“Onde está essa maldita gravata?!” Gritava sozinho em seu quarto. Ele ia de um lado para o outro e do outro para um. Estava quase pronto! Já havia vestido sua calça de tecido preta, a camisa branca social, seus sapatos caros e gastos. Tinha de ficar deslumbrante! Aquela era uma ocasião importante, só se vai uma vez na vida para uma destas, tivera poucas ocasiões em que fosse necessário se preocupar com os mínimos detalhes, como se deixasse passar qualquer algo todos notariam, todos apontariam, talvez rissem, pois algo não estava combinando, ou pior, que algo estivesse faltando. Sempre tivera essa sensação de falta, como se toda sua vida pudesse ser resumida em “falta algo”, não alguém, pois era querido, não podia negar, por seus amigos e familiares, ainda que não sentisse como fosse genuíno o amor que lhe davam, sendo ele incapaz de sentir amor ou admiração por si mesmo, todo o amor e admiração que lhe davam não pareciam surtir efeito, perdiam-se no tempo, por entre o espaço, como se perde a meia do pé direito, deixando o esquerdo bem vestido e só. Mas fazia diferença? Realmente faria alguma diferença encontrar a outra meia? Não devia estar ela no mesmo lugar da outra? Como se separam? Não importa, nada importa. A gravata, onde está? Continuava circulando a casa a procurar, descia e subia as escadas, sentindo vontade de chorar de raiva, porque tudo deveria está perfeito para aquele dia, um dia planejado com atenção especial.


Hoje faria trinta e nove anos, quase quarenta, nada que não pudesse ser denunciado por seus cabelos grisalhos (antes loiros) e marcas acentuadas de expressão, fazendo parecer que tivesse mais idade que dizia seu registro geral. Era de família a velhice precoce. Ainda que seu corpo fosse forte, ombros largos, peito robusto, pernas grossas e barriga relativamente definida para a idade, não se sentia belo, e diziam que era, costumava se fazer notar, mas de novo aquela sensação de descrença. O que importava a beleza vista por um olhar que não podia ter acesso?

23:26 no relógio de pulso dourado e finalmente achara a gravata! Agora estava quase tudo pronto. Enquanto se olhava no espelho arrumando os cabelos com gel para trás e alinhando o nó da gravata. Perfumando-se, que justiça lhe seja feita, sempre fora um homem cheiroso a despeito de toda persistência do mal cheiro de cigarros, com todo aquele alcatrão e fumo, que misturados a seu perfume oriental sempre lhe conferia uma essência nova e original, algo que as pessoas comentavam por onde passava. “Nossa que cheiro bom! Que perfume é este?” Outro dia mesmo uma senhora o perguntou e ele respondeu “flores e cigarros” e deu um sorriso aberto e gentil enquanto ela ria daquela resposta inesperada.

Precisava se apressar, ele sentiu, pois o aguardavam. Mas quem? Seus amigos mais íntimos, um em cada lado do país, sempre ocupados, com suas mulheres e maridos e filhos e trabalho, muito trabalho, que jamais o permitia uma ligação sem interrupções para lhes falar sobre sua semana. E o que havia para se falar? Nada de especial acontecia em seus dias, sempre a mesma rotina: observar e servir. Trabalhava na recepção de um grande salão de festas e todos os convidados do espaço alugado sentiam sua falta quando não estava lá, “onde está aquele senhor simpático?”, alguns perguntavam, quando dia de sua folga semanal. Era gentil, atencioso, sempre a servir. Ouvia os amigos em tempos de crise e sempre tinha algo para dizer que os ajudasse. Assim era com os estranhos também, atencioso e afável. Notava quando uma convidada estava com alguma dobra vexaminosa no vestido ou com o cabelo desarrumado e avisava, por vezes a oferecer ajuda para consertar aquelas pequenas falhas.

Toda sua vida a servir. Não havia ninguém que o odiasse, ninguém que lhe demonstrasse alguma antipatia, além dele próprio, é claro. Como detestava ele mesmo! Sentia como se tivesse passado a vida a andar com a camisa ao avesso sem ninguém para o avisar o erro, e nenhuma surpresa boa, supersticiosa, a acontecer em detrimento daquele equivoco. Sentia, sentia muito, e era isso que doía, sentir. Aquele sonho quando se acorda na sala de aula desnudo, com todos a apontar e rir, pois era assim que sentia sua vida fluir, como se estivesse a andar nu em locais fechados sem dar-se conta, com todos em volta a rir.

No entanto hoje era seu grande dia, faltava pouco para os quarenta, minutos e segundos a contarem no relógio. Aquele seria diferente, aquele dia seria especial, pois seria seu, decidiu, que pela primeira vez na vida faria o que quisesse, sem dar ouvidos a pitacos e conselhos, ele mesmo fazendo o que tinha vontade de fazer, não sentir.

Jovem, bonito, encantador. Vinte e cinco anos. Numero impar, sinal de azar, pensava. Aquela noite passada havia sido terrível e tudo que queria era dormir, cair em sono profundo e não acordar. Por que afinal, aquela noite passada havia sido tão ruim? Ora, tinha sido uma noitada, bebera com alguns colegas de trabalho e se divertira, como era de costume sentir em situações como aquela. Claro que havia chorado no ombro de um colega, num momento de fragilidade mesclado com embriaguez. Ainda que tenha ouvido dele para não desistir, pra ter força e fé e sorrir apesar de! E não tinha? Não sorria? Ninguém suportaria metade do que já havia passado pela vida. Isso ele sabia de certo, apesar da fome na África, da guerra no oriente médio, dos atentados terroristas que se ouviam no noticiário. Bem sabia que havia gente no mundo em situação pior. Mas o que podia ele fazer por elas? Sempre comer sem deixar sobras? Nunca discutir por bobagens, nem entrar em conflitos sem razão? Agradecer todos os dias por estar vivo e saudável? Não, nada disso apaziguaria corações pelo mundo que sofriam em paralelo ao seu. Só podia fazer algo para si mesmo. Agir para mudar o seu mundo antes de qualquer outro.

No entanto nada parecia surtir efeito, ainda que levasse em conta seu imediatismo irremediável, não conseguia aceitar que pessoas boas continuassem a sofrer pelas mãos das más. E morressem, sempre morria gente boa, as ruins duravam porque, diziam os conformistas, “tinham de ficar para pagar por seus pecados!” e ficavam, porém sem pagar, vagando malévolas por entre as flores, matando com um toque tudo que havia de belo.

Era isso? Viver era esse constante esperar pela justiça divina? Não valia a pena pois. Todo aquele sofrimento, o juízes eram os maus, a condenar seres humanos nobres à prisão perpetua, a perpetuar a dor, a solidão, o isolamento e o caos. Não havia justiça nem no seu mundo nem no dos outros. Vinte cinco anos apenas e ele precisava ter passado por tudo que passou, “para crescer, evoluir”, diziam os esperançosos. Mas para quê? Seriam os bons sempre fadados a virarem mártires? E se virassem, outros bons seguiriam seu exemplo até morrer. Assim iam todos empilhando-se em livros velhos de história, assim também alguns morriam sem uma página dedicada, despercebidos, esquecidos, ignorados.

Finalmente o sono, finalmente o acalmar, o mar de cal das paredes brancas do seu quarto. Não dormiria sem agradecer o quê de bom e pedir para que morresse. Assim o fez, implorando a Deus para que o tirasse desse mundo, pois sabia ele que não era capaz de tirar-se seja como for. Um acidente de carro? Um câncer em estágio final? Um assalto seguido de morte! Qualquer coisa. “Chega, Deus! Por favor, chega!” e suplicava por misericórdia, pois não suportava mais todo o peso nas costas, ter de dar conta de tudo, da família, dos amigos, esperando alguma gratidão, que mesmo quando vinha não lhe servia, afinal. Chega de ser humilhado, de ser julgado por sua forma de amar, de ver sangue e ouvir gritos! “Chega Deus! Por favor, chega!” repetiu.

Arrumou a cama, dobrou os lençóis, dera uma boa olhada em seus livros na estante. Estava tudo perfeito! Finalmente podia ir. Então voltou ao espelho, olhou fixamente seus próprios olhos e sorriu, como bem lembrou de um colega a aconselha-lo a fazer antes de qualquer dia por vir. Assim o fez! Sorriu, e empunhou a arma, que deitada na pia parecia lhe sorrir. Colocou o cano na boca, podia sentir como se a estivesse beijando. Nenhuma lágrima caiu.

O sorriso no rosto, os dentes a tocarem o cano da arma naquela sua expressão torta. 38 (na mão), 39 (anos pouco antes) e 40 enfim… Disparou. Um clarão! Depois escuridão. Todos os cachorros da vizinhança começaram a latir, como em uma festa de gritos e uivos de uma matilha, a vizinhança a acordar com o estrondo e latidas. Ali jazia sentado um homem de quarenta anos, que diferente do que se pensava, não havia desistido, não, havia continuado, com força e fé e a sorrir.

Ainda que na parede se visse o horror, quando a policia chegou, mais parecia uma tela abstrata em vermelho carmesin. Essa era sua arte, seu legado, a despeito de todas a ideias que havia matado naquele ato.

Um clarão vindo do banheiro! Não estava louco, não. Ele vira, foi o que de imediato o fez abrir os olhos e pausar a oração. O rapaz, ainda que assustado, caminhou até o banheiro do seu quarto e não havia nada lá. Além de um cheiro desagradável, como de fumaça no ar. Fechou a porta! Dormiria de luz acesa. “Será esse, meu Deus, o seu sinal para mim?” Perguntou e fechou os olhos, apoiando as costas no travesseiro contra a cabeceira da cama. Talvez vivesse mais a partir dali, daquela luz rápida, daquele cintilar sobrenatural. Ou vivesse até os trinta e nove anos de idade, pensara ele, em seus minutos finais de consciência antes de sonhar, “Trinta e nove… Uma bela idade para se ir” disse quase num sussurro e ali caiu, sentado ainda, a dormir.

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