“Kim Jong-il era antes de mais um pai, o pai da nossa família.”

Entrevista a Alejandro Cao de Benos, Delegado Especial
para o Ministério de Relações Culturais da Coreia do Norte. | Parte 1/4

Alejandro Cao de Benos na Assembleia Popular Suprema (o parlamento) da Coreia do Norte

Alejandro Caos de Benos era um adolescente apaixonado pela ideologia socialista e pela cultura oriental, nascido na cidade catalã de Tarragona. Aos 16 anos, apresentou-se numa concentração diplomática de norte-coreanos em Madrid e a combinação das suas paixões intensificou-se. Poucos anos depois, em 1991, viajou pela primeira vez para a Coreia do Norte e o sentimento consolidou-se. Hoje, já com 25 anos de residência e aculturação no Oriente, tem dupla nacionalidade e ocupa uma posição de destaque na relação do país com o mundo, sobretudo com a Europa. Passa seis meses por ano na Coreia do Norte, três em Espanha e outros três em viagens de representação por outras nações. Pela primeira vez concedeu uma entrevista a um português: falou sobre a sua migração para Oriente, a sociedade que o acolheu, a economia norte-coreana, as relações diplomáticas do país e, claro, o conflito com a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

Sei que lhe fazem sempre esta pergunta, mas o exotismo da sua vida (desde um ponto de vista ibérico, europeu ou ocidental) não me permite evitá-la. Como é que o adolescente de Tarragona se transformou no representante de Pyongyang?

Bem, começa mais ou menos aos 16 anos, já com as minhas ideias políticas muito claras. Considerava-me comunista revolucionário e queria mudar o mundo, mudar sobretudo as desigualdades do planeta, onde 80% das pessoas vivem na miséria enquanto o resto acumula todos os bens de produção. E isso leva-me — precisamente num momento de convulsão em que o Socialismo estava a desaparecer do mundo — a procurar possíveis soluções para alcançar a igualdade: encontro-as nos livros do Presidente Kim Il-sung. É através dos seus livros que tenho um primeiro contacto com o país. O interesse converte-se depois em paixão. Crio a Associação de Amizade com a Coreia, na qual envolvo os meus amigos, adolescentes que andavam comigo no liceu. E desde essa época, em que vivia em Granada, na Andaluzia, tudo se vai desenvolvendo, através de várias conferências, exposições e todo o tipo de intercâmbios culturais, até que a 16 de Fevereiro de 2002 recebo o cargo oficial de Delegado Especial para o Ministério de Relações Culturais. Desde então, além de ser presidente da maior Associação de Amizade com a Coreia do mundo, com 17 mil pessoas em 120 países, também ostento essa posição, que me encarrega de estabelecer pontes entre o mundo e a Coreia, e ainda de responder a dezenas de órgãos de comunicação.

O senhor tem origens aristocráticas. Como aceitou a sua família uma mudança tão radical?

Até ao meu avô paterno, a vida de classe alta ainda se conservava, mas acabou a partir do meu pai. Por diversas razões, o meu avô afundou-se em problemas económicos, arruinou-se e vendeu as propriedades da família. Podemos dizer que o meu pai já viveu como uma pessoa normal, como um trabalhador. Era analista químico e a minha mãe trabalhava como secretária de direcção. Ambos tiveram posições de trabalho, uma vida de classe média em Espanha. Conservámos o apelido e a linhagem dos Barões de Les, dos Marqueses de Rosalmonte e dos Condes de Arjelejo, mas tudo o que lhes estava associado — os castelos, as terras e as propriedades — já era passado, por isso fui criado numa família normal. Ao princípio, os meus pais ficaram preocupados, porque desconheciam o que era a Coreia e havia muito má informação. Mas com o tempo, e à medida que foram conhecendo, deram-me o seu total apoio.

E como chegou ao Comunismo? O que mais o influenciou?

O que me influenciou foi ver as desigualdades do mundo, apesar de a mim não me faltar o necessário para viver: um tecto, comida, educação básica… Sabia no entanto que no mundo há milhões de pessoas que sofrem e morrem por não terem acesso a água ou a alimentação, que praticamente vivem sem direitos, e queria lutar contra isso. Para lutar, para mudar o mundo, há basicamente duas opções: podemo-nos tornar voluntários da Cruz Vermelha Internacional ou de alguma ONG, para ajudar temporariamente numa catástrofe, ou podemos tentar mudar o problema desde a raíz. Ao perceber que o problema vem do egoísmo do ser humano, do individualismo e da ânsia pela acumulação de riqueza, e depois de ler Marx, Engels, Lénine e Estaline, cheguei à conclusão de que a única via era a revolução socialista. Via que me leva a querer travar essa luta em todo o mundo, mas, primeiro, claro, ao lado dos meus companheiros coreanos, que já estavam a construir esse projecto.

Então quando partiu para Oriente sentia-se marxista-leninista e só mais tarde chegou ao Juche [ideologia norte-coreana].

Exacto. Primeiro fui marxista-leninista e, pouco a pouco, conforme fui conhecendo as teorias e os ensinamentos da ideia Juche, tornei-me kim-il-sunguista e kim-jong-ilista.

Pode falar um pouco das diferenças entre o Juche e outras ideologias de origem comunista?

Além de ter um conceito nacionalista muito mais marcado, com o amor pela nação e o objetivo de desenvolvimento de forma auto-suficiente — há uma grande ênfase na auto-suficiência — , tem elementos espirituais e filosóficos muito interessantes, que resultam da influência do Chonduísmo e do Budismo na cultura coreana. Por exemplo, o respeito pelos idosos, ou a conservação de tradições que aos olhos do Marxismo seriam vistas como “velha ideologia” (porque pertenceriam ao passado e teriam sido sido eliminadas), estão muito presentes na Coreia. Ainda existem festividades tradicionais centenárias e inclusive pessoas que rezam à lua pelo bem-estar das suas famílias. Há crenças próprias da época de colheitas e há quem ponha um lenço com um tigre perto da porta porque isso afasta a má sorte. Eu acho isso belo, forma parte da identidade da nação e é um dos aspectos que, por exemplo, a diferencia do que seria o materialismo dialéctico mais tradicional.

Voltemos ao seu cargo. Disse que está em funções desde 2002. Há mais gente com origens externas a trabalhar para o governo norte-coreano ou o senhor é caso único?

Não, sou o primeiro e o único na História, até agora.

Quem são os seus superiores hierárquicos?

O meu superior directo é a nossa ministra Kim Jong-suk, que também pertence à Assembleia Popular Suprema (o parlamento do país) e que reporta directamente ao Gabinete de Ministros da República.

Apesar de desempenhar um cargo tão importante, não conhece directamente Kim Jong-un, certo?

Não. Já tive a possibilidade de o cumprimentar e de o acompanhar em várias cerimónias de Estado, mas ainda não tive a oportunidade de conversar com ele. Com o nosso presidente e vice-presidente sim, já o fiz em várias ocasiões, mas com o nosso líder, o Comandante Supremo do Exército, ainda não.

O parlamento da Coreia do Norte, neste momento liderado por Kim Yong-nam, é formado por 687 deputados eleitos pelo povo.

Correcto.

Os poderes destes deputados são semelhantes aos dos membros de um parlamento de estilo europeu?

Muito similares, são eles quem nomeia desde o responsável pela finanças do país até ao presidente do parlamento. Bem, na verdade, até têm mais poderes, porque por exemplo noutros lugares, como em Espanha, o Chefe das Forças Armadas não é escolhido pelo Parlamento. O Rei é o Chefe das Forças Armadas graças à sua posição, por herança. Na Coreia, o nosso líder, o Comandante Supremo do Exército e Presidente da Comissão dos Assuntos Estatais, tem de ser eleito — e sua eleição mais tarde renovada — por esse mesmo parlamento.

Entre esses deputados, 600 são do Partido do Trabalho, 50 do Partido Social-Democrata, 22 do Partido Chon- doísta e oito são independentes. Cada uma destas forças políticas escolhe livremente os seus candidatos?

Os candidatos são escolhidos por apoio popular, ou seja, cada partido escolhe os candidatos dependendo do número de assinaturas recolhidas entre a população. Qualquer pessoa com mais de 17 anos pode apresentar-se à Assembleia Popular Suprema e depois tem de angariar assinaturas para a sua candidatura, registadas com o número de identidade de cada um dos cidadãos que o apoiam. A pessoa que tiver mais assinaturas ficará no primeiro lugar da lista do seu partido.

Mas há mais partidos na RPDC?

Não, há apenas esses três: o Partido do Trabalho, Partido Social-Democrata e o Partido Chondoísta.

As eleições para o parlamento costumam ter observadores internacionais?

Sim, e além dos observadores internacionais normalmente também está presente todo o pessoal das embaixadas que se encontram na Coreia.

Como disse, é o parlamento que a cada cinco anos escolhe o Comandante Supremo do Exército. Mas a escolha de Kim Jong-un, actualmente no cargo, também foi indicada pelo seu pai, Kim Jong-il…

Não, o que o nosso líder Kim Jong-il fez, antes de falecer, foi pedir que déssemos apoio ao agora marechal Kim Jong-un. Que lhe déssemos apoio para que continuasse a nossa construção socialista. Essa foi a sua última mensagem para nós, os que acreditávamos nele e que lutávamos junto a ele. Mas depois o parlamento teria de votar em quem considerasse necessário e, neste caso, votou de forma unânime em Kim Jong-un.

Mas teria sido assim se Kim Jong-il tivesse recomendado outro dos seus filhos, ou outra pessoa? Isto é, há algum poder vinculativo na sua recomendação?

Não, não, mas o que acontece é que todo a gente gosta, ama, a Kim Jong-il. Se uma pessoa tem respeito pelo seu pai e recebe dele uma recomendação, o normal — repito, o normal — é que siga o que ele lhe recomenda, não? É uma questão de relação familiar, de afecto. Ora, é exactamente isso que acontece na Coreia. Para nós, o líder Kim Jong-il era antes de mais um pai, o pai da nossa família. A nossa relação era de família e não uma relação entre uma parte superior e outra inferior.

Esse tipo de sucessão familiar no cargo é mais típico de regimes monárquicos do que de repúblicas socialistas. Não é uma contradição?

Não, porque nos casos dos nossos presidentes Kim Il-sung e Kim Jong-il são bem evidentes as lutas e as vitórias que conquistaram contra os diferentes impérios — o japonês e o norte-americano — e na reconstrução da nação. Já o nosso líder actual, Kim Jong-un, não tinha vitórias prévias na guerra, mas existia a possibilidade de surgir alguém que por exemplo quisesse dar um golpe de Estado ou criar problemas, como acabou por acontecer com o general Jang Song-thaek. Ora, precisamente para evitar que alguém usasse esse vazio na liderança, o nosso líder Kim Jong-il solicitou o apoio a Kim Jong-un, que desde pequeno tinha sido preparado e educado por ele. O filho tinha-o acompanhado durante todo o seu trabalho nas linhas de combate e em visitas ao exército ou à indústria. E ele sabia que o nosso parlamento dava apoio a Kim Jong-un e que ninguém se poderia aproveitar de forma oportunista. Mais tarde, foi mesmo desvendada a intenção de Jang Song-thaek dar um golpe de Estado, e o general acabou por ser executado.

Portanto, a pena de morte existe na Coreia do Norte. Em que casos é aplicada e quem a decreta?

Aplica-se em casos extremos de terrorismo, assassinato ou golpe de estado. É decretada por um juiz.

Além de comandar o exército e de ser o líder político, quais são os poderes efectivos de Kim Jong-un? Intervém em domínios económicos ou jurídicos?

Não. Tem o poder máximo a nível militar, porque foi nomeado pela Assembleia como Comandante Supremo, e tem o máximo cargo político dentro do Partido do Trabalho da Coreia, que é o maioritário. O Secretário-Geral Eterno do partido é Kim Jong-il, a quem foi dada essa posição honorária, e Kim Jong-un é o actual presidente. Essas são as suas posições oficiais: chefe da Comissão de Assuntos Estatais (que basicamente é o que em Espanha [e em Portugal] se chama de Estado-Maior) e é o líder do seu partido.

Por outro lado, como a posição de Presidente da República foi atribuída honorariamente a Kim Il-sung, tem de haver alguém que exerça as suas funções. Estão a cargo do Presidente da Assembleia, Kim Yong-nam, com quem, como disse, me relaciono frequentemente.

[Continua]