radia-dor

Liberdade é não fugir da vida ou acabar com ela pra nem ver? Cecília Meireles sabe o quê.

Esfriou. Tudo esfriou, só o amor que não, dos amigos e do coração a bater. Parou de ferver, cessou de borbulhar, mas o metal dilatou, e ficou marcado do lado de cá. Processos químicos, dizem, isso de não querer viver nem se matar. Tão down, bebê, eu sei. E eu já sou todo paroxetina e fenergan e dramin. Um beijo meu e posso por a bela acordada a adormecer forever. Tão brega, tão clichê. Quando você me diz que tudo que eu faço é um espanto, enquanto na replica é só seu amável encanto a me enaltecer. Não sei, realmente mal sei.

E você sabe que eu detesto biografias, odeio as ler. Tenho duas ou três na estante que só Deus sabe como faço pra me desfazer. Que péssima essa minha mania de rimar! Mas estou em conflito, baby. Hoje estou sem saber quem escreve através de mim: Se Cid, se Pessoa, se Stephen, talvez Caio, tem sempre o F., muitas influencias que não sei bem se não parecem copias descaradas. Mas bem, Virginia, e as horas, e o tempo, e o amor, e tudo entre ela e o marido e a irmã e a mão e o filho-poeta-pássaro e a mulher banal. Funerais, vários. Deus meu! Quem sou eu?

Eu me sinto infinito em cada personagem, meus e dela. Mulheres, homens, todos a morrer pelas horas. “Ta tudo pela hora da morte!” dizem os mais velhos na fila do mercadinho, nesses raros momentos em que falam também enquanto estão a dizer. Liberdade é não fugir da vida ou acabar com ela pra nem ver? Cecília Meireles sabe o quê. E lá está Virginia, diante de mim, nada fraquinha, força bruta, mulher de vida, de cores, embora opacas, cores coloridas e água, que diluem e clareiam. Tenho medo dela e meu amor tem medo de eu tê-la conhecido sem querer.

Aquela agonia, aquele olhar cronista de quem enxerga mais no dia e nos casos que quem vê. Aquelas vozes, todas dela, criações, imaginárias não. Aquele desejo suicida, diretamente proporcional ao desejo de vida. Naquele molde, naquela época, naquelas prisões tristíssimas! Como é difícil ser Woolf hoje em dia. Eles nos tratam, nos dopam, nos prendem, nos reduzem a CIDs e quadros. Quadro feios, quadros quadrados, quadros rubros, quadros enquadrados que galeria nenhuma expõe como arte carérrima de comprar! “Cada um no seu quadrado” e como pode um ditado tão estúpido se fazer valer? Oh Deusa, em vida ou morte, dai liberdade as virginias de vir, ir, ver, também ficar! Pois que há luz na janela, há blue no sky e vantagem em distrair-se e largar e ser.

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