Mais do que uma lenda

A essa altura, tudo que poderia ter sido escrito sobre Muhammad Ali já foi dito. Este, então, é um exercício desnecessário. Mas houve algo que me incomodou logo que soube, na madrugada de sexta para sábado, da sua morte: a expressão “lenda do boxe” para explicar quem foi aquele cidadão.

Altivo

Tratar Ali como uma lenda do boxe é reduzir demais o que ele representou durante os 74 anos em que a humanidade teve o privilégio de contar com a sua presença no universo. Talvez, para outras pessoas, ter sido o maior atleta possível de um dos esportes mais populares do mundo seja o ápice. Mas não para Muhammad. Não há comparação.

Os pares de Ali são aquelas e aqueles que mudaram o mundo. Ele não se compara a Pelé, Maradona, Ayrton Senna, Michael Schumacher, Michael Phelps ou Usain Bolt — o que seria gigante. Seus colegas de turma foram Rosa Parks, Nelson Mandela, Malcolm X, Martin Luther King Jr., Lech Walesa, Albert Einstein. Gente que está nos livros de história.

O que de melhor a humanidade já conseguiu

Ao contrário dos maiores atletas de todos os tempos, Ali não foi um esportista que usou a sua fama para buscar mudanças. Ele foi um ativista que teve, no boxe, o espaço para aparecer. Demonstrou desde o início sua altivez, sua independência, sua beleza e sua petulância, e tudo isso em um tempo em que negros só poderiam ser bonzinhos submissos ou bandidos também submissos. Estes papéis não serviam a ele. E Ali fez questão de deixar isso bem claro, para choque de uma América racista até a medula.

A sua decisão, consciente — e honesta, pois não ensaiada— de não aceitar o massacre da Guerra do Vietnã não produziu apenas algumas das frases mais belas da história dos movimentos pacifistas. Foi, acima de tudo, uma forma de mostrar que ninguém tomava decisões por ele. Uma prova de independência que custou caro, um valor que nenhum dos atletas citados como os maiores dos seus esportes aceitaria pagar.

Pois Muhammad pagou. Pagou, recebeu tudo de volta com juros na forma de amor e idolatria de todo o mundo e ainda voltou aos ringues para mostrar que era, além de um dos maiores ativistas de todos os tempos, o melhor atleta que já houve. Não é pouca coisa.

A vida de Ali, registrada por câmeras, vídeos e textos desde que surgiu e decidiu chocar o mundo em 1964, não foi cheia de virtudes. Bem pelo contrário. Ele foi, principalmente, humano. Demasiado humano. E, por isso, foi o melhor humano que o ocidente já viu.

(E produziu as melhores fotos que o esporte já teve também. Ainda isso!)

Neil Leifer, outro gênio: Ali nocauteia Clevelan Williams em 1966

Bomaye, Ali.

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