La La Land, Donald Trump e a simbologia política de um Oscar.

No dia 26 de Fevereiro de 2017, um domingo, e um dia depois desse texto estar sendo escrito ocorrerá a 89ª Cerimônia de Entrega dos Prêmios da Academia de Cinema e Artes, ou como são comumente conhecidos, o Oscar de 2017. E a menos que alguma coisa muito bizarra aconteça entre hoje e amanhã, todo mundo espera que o filme vencedor seja o filme La La Land.

Edit: Aconteceu de fato, e devo dizer que foi bem bizarro a maneira como aconteceu.

Um filme bonito e nostálgico sobre essas pessoas chamadas Emma Stone e Ryan Gosling (acho que os personagens deles tem nome… mas quem liga?) que se apaixonam em um musical que homenageia a era de ouro dos musicais clássicos dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que o filme e o romance deles tenta homenagear um estilo que no cínico ano de 2016 perdeu sua popularidade e seu apelo, os dois protagonistas também são artistas e a arte deles também resgata um formato que não tem mais mercado no presente, apesar de serem a paixão dos personagens. Então eles estão tentando fazer sua arte bonita e nostálgica ser reconhecida no mercado de 2016 ao mesmo tempo que são parte de uma peça de arte bonita e nostálgica que está tentando ser reconhecida em 2016. Bem meta e nostálgico. E o excesso de nostalgia das homenagens que as cenas fazem a filmes antigos somada com citações verbais do poder que tem os filmes da chamada “Era de Ouro de Hollywood”, com citações diretas à beleza e poder de Casablanca ou do James Dean. Isso se soma a homenagens a filmes recentes também, dando pra ver filmes de todas as épocas em La La Land, mas o foco principal está nos musicais das décadas de 1950 e 1960.

O que explica o amor que a crítica e a academia estão tendo por esse filme. Cinco anos atrás, O Artista, foi uma carta de amor aos filmes mudos de Hollywood completo com metalinguagem sobre como a indústria funcionava por dentro foi muito premiado e elogiado (mas não chegou no recorde de 14 indicações), muito embora tenham se passado somente meses após a cerimônia para todo mundo parar de falar do filme, que precisou de apenas cinco anos pra murchar com o hype e não sobreviver ao teste do tempo e mal ser comentado hoje em dia.

Enfim, nostalgia é bom, e nostalgia pelo passado glorioso que foi Hollywood é melhor ainda. Humphrey Bogart, Marilyn Monroe, Kirk Douglas, esses eram os bons filmes, hoje em dia não se faz mais coisa como aquilo, hoje em dia virou só explosões e efeitos especiais, mas ali sim estava a gloria. Como balconista de uma vídeolocadora eu lhes garanto que ouvia esse discurso todos os dias sobre como os filmes recentes são lixo e os filmes do passado eternos e belos.

Enfim. La La Land foi o segundo evento que mais incitou nostalgia no povo americano em 2016, que mais resgatou paixão por uma época que não existe mais e um desejo de resgatarmos a glória de nosso passado. O terceiro evento que mais incitou nostalgia no povo eu chutaria que foi o lançamento de Pokemon Go, mas o primeiro infelizmente não foi uma história de ficção, foi a eleição de Donald Trump. Quero falar um pouco sobre essa eleição que chamou muito a atenção no ano de 2016.

Vamos recapitular um pouco sobre esse que se tornou o homem mais poderoso do Ocidente. Ele é um empresário e um dos homens mais ricos do mundo, que nos anos 1990 se tornou uma figura pública popular devido ao seu carisma e sucesso financeiro. Ele fez cameos em séries como Um Maluco no Pedaço, e em filmes como Esqueceram de Mim 2 e Os Batutinhas. Sua figura como símbolo da cultura pop americana era associada muito a ser um cara irritado, agressivo e bilionário. Ela era parodiado desde sátiras da sociedade como os Simpsons (que pela zoeira previram um futuro onde ele seria presidente só pra explicitar o quão ridículo era o futuro) até um programa educativo pré-escolar como Vila Sésamo.

Essa exposição midíatica grande nos anos 1990 meramente por ser uma grande caricatura de um empresário de sucesso sendo babaca, permitiu que ele elaborasse ainda mais essa caricatura nos anos 2000, onde seu status como figura da cultura pop ficou mais forte ainda quando ele protagozinou o Reality Show O Aprendiz., mas nada se compara ao que aconteceu em 2016, quando ele decidiu, que ele podia ser o 45º presidente dos Estados Unidos mesmo sem experiência política nenhuma, e mesmo com 90% das figuras públicas dos EUA ressaltando como ele seria um péssimo presidente e que sua candidatura não podia ser encarada como nada além de uma piada de mal gosto, ele ganhou, surpreendendo a todos que acharam que isso não seria possível. O que gerou um grande mistério sobre os quais analistas políticos estadunidenses, sociológos e historiadores vão debater e defender teses por anos a seguir que é “Como é que Donald Trump ganhou?” e a resposta pode ser definida entre vários fatores, entre os quais quero incluir e destacar um. Ele é nostálgico.

Sim, a eleição de Trump foi um grande revival da eleição do Reagan. Um revival claro tão explicito quanto o que foi terem feito um novo Caça-Fantasmas e resolvido começar uma nova trilogia de Star Wars, Ronald Reagan, foi uma grande marca do que foi os anos 1980 nos Estados Unidos. E eu quero parabenizar que quem matou essa charada pra mim que foram Trey Parker e Matt Stone, os criadores de South Park.

Logo no primeiro episódio de sua 20ª temporada, South Park lançou uma comparação direta, entre nosso desejo de ver remakes e nosso desejo de retroceder politicamente, através de umas frutinhas falantes chamadas member berries. Ao longo da temporada, essas uvas com rostos vão se tornando as frutas mais populares do país, pois enquanto são comidas elas suspiram lembranças felizes de “lembram do Chewbacca?” ou “lembram dos Goonies? Ah, eu lembro dos Goonies.” ou ainda “Lembram do Robocop?” “Lembram do Homem-Biônico.” sim, os filmes clássicos dos anos 80, que nós amamos tanto que nos anos de 2010 eles não param de sair no cinema em remakes e continuações. Mas no meio dessas memórias, as frutinhas soltam lembranças igualmente felizes e reconfortantes (pra elas) que envolvem o mundo real e não o ficcional como “lembram quando não tinham tantos mexicanos?” “lembram quando casamento era só entre homem e mulher?” “lembram quando nos sentíamos seguros.” e principalmente “lembram do Reagan?”. Pois bem, a temporada conclui que as member berries estão incitando um sentimento de nostalgia profundo no povo americano que vai terminar no povo elegendo o Trump (que na série é uma parodia do Trump chamada Sr. Garrison), por ter um apego muito grande de voltar ao passado onde o mundo era melhor.

Agora vamos falar sobre o Reagan… eu já vou voltar pra La La Land, calma, isso tudo voltará ao começo. E a eleição que o Trump replicou. Reagan antes de ser o presidente dos Estados Unidos era um ator, tendo contracenado com gigantes da Era de Ouro de Hollywood como Humphrey Bogart e Bette Davis e que nos anos 1960 resolveu entrar pra política, primeiro como governador e então em 1980 tentou a presidência. A base de sua campanha e de suas promessas eleitorais foi a de crítica ao governo e a proposta do estado-mínimo. Ele soava como um crítico a toda a classe política, que quer manter o governo forte e drenar o povo com seus impostos. Ele defendia uma redução radical nos impostos e no papel do governo, o foi um apelo popular entre as camadas conservadoras dos EUA. E seu slogan era “Let’s Make America Great Again.” (Vamos fazer os EUA serem ótimos novamente.)

Reagan assumiu em janeiro de 1981 e ficou no cargo até janeiro de 1989, depois disso, impedido de tentar uma terceira eleição, ele foi sucedido pelo seu vice-presidente, George H. W. Bush, que baseou boa parte de sua campanha no carisma de Reagan, e teve uma quantidade de votos significantemente menor que a de Reagan pelo mero fato de que não era o Reagan. Enfim, Reagan era um reacionário da porra, e todos os democratas até hoje lembram dele como uma das piores coisas que já aconteceu na política dos EUA, mas os republicanos adoravam ele, e ainda adoram.

Hank Hill personagem republicano mais famoso da animação, sente saudades de votar no Reagan.
“Jesus era negro. Ronald Reagan era o demônio e o governo mentiu sobre o 11 de setembro.” As três informações que o jovem Huey Freeman acreditava serem o suficiente pra desestabilizar toda a comunidade branca em uma festa na série The Boondocks

E assim o Reagan se tornou a grande referência do que é o republicano. Tudo o que um republicano gosta no partido ele via no Reagan, e tudo o que um democrata odeia no partido ele também via no Reagan. O fato do Will odiar a política de Reagan enquanto o Tio Phill votou nele em Um Maluco no Pedaço resume muito claramente o quão distante os personagens estão ideologicamente. E mais do que isso, ele se tornou o rosto do que foram os Estados Unidos década de 1980. O que é curioso em uma década que hoje é tão lembrada pela sua cultura pop.

Em 1984, estreou Os Caça-Fantasmas, um filme sobre três amigos que montam seu próprio negócio do zero, eles fazem um monte de empréstimos, divulgam eles mesmos, fazem o próprio equipamento e são um sucesso, eles são bons no que fazem, então são muito contratados e a lógica do livre-mercado funciona perfeitamente. Até que um dia o governo vem querer regulamentar um negócio do qual não entendia e acaba colocando o mundo em perigo, cabendo somente aos donos da empresa salvar o mundo. O filme não foi planejado para ser qualquer analogia ao governo Reagan, mas ele estreou durante a campanha de reeleição dele, e mesmo seu co-roteirista, Dan Aykroyd tendo uma postura política oposta ao conservadorismo, Os Caça-Fantasmas acabaram sendo um filme de seu tempo. Um filme que vilaniza o governo por interferir no livre-mercado, aonde se sustenta o futuro do país. Em De Volta pro Futuro, Marty demarca que ele vem da década de 1980 falando para Doc Brown que no futuro o presidente será Ronald Reagan, Doc não acredita que um ator será eleito presidente. Stephen King em um livro de viagem no tempo escrito na década de 1980 também faz exatamente a mesma piada.

“Seymour. Nós não damos crédito pra absurdos cobrindo eles. Ainda somos os Estados Unidos. Quem vai querer colocar um ator de faroeste da Casa Branca?

Em Watchmen, uma desconstrução dos Super-Heróis ambientada nos anos 1980, se passa em uma terra alternativa onde Nixon foi reeleito duas vezes, nunca sendo pego em watergate, e portanto governando no lugar de Reagan que não se tornou político nesse quadrinho. Ao final um comentário ácido é feito em que um jornalista comenta que o ator Robert Redford vai concorrer a presidência, e o chefe do jornal responde que o país ainda não caiu tão baixo a ponto de por um ator na Casa Branca.

Enfim, Reagan deixou seu vice em seu lugar quando saiu. E esse vice conseguiu por seu filho na Casa Branca anos depois, mas ele foi sucedido por Barrack Obama. Muitos analistas políticos dos EUA demarcaram que uma das grandes revoluções da eleição do Obama, ofuscada pelo fato dele ser o primeiro presidente negro, é que ele ao contrário de Clinton e Bush discursava contra a política de Reagan e que sua vitória demarcava o fim do que seria a “Era Reagan” que não havia acabado após ele sair da Casa Branca. Obama veio com ideias de dar saúde gratuita ao povo, e investimentos sociais que eram o oposto do que Reagan pregou, e nem os Bush nem o Clinton fez nada pra desestabilizar, e então Obama se tornou uma das pessoas mais odiadas pelos Republicanos, mais do que qualquer Clinton jamais foi.

E aí veio 2016, em que na campanha de sucessão do Obama, outra celebridade migra da televisão para a política, com um carisma absurdo graças a sua habilidade de ser engraçado enquanto fala as maiores atrocidades do mundo. E pega o exato mesmo Slogan do Reagan. E bem, os 8 anos de Obama coincidiram com o auge da Era do Reboot em Hollywood, em que nossa cultura pop começou a tentar reviver os clássicos dos anos 80 de volta, com remakes, e reboots, e rewathevers. O Exterminador do Futuro voltou. Os Caça-Fantasmas voltaram. Star Wars voltou. O Robocop voltou. Mad Max voltou. E uma das maiores séries de 2016 consistiu em um grande retorno estético e narrativo aos filmes de aventura/terror dos anos 1980, que foi Stranger Things.

E foi aí que South Park disse. “Quem quer tanto assim que os anos 80 voltem, também quer que o Reagan volte, e muitas vezes não percebe que quer isso, e isso explica o Trump.” E devo dizer, que eu concordo. A Era Reagan foi terrível para os negros, e terrível para os gays. Foi a época em que a guerra as drogas aumentou a perseguição e o encarceramento injustificado de negros usando o consumo de crack como pretexto para perseguição de negros, enquanto ignorava a cocaína que era a droga dos brancos. Além disso as políticas negligentes de Reagan quanto a AIDS foram especialmente responsáveis em transformar a doença em uma pandemia ao nível em que ela chegou. A última coisa que um gay, um negro, ou um membro de qualquer minoria quer no governo é um novo Reagan… mas por coincidência são justamente essas minorias que estão estragando a sagrada década de 1980.

Ah, não. Lembram quando os filmes clássicos não tinham que ficar dando espaço pras pautas esquerdistas? Ah esses eram os bons tempos. Lá no passado que era bom.

O entretenimento atual está sendo arruinado por minorias. Bom mesmo eram os filmes do passado, onde os Social Justice Warriors não obrigavam os filmes a terem negros. Não tinha vitimismo nem mimimi e todo mundo podia só curtir os filmes. Os filmes atuais estão virando um terreno fértil pros esquerdopatas. Lembram? Lembram como no passado era bom?

Agora querem minorias na cerimônia do Oscar. Minorias nos blockbusters. Minorias como presidentes. Não, não, não. Tá tudo errado, alguém precisa fazer os EUA serem ótimos novamente.

E aí quando se nota: o Trump é o presidente. Claro que esse resgate ao passado romantizado não é o único fator que elegeu o Trump. O combate à classe política e o fato dele não se ver ou se portar como um político, lembra o próprio discurso anti-governo do Reagan, entre outros fatores. Mas o ponto é: Trump está na presidência para nos trazer a glória do passado, e sua eleição foi certamente o maior evento nostálgico de 2016.

… ah é, eu tava falando de La La Land né? O segundo evento mais nostálgico do ano. Pois é, perdão divagar demais no assunto do Trump, eu me empolgo.

Mas La La Land. Um filme que como diversos outros resgata a excelência e a nostalgia de uma época em que filmes não tinham a necessidade de ser políticos. Não tinha essa demanda de inclusão de filmes. Tínhamos música e romance e um casal lindo que os EUA adore. E isso era o suficiente pro povo adorar. E no caso de La La Land temos o casal que está cada vez mais se moldando pra ser o casal favorito de Hollywood.

E a minha pergunta é uma só. Sendo o Oscar uma cerimônia política. Onde premiados vão ao pódio comentar sobre o presidente regularmente. Onde prêmios muitas vezes são escolhidos com viés político. E onde a primeira-dama já foi chamada ao palco para entregar o prêmio de melhor filme. Sendo uma cerimônia que não pode fingir que está alheia ao cenário político americano. O timing está bom para dizermos que o auge cinematográfico do ano está em um grande surto de nostalgia que recupera a gloria dos filmes do passado?

Um filme que critique como as demandas artísticas atuais estão acabando com o romantismo da arte do passado devia ser o filme central de uma época em que o grande assunto é se devemos boicotar filmes machistas ou se devemos boicotar filmes feministas?

Devíamos fazer Hollywood ser ótima de novo? Trazer de volta tudo o que ficou nos anos 60? Aquela época em que o mundo estava tratando as minorias tããão bem, que três dos documentários indicados pra Melhor Documentário esse ano estão retratando as brutalidades ocorridas contra os negros nessa época, mas que por outro lado tinha a Doris Day?

Um desses documentários inclusive intercala essa violência com os musicais inocentes de jovens apaixonados, para contrastar a realidade inocente, romantizada e branca que hollywood construía e que não refletia em nada a vida violenta e sofrida que o negro vivia, e por isso tinha dificuldade de afetar o público negro da mesma forma que o público branco. Isso citando um texto que criticava esses filmes que foi escrito por um homem que viveu essa época (embora tenha escrito isso tudo só nos anos 80). Então qual é o perfil de pessoa que genuinamente que voltar pra essa época?

Não acho que La La Land seja um filme pró-Trump, e acho que o diretor já se pronunciou como anti-Trump. Nem acho que nostalgia quanto ao passado tenha sempre conotações negativas, inclusive acho que muitas vezes queremos filmes escapistas para escapar para o passado com medo de lidar com o horror do presente. Mas e quando o maior horror do presente é o fato de estarmos fazendo um retorno ao passado? A nostalgia serve de escapismo nessas horas?

Os filmes entram para a história como retratos de seu tempo e frutos de seu contexto. E nessas horas eles podem reforçar ou criticar o momento histórico em que foram lançados. Ghostbusters tinha escritores não-republicanos, e era só uma aventura sobre caçar fantasmas, mas trinta anos depois o teste do tempo mostra a importância do filme em corroborar com a visão de mundo e de economia que Reagan estava lançando. E se nos livros de história do cinema o que vai entrar é que La La Land foi o filme que mais dialogou com o povo estadunidense nos EUA pós-eleição-do-Trump, então devemos nos perguntar o porquê. Se a Hillary tivesse ganhado esse filme falaria tanto com os estadunidenses? Esse é um ano em que queremos que o apego ao passado seja o sentimento mais importante?

Mais importante: Aconteceu algo relevante na política americana esse ano? E caso tenha acontecido, a Academia de Cinema e de Artes, como os detentores do alto poder simbólico que eles têm, tem alguma mensagem ao presidente?

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