CARNAVAL E DESAPEGO

Eu caminhava rápido pela Rua dos Andrades. O sol já ardia na pele quando eu e uma legião abelhinhas, princesas, minions, policiais, mulheres maravilha, bat girls, palhaços e joaninhas rumavam na mesma procissão rumo ao Largo de São Francisco de Paula. Haveria um bloquinho de rua ali e eu já quase podia sentir o cheiro do carnaval.

Quando atravessei a rua, a um quarteirão da praça, uma van promocional estacionou e parte dos fantasiados se dirigiu para receber os brindes que eles estavam distribuindo. Era bem natural, pessoas gostam de coisas grátis mesmo que não saibam o que é ou para que serve. Um jogo de copos foi colocado na minha mão. Olhei para os copos e pensei “vou perder essa merda!”. Gosto de ter as mãos livres. Acho que essa seja uma das melhores explicações do por quê as pessoas perdem tantos guarda chuvas: Ninguém gosta de carregar o que não é útil no momento. Coloquei os copos no bolso lateral da minha bermuda e segui para o bloco.

O lugar estava apinhado de gente, e a cada minuto mais e mais companhias inteiras de índios, anjinhos, diabinhos e descamisados chegavam. Aquilo era o carnaval: Sol ardendo na cabeça, cerveja sendo gritada a “três por dez” e gente suando glitter por todo lados. As pessoas suam glitter no carnaval do Rio… Eu não sei o que eles põem na água nesse período.

Aproximei-me de uma barraquinha de um ambulante e já querendo logo iniciar a técnica milenar do “água-xixi”, que consiste basicamente de encher a bexiga d’água, fazer xixi, e ai sim começar a beber. Qualquer um sabe que é uma ida sem volta ir ao banheiro a primeira vez depois que se começa a beber. Você vai ao banheiro toda hora.

Uma senhora que se abrigava do sol no sombreiro do ambulante repara meus copos e pergunta aonde os comprei. Eu digo que os ganhei no inicio da rua. Você quer?Eu pergunto. Nunca vi alguém ficar tão feliz com copos promocionais. Fiquei feliz também.

Sigo para a missão de encontrar o banheiro, depois de já ter bebido a garrafa d’água. A palavra foi bem usada: Missão. Era um corredor maciço de pessoas suadas que eu teria que enfrentar para conseguir me aproximar da fila de banheiro químicos. Faço dez polichinelos (O bom do carnaval é que você pode fazer qualquer bizarrice e usar qualquer coisa que der na cabeça que todos acharam “normal”) tomo fôlego e parto para aquela parede viva pulsante.

Quando me aproximo do que seria a divisa da parede humana, um ambulante me para e me pergunta se pode ficar com meu chapéu. Sem pensar duas vezes, tiro o chapéu azul da minha cabeça e entrego a ele. Tenho um bom carnaval, meu amigo! Ele agradece e retribui os votos.

Então comecei a me esgueirar pelo meio do povo. Existia uma espécie de fila indiana que seguia serpenteando tentando se infiltrar pelos foliões. Eu os acompanhava. Eles seguiam, depois paravam. Depois pessoas viam no sentido contrário. Os braços mal desgrudavam do corpo.

E assim seguíamos por uns quinze metros, mas que demorou pelo menos uma meia hora, para chegar mais próximo do outro lado. Para eu conseguir enxergar meus pés, e para eu encontrar um conhecido parado junto ao muro de uma casa. Consegui me desvencilhar da multidão e me aproximei dele.

A conversa não durou muito, não podia perder o foco da missão. Tinha que chegar ao banheiro. Vamos tirar uma foto? Lógico. Mas quando coloco a mão no bolso… Nada.

Ele tentou ligar para o número. Desligado. Aquela hora meu celular já estaria sendo desmontado e enviado em partes para algum negociante clandestino. Já era. Culpei-me. Dei mole. Era para ter colocado na cueca. No sapato. Como sou burro… Calma ai, burro? Mas por que? Burro é quem acredita que será feliz tomando aquilo que não lhe pertence. Era só um pedaço de metal. Eu continuo inteiro.

Completei a missão do “água-xixi” e comprei minha primeira cerveja. Respirei fundo e pensei: Hoje foi o dia do desapego, entreguei um chapeuzinho azul, copos de plástico e um celular.