Transitória idade

Lição de Dharma, transições e ritos de passagem.

Mandalas and Sacred Geometry em Pinterest, por Etsi.

Me surpreendo quando escuto alguém me dizer que superei minhas tragédias emocionais desse ano que se passou com muita tranquilidade. Ainda que a observação venha de pessoas próximas, que conhecem minha jornada pessoal, é difícil aceitar que nove meses de terapia psicológica, tratamento psiquiátrico, aprofundamento literário e aperfeiçoamento de aptidões pessoais reprimidas, possa ser algo considerado, ainda que minimamente, tranquilo. Preciso reconhecer que realmente tenho facilidade para absorção de conhecimento e isso facilita um pouco as coisas na teoria, mas é a pratica constante sem esforço (no sentido de forçar essa barra que é gostar de qualquer coisa), natural, que tem sido um grande desafio.

Superar o fim de um relacionamento que começou com uma crônica sobre dois poetas soluçando em lágrimas de felicidade, enquanto suas almas se beijavam mais que seus lábios; passar por uma tentativa de me induzir ao coma; mudar de casa, de vida; tomar um novo rumo profissional às cegas após um ano desempregado; abrir meu coração para minha família e largar sonhos e planos pelo caminho, foram, sobretudo, experiências enriquecedoras.

Não é fácil deixar-se fluir pelas sensações, esgotá-las sem supervaloriza-las, sem apego; Olhar para sentimentos ruins com o mesmo olhar de transitória sabedoria com o qual facilmente percebemos os bons; Preferir ser esquecível, não mais, injustamente, buscar no outro a minha felicidade, a minha importância, razão de ser em lugar de estar; Escolher compreender de forma empática ao invés de rejeitar ou aceitar baseado na efemeridade do “gosto” e “não gosto”; Aproveitar o luto como aproveita-se a alegria. Tudo isso, junto porém não misturado (ainda), é árduo de se conquistar na prática, mas não impossível. É quase um racionalizar que não exclui as emoções, um somar sem subtrair, escolhas e renúncias, sem relação de dependência uma das outras.

Você não precisa manter relações por gratidão quando o que passou foi sentido e devidamente valorizado no momento em que ocorreu. Da mesma forma funciona a alimentação da mágoa, do rancor. São sensações que lhe fazem reviver o passado, tempo esse que sequer pode ser revisitado, apenas contemplado. Sem viver o agora é impossível que o futuro chegue, esse momento presente torna-se uma prisão, um estado de alienação, um mundo fechado, parado, onde nada acontece, em que tudo que se vive não se estar vivendo realmente, mas relembrado com olhos nervosos de plena insatisfação.

A piada é engraçada, mas você não pode ser aquela pessoa que puxa o jovem pelo braço e começa um longo discurso com “quando eu cheguei aqui era tudo mato…” para sempre. Uma hora você precisa enxergar as construções que ergueram-se naquele descampado, entendendo que não perdeu-se o valor do passado pelas mudanças do presente. Algo fica, que a tudo sobrevive, o que a isso damos o nome de ‘aprendizado’. Ainda que o exemplo seja dado a um local, a um objeto, é preciso levá-lo para as nossas relações interpessoais. Em um ensaio de 1916 presente em Das Land Goethes (O País de Goethe) sobre a transitoriedade é muito bem colocado que:

(…) O valor de toda beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Estou aprendendo, estou evoluindo. Tentando, disposto. Não sou nenhum guru budista, estou buscando a felicidade genuína no único lugar em que é possível a encontrar: dentro de mim mesmo. É racional perceber que assim como a dor e a tristeza, a alegria também está em nós, sendo ambas igualmente passageiras. E o problema não é a falta de foco, é a ausência de desfoque. Afinal, você não fala que à caminho do trabalho o trânsito estava tranquilo e você não teve qualquer estresse durante o trajeto de ida e volta, toda essa paz você resume em “nada demais aconteceu”, enquanto sempre sai um textão na mesa de jantar sobre o retrovisor que o motoboy lhe arrancou, a fechada que o caminhão te deu, as irritações que seu chefe lhe causou, etc.

O silêncio tem muito a nos ensinar. Passar um tempo consigo mesmo não é se dedicar a fazer o que você gosta, tirar um mês ou ano sabático naquela Euro trip on the road muito de humanas, enchendo suas linhas do tempo de fotos e historias para contar. Isso é muito bom, mas acredite, não é tudo o que você precisa. É preciso refletir, olhar para si mesmo, da melhor maneira e lugar que lhe caiba, e tirar algo a partir daquele momento de solitude. Só é possível ver-se melhor de olhos fechados, sem enxergar nada, tomar consciência de que está consciente apenas.

Seria insensato de minha parte, além de uma completa mentira, se eu lhe dissesse que é ou está sendo fácil, que não há momentos de extrema fragilidade ou de simples fraqueza, porém a certeza é de que esses momentos passam e irão passar por você também. Somos humanos, para todos os efeitos. Mas lendo os textos de Laura Pires, absorvendo os ensinamentos que Gustavo Gitti promove em O Lugar, assistindo as palestras em vídeo de Márcia Baja, conhecendo um pouco das virtude do Lama Padma Santem em Meditando a Vida, investigando a minha psique através do meu anjo Rita Rodrigues, e crescendo em cada conversa com os mais valorosos Amigos e Familiares: dessa forma eu tenho conseguido entender e aceitar melhor as transformações que vem me ocorrendo. E você também o pode fazer, pois temos dentro de cada um de nós a mesma sabedoria, o que nos falta é disposição para buscá-la até finalmente à encontrar.


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