Do assédio à putaria da putaria ao assédio

William Blake. Nabucodonosor.

O assédio machista, a cantada fora de hora, o tom vulgar de um flerte e a piadinha infame sobre mulheres são alguns dos problemas ocultos e diluídos nas relações diárias de trabalho. O fato é que não se cria uma civilização presumindo que o homem é bom, demasiadamente bom e a cultura machista que corrompe. Rousseau estava completamente errado.

Quando conservadores — os sérios e, nesse caso, os caricatos — falam em direito de defesa, a esquerda torce o nariz. No entanto, quer condição mais importante do que ensinar mulheres a se defenderem de machistas tarados? Não há. A relação homem e mulher na história sempre foi problemática justamente pela ameaça contra as mulheres. A “rua”, o “trabalho” e a “guerra” eram ambientes hostis e sujos. A casa, pelo contrário, o lugar sagrado e supostamente protegido. Isso é passado. Hoje todos coexistem em espaços não mais diferenciados. Mudou-se os espaços e a coexistência, mas não mudaram as ameaças. O humano permanece o mesmo.

Alguma coisa de correta há no politicamente correto. Chamar atenção para a hostilidade machista dos homens, talvez. O problema é que o politicamente correto parece que descobriu ontem que o homem é um ser canalha e miserável. Eu não desrespeito as mulheres porque me sinto pressionado pelo politicamente correto, não desrespeito porque acho coisa de gente troglodita, gente bárbara, porca e nojenta. É com banho de civilização (bom senso) que se construirá o respeito necessário para a coexistência pacífica e não com textão na internet exorcizando os demônios da cultura.


Para completar, Gustavo Nogy escreveu em sua página de Facebook:

Essa história do José Mayer é muito elucidativa. Vocês sabem: ator da Globo assediou figurinista, figurinista denunciou e a casa caiu. E agora, José? Globo emitiu nota, atrizes protestaram, carnaval em Salvador, garanhão pediu desculpas por meio de carta pública. José Mayer é aquele sujeito que mulher nenhuma consideraria galã se não fosse ator da Globo. Virou ator, ficou bonito. Nos bastidores, quis conhecer biblicamente a figurinista. A figurinista, que não é religiosa, não quis conhecer biblicamente o tipo.

Há quem garanta que é o jeitão dele mesmo, que não se trata de assédio de verdade, ele brinca com todo mundo. Não sei, não quero ter Mayer no meu cangote para tirar a prova.

Mas o engraçado disso tudo, para além dos arreganhos justiceiros a que já estamos acostumados, é que José Mayer, que tem mulher e filha, disse que sim, errou, que “tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são”.

Vejam só como o tiro ideológico sai pela culatra da realidade. Progressistas e militantes adoram esse argumento: “sou criminoso porque fui levado a isso”. Agora, um machão esperto usou a seu favor: “sou fruto de uma sociedade machista”. Não, José Mayer, você não é fruto. Não é vítima. Você é um senhor já avançado em anos e sabe muito bem o que se pode ou não se pode fazer com as meninas. E, ao não aceitarmos a justificativa dele, não podemos aceitar as justificativas deles: progressistas e militantes.

O homem é livre para fazer maldades: homicídio, tráfico de drogas, sequestro, assalto e, que coisa, até mesmo assédio sexual.

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